O tabuleiro está abaulado, mal aguenta a taça de caldo-verde em cima. Passa pouco das sete da tarde e eu já estou sentada, a comer uma sopa e um croquete. É óbvio que não acho que as sete da tarde sejam horas de jantar. Se achasse, dizia “sete da noite”, que é como dizem as pessoas que gostam de comer cedo, para não irem embuchadas para a cama.
Para que fique claro, também não acho que um caldo-verde e um croquete ressequido constituam jantar, mas estou sozinha numa estação de serviço no meio do Alentejo, era isso ou uma sandes que deve ter visto Portugal a ser campeão europeu.
Nas minhas costas, a outra única cliente despede-se do senhor que ali trabalha. Estiveram a conversar sobre uma raposa que costuma aparecer à porta, por volta daquela hora. Se calhar, para as raposas, as sete da tarde são uma hora perfeitamente aceitável para jantar os restos que ficam nos tabuleiros.
Passa-me pela cabeça que, comigo, vai ter pouca sorte: não como desde a hora de almoço, já fui ao meio do nada e voltei. Ou melhor, estou a voltar. A televisão distrai-me com os disparates que apresenta, nem preciso de dizer em que canal está sintonizada − se eu disser que o oráculo me ataca com “PADRE EM ORGIA COMBINA ASSALTO”, já todos sabemos do que se trata.
Tiro uma fotografia à televisão e envio para um grupo de amigos; parece-me a coisa mais significativa do meu dia, isto de estar a comer um caldo-verde e um croquete numa estação de serviço, enquanto vejo as notícias. Reparo que tenho um par de mensagens de voz para ouvir, dezenas de WhatsApps para responder, emails com pedidos de orçamentos para ontem, tudo coisas que ficaram em suspenso enquanto conduzia; posso ter muitos defeitos, mas não mexo no telemóvel enquanto estou ao volante.
Pondero responder, mas sobe-se-me (ou será que desce?) um cansaço que não sei de onde vem. De conduzir tantas horas, é certo, mas não é um cansaço que sinta nos ossos ou nos músculos, nem sequer nos olhos. É como se fosse uma presença que pousa no meu ombro − imitando aquela imagem idealizada do anjinho e do diabo − e que me sussurra ao ouvido que nem sequer vale a pena começar a tentar dar vazão a tudo o que esperam de mim. A esta hora, já as conversas morreram, quem sou eu para me sentar em cima delas e pressionar-lhes o peito ao ritmo de Staying Alive?
Provando que talvez a vida esteja toda escrita num guião de um filme medíocre, daqueles que mostram a mesma coisa de maneiras diferentes para garantir que os espectadores estão mesmo a perceber o que se passa, surge uma notícia de última hora na televisão.
“BONNIE TYLER EM COMA NO HOSPITAL DE FARO”
Embora esteja silenciada, consigo acompanhar os desenvolvimentos através do texto que vai aparecendo. Ao que parece, o coma foi induzido. Pego no telemóvel. Confere, é ela quem canta Total Eclipse of the Heart. Uma vez dancei essa música à beira-rio, nas Docas, com um namorado que, afinal, gostava de homens. A memória assaltou-me assim, sem que pudesse preparar-me. Rir-me-ia se não estivesse onde estou, a última coisa que me apetece é dar margem de conversa ao senhor da caixa.
Constato que não sei como se induz um coma. Devia ter visto mais séries de médicos, como a minha melhor amiga, que as papa todas e sabe quais é que são boas (uma ou duas) e quais é que são dramatizadas (quase todas). No outro dia, li sobre a doença de Huntington num livro, nunca tinha ouvido falar de tal coisa, achei que lhe ia dar uma novidade, mas claro que ela conhecia tudo, desde sintomas a formas de diagnóstico.
Como se induz…
O motor de busca acha que eu quero saber como se induz um parto. A segunda opção é saber como se induz um parto normal. Depois ainda me dá a hipótese de saber como se induz a ovulação. Faz sentido, sou uma mulher, tenho quase 35 anos, estou na altura certa, mais um bocadinho e já não dá, mais um bocadinho e seria uma gravidez geriátrica, se quisesse meter-me nisso já seria mais avó do que mãe. E, enfim, o algoritmo acaba a fazer o trabalho dele: propõe-me as pesquisas que fazem sentido tendo em conta a minha demografia.
Como se induz coma?
Descubro que é um estado de sedação profunda por meio de medicamentos, como os que são usados numa anestesia geral. Induz-se um coma quando o corpo precisa de conservar energias para poder recuperar, depois de grandes traumas ou cirurgias complicadas. E, aparentemente, quando em coma, um paciente não sente nem ouve nada, não tem noção do que está à sua volta.
Estou tão, tão, tão cansada que, de repente, me parece apetecível. Deitava-me numa maca, espetavam-me um cateter (essa era capaz de ser a pior parte), enfiavam-me para lá o que achassem por bem, e eu contava até dez. Não teria de fazer quilómetros de carro, não teria de acompanhar conversas, não teria de responder a emails, não teria de estar a comer um caldo-de verde insosso e um croquete frio. Seria como uma longa sesta, uma sesta de dias, um sono verdadeiramente reparador, de fazer inveja às gomas de melatonina e aos sprays de lavanda.
Que estupidez, está a mulher em coma no hospital e eu a pensar nestas coisas, a invejar-lhe a desgraça. Mas os pensamentos são assim mesmo, pequenos eclipses. Tapam-se uns aos outros, sobrepõem-se. Atropelam-se, por vezes. Arrumo o tabuleiro antes de voltar para o carro, certa de que, mais depressa do que espero, surgirão outros. Mais agradáveis, de preferência.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
