A expressão “casos e casinhos”, tão popular no governo de António Costa, parece estar a converter-se em “casas e casinos” e a ganhar proporções que podem ser desastrosas para quem tem a missão de governar e em particular liderar um governo.
Tudo começou com a revisão da “Lei dos Solos” que, grosso modo, abre um mundo de oportunidades para quem é proprietário de terrenos rústicos, muitos deles encravados entre habitações (mas a isso poderei dedicar outra crónica).
Com a eventual lei a permitir aos donos de terrenos classificados como rústicos construir casas, é natural que estes pedaços de terra se apresentem como “terras raras”. Entre estes milhares de proprietários estão, obviamente, políticos (desde presidentes de junta, passando por presidentes de câmara, indo até deputados, secretários de estado, ministros, presidente da República), que, enquanto legais representantes do povo, têm em mãos a votação das alterações ao Decreto-lei.
Até aqui nada de novo. Afinal, um político pode ser político de carreira ou estar político, mas em qualquer dos casos tem uma vida, um passado, um património. Então o que está a correr menos bem com as “casas e casinos”?
Parece-me simples, mas ao mesmo tempo nebuloso!
Simples porque bastaria ao político, no momento em que veste a pele de político, vender a empresa ou a parte que a sua família direta tem no capital. Uma opção que deveria ser obrigatória por quem é empreendedor e a determinado momento da vida entra na política.
Nebuloso porque vender uma empresa ou participação, só porque se quer abraçar a missão de servir o país, nunca levará a um corte umbilical. Eventualmente se houvesse um período de nojo entre o tempo do convite e a efetiva integração no cargo. Mas, de tão ridícula que é, esta opção nem pode ser colocada em cima da mesa.
O que sobra então? Ter um vai e vem de políticos a justificarem-se perante o eleitor? E quem se disponibiliza para tal? Que político está disponível para expor na praça pública os seus bens, muitos deles herdados?
A história mostra que, em Portugal, político que se expõe, é político que enfraquece. Veja-se o exemplo de Álvaro Santos Pereira, ex-ministro da Economia e do Emprego, que numa tentativa de acabar com os títulos a servirem de nome próprio informou que preferia que o chamassem sempre de Álvaro. A chacota foi instantânea, afinal Álvaro vinha de fora e não conhecia o país.
Voltando ao tema “casas e casinos”, creio que sobra ao primeiro-ministro fazer uma pega de caras e justificar-se aos portugueses. Só assim será e deixará uma marca de confiança num país habituado a que os políticos não abordem detalhes da vida privada.
As declarações de sábado à noite e a manobra de deixar o ónus na oposição, não chega. Luís Montenegro tem que explicar com clareza, as operações da empresa que fundou, depois de a deixar, e clarificar que entregas faz a empresa aos clientes e com que recursos, se todo o funcionamento da empresa e a produção de trabalho for realizada sem a intervenção do primeiro-ministro, tem que reconhecer que a devia ter passado logo aos filhos, fazê-lo agora, e seguir em frente.
Se o funcionamento desta empresa, a sua relação com os clientes, a entrega de trabalho e os recursos humanos que produzem o conteúdo não for clara, o primeiro-ministro perde credibilidade política e fica muito difícil para os portugueses perceberem a independência do governo.
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