“Acho que vamos precisar de um barco maior.” Esta frase, saída da boca do ator Roy Scheider, tornou-se rapidamente a mais célebre de Tubarão, de Spielberg, e uma das mais lembradas da história do cinema. Ela é proferida ao fim de uma hora de filme, quando o grupo de três homens numa frágil embarcação viu, finalmente, a dimensão do animal que perseguia. Em meia dúzia de palavras, estava ali tudo: além de ajudar a alimentar o clima de suspense, aquela meia dúzia de palavras passou a ser usada também, como parábola, em diversas situações, como quando se percebe que alguém não está preparado para a tarefa a que se propôs, que subestimou a dimensão de um problema ou ganhou consciência de que as ferramentas que tem ao dispor são demasiado pequenas para a enormidade do desafio que tem de enfrentar.
É uma frase que, na sua simplicidade, revela os valores da prudência e do bom senso. E da necessidade de um bom planeamento, de forma a evitar surpresas desagradáveis.
O mundo mudou muito, entretanto. Tanto que, ao contrário desses idos de 1975, em que até em Hollywood ainda se acreditava que a justiça iria prevalecer e que os justos acabariam sempre por derrubar os injustos, hoje a prudência e o bom senso passaram a ser características em desuso, associadas, tantas vezes, a espíritos fracos, quiçá medrosos. Foram substituídas pela fé inabalável no progresso tecnológico, pela ganância do lucro desmedido e pelo mais completo desprezo pela vida humana.
A corrida vertiginosa a que se assiste pelo domínio da Inteligência Artificial é o exemplo paradigmático de tudo isto. É um palco onde ninguém admite que está num barco pequeno demais para a envergadura do desafio. Aliás, neste mundo da IA ninguém quer estar no barco – todos querem ser o grande e poderoso tubarão-branco que vai devorar tudo e todos, não importa como e com que consequências.
Os sinais acumulam-se. Na última semana, tivemos conhecimento de como um dos modelos da OpenAI, a empresa do ChatGPT, conseguiu escapar ao controlo, invadir o sistema de uma outra empresa e, como que obedecendo ao seu “instinto”, aniquilar tudo o que foi preciso para cumprir a sua tarefa. Ou seja: aproximando-se daquilo a que se chama ganhar vida própria e, assim, deixar de responder ao seu “criador”.
Soaram os alarmes, mas é difícil acreditar que alguma coisa de importante vá mudar. Há anos que imensos cientistas têm alertado para os riscos do poder descontrolado da IA. Recentemente, uma consulta a 272 especialistas na matéria, conduzida pelo insuspeito MIT, indicou que existe uma probabilidade de 22% de ocorrerem danos catastróficos nos próximos cinco anos, caso o desenvolvimento das ferramentas e dos modelos de IA continuem como estão. E atenção que esses “danos catastróficos” são muito piores do que o ataque do tubarão-branco no filme de Spielberg: foram definidos como mais de um milhão de mortes ou dez mil milhões de dólares em perdas financeiras.
Mas o que é que isso interessa, bem poderia ter dito Elon Musk, na entrevista recente – e histórica – que deu à revista The Economist. Nessa longa conversa, o homem da Tesla e da SpaceX apenas quis sublinhar as virtudes da IA, que trará “dentro de dez anos” um mundo de abundância sem paralelo, em que as pessoas já não precisarão de trabalhar, em que as máquinas desempenham a maioria dos serviços, sejam eles manuais ou criativos. Mas, claro, será um mundo em que as contradições habituais de Musk estarão mais visíveis do que nunca, já que, em paralelo com o paraíso tecnológico, ele prevê também um pesadelo geopolítico em que, por exemplo, o Reino Unido cairá numa guerra civil.
O mais incrível é que Musk também admite que há riscos neste percurso. Só que considera que não se pode fazer nada para travar o desenvolvimento de máquinas com capacidade de substituir os humanos. “O melhor que temos a fazer é aproveitar a viagem”, afirmou.
É melhor que tenhamos consciência do que pode ser essa viagem. Pela amostra que temos tido, será uma viagem em que a era da abundância será apenas para alguns. E em que outros terão de viajar sem cinto de segurança e a uma velocidade cada vez maior, a confiar que a IA não se esqueça de pisar no travão, antes de o carro embater contra o muro. Face ao desvario digital e ao crescente descontrolo das máquinas, o mundo está mesmo a precisar de mais prudência e de bom senso. Ou seja, de um barco maior..