Os grandes movimentos de mudança, verdadeiramente transformadores, têm sempre o mesmo impulso: a necessidade de atuar, de forma firme e decisiva, perante um problema que, de repente, ganhou uma dimensão que pode pôr em risco um projeto, uma sociedade ou até mesmo o desenvolvimento de um país. Esse acontecimento inesperado, mesmo que pudesse ser previsível por mentes mais avisadas, ganha o estatuto de decisivo quando consegue marcar um antes e um depois da sua ocorrência. E, com isso, transformar-se tanto na explosão que põe um veículo em marcha como na gota que faz transbordar o copo onde se tinham concentrado a raiva e o suor de muita indignação. É desses momentos que nascem projetos unificadores de países, mas também as revoltas e as revoluções.
Desde 1957, em plena Guerra Fria, que ficámos a conhecer o significado do chamado “momento Sputnik” – o dia em que os EUA perceberam que, afinal, não lideravam a corrida espacial, quando começaram a ouvir os bip-bip do satélite lançado pelos soviéticos. O resultado foi o que conhecemos: perante a ameaça, o país uniu-se, reuniu os melhores cérebros, ainda mais milhões de dólares, criou a NASA e conseguiu, uma década depois, ser o primeiro a pousar astronautas na Lua, declarando vitória na corrida espacial – decisiva para transmitir a imagem de potência hegemónica, que cimentou após o final da Guerra Fria.
Mais recentemente, assistimos a outras situações marcantes, que ajudam a explicar até o atual estado do mundo. Em 2016, tivemos o “momento AlphaGo” em que uma Inteligência Artificial desenvolvida pela Google DeepMind, derrotou o campeão mundial chinês no milenar jogo de tabuleiro Go. Em resposta, Pequim pôs em marcha um plano para disputar com os EUA a liderança na IA – com os resultados que estamos agora a ver e que tanto assustam Washington e os donos das suas gigantes tecnológicas.
Na União Europeia tivemos também um “momento Sputnik”, com a pandemia de Covid-19. Perante o desafio colossal que era preciso enfrentar, Bruxelas decidiu enterrar alguns tabus que vinham do tempo da crise financeira e, pela primeira vez na História, a UE concordou em emitir dívida conjunta em grande escala nos mercados financeiros mundiais para financiar a recuperação. E avançou ainda com a reforma do Pacto de Estabilidade. Ou seja: fez aquilo que sempre se tinha recusado fazer.
É pouco provável que o clamor que se levantou em Espanha a condenar o despejo da anciã Maricarmen Abascal, de 87 anos, após não conseguir suportar o contínuo aumento da renda de casa, desencadeie outro tipo de ações semelhantes por toda a Europa. Mas também não será prudente descartar de imediato essa hipótese. Até porque Maricarmen não é um caso isolado, como todos sabemos em Lisboa e no Porto, mas também em Paris, Roma, Barcelona, Dublin ou Praga. É, isso sim, um sintoma de algo mais vasto e que, na última década, tem atingido proporções cada vez maiores: a transformação da oferta habitacional num lucrativo mercado imobiliário, cada vez mais caro e dominado por fundos e grandes empresas que apenas procuram lucros rápidos e crescentes.
A crise de habitação é hoje o problema mais transversal e urgente que afeta a maioria das cidades ocidentais. E é também o rastilho mais poderoso para incendiar as sociedades polarizadas, crispadas e sem esperança em que hoje vivemos. As sementes de revolta estão lançadas para quem quiser atiçá-las. Mas também estão a germinar para provocarem um sobressalto cívico, capaz de forçar mudanças.
Todos sabemos que a crise da habitação, tendo em conta o ponto a que chegou em tantas cidades, não se resolve de um dia para o outro. Mas também começa a ser evidente que o problema não será resolvido com as medidas avulsas do costume ou com algumas leis que até podem prometer muito, mas não mexem no essencial: que é alterar o paradigma da oferta.
Se há algo que o “momento Maricarmen” pôs em evidência em Madrid foi aquilo que há muito se observa nos centros históricos de Lisboa e do Porto: o embate frontal entre a vulnerabilidade humana extrema e a frieza implacável da especulação financeira, com a balança a pender sempre para o lado do mais forte, mais poderoso e imensamente mais rico. A habitação tornou-se a principal fratura geracional e de classe dos nossos dias. Os jovens que não conseguem sair de casa dos pais e os reformados esmagados pelos preços partilham agora a mesma trincheira de revolta, um pouco por todo o lado. Por isso, há momentos que não podem ser desperdiçados – nem pelos governos nem pelas populações. Há momentos em que é preciso arriscar e mudar.