São poucos os livros que leio duas vezes. E quando o faço, é porque entendo que certo autor foi lido ainda em fase de muita imaturidade, pelo que devo regressar para o ler com outros olhos. Assim se passou com o Eça e com Hermann Hesse, a quem regressei nos últimos anos, confirmando que, quando os lera, era demasiado jovem.
Li pela segunda vez o Becos da Memória, da Conceição Evaristo, por motivos bem diferentes. Entre uma e outra leitura, nem dois anos passaram. Contudo, tive a necessidade de regressar ao livro, de entrar novamente nas personagens que se cruzam na vida quotidiana da favela descrita pela Conceição. Faltava muito, muito, mesmo.
Para a temática de Conceição Evaristo, somos sempre jovens demais. Somos imberbes, quase, para a dor e para o sofrimento, para o vislumbre das condições que marcam, não as personagens, mas toda uma sociedade que é por elas representada. Somos ingénuos, até, para compreender a construção de uma normalidade que faz com que quem a vive, nem dê pela anormalidade que essa normalidade é – “todos acreditavam que estavam sendo felizes”, diz Conceição a certo momento.
Mas essa normalidade desumana que se mostra numa sociedade, quase que num ecossistema humano, continua cheia de humanidade. Se a pobreza extrema retira a possibilidade de sonhar, pois nem se conhecem as ideias que se poderiam representar e desejar, essa mesma pobreza não retira o sentir que é o que define o humano. E o dito ecossistema que Conceição Evaristo nos apresenta, encontra-se repleto de gente que, na sua desgraçada vida, vive os mais profundos dos sentimentos.
O texto que nos é dado ler tem uma narrativa central, uma linha condutora que nos mostra a lenta destruição de uma favela, com os barracos a serem desocupados para darem lugar a grandes terraplanagens para construções futuras; mas o mais interessante do texto é a forma quase exemplar com que cada personagem é chamado como que ao púlpito onde é contada a sua história.
Caso a caso, um a seguir ao outro, as personagens são introduzidas através da sua história de vida, daquilo que a torna ímpar e que lhe dá espessura; regra geral, a sua história, as suas feridas abertas na carne da vida. Nesse desenrolar de pessoas, temos um espelho das várias situações e tipificações possíveis. A prostituta, o velho que ainda viveu de perto a escravatura, a mulher que vive com outra mulher, o marido que mata a esposa com pancada, o jovem que luta pelos direitos civis, a idosa com tuberculose, que morre quase sozinha, etc, etc, etc, terminando em Maria-Nova, a única que vislumbra a possibilidade de quebrar esse ciclo infindável de desgraça não desejada, mas para todos inevitável, ou Bondade, aquele de quem o nome diz tudo.
Ao ler Conceição Evaristo, recordo a forma como Isabela Figueiredo trata as suas próprias memórias no seu Caderno de Memórias Coloniais (2009). O texto de Conceição é uma memória fora das memórias. É uma memória coletiva vivida no texto como se fosse uma memória pessoal. No cado de Isabela, é uma memória pessoal que ecoa no leitor como uma memória de todos nós. No caso de Conceição, não se trata da sua memória pessoal, mas da sua memória enquanto uma identidade. É esta a forma literária para dar forma a essa necessidade de a identidade gerir esse imenso lapso de tempo que vai do início da segregação até à sua manutenção nos dias de hoje.
Nas palavras da escritora, são as “escrevivencias”. A forma de viver no texto as feridas marcadas numa identidade e que, assim, não são apenas das personagens, mas são também dos leitores e de todos os que sentem de alguma forma a continuação dessa humilhação genesíaca que parece nunca mais largar aqueles a que se colou.
Ler o Becos da Memória é um exercício que implica humildade e ser capaz de reconhecer que o coletivo se construiu em cima de muita desgraça, de muita dor. Uma dor de humanos que apenas queriam ser humanos como nós.
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