Quando jovem, aprendi em Biologia uma definição bastante clara de “colonização”. Diz essa definição: “a colonização é o processo pelo qual uma espécie se espalha em novos habitats”. Alargando a definição e aplicando-a à cultura, podemos dizer que “a colonização é o processo pelo qual uma cultura se espalha em novos meios”.
A complexidade da questão nasce quando nos é dito que temos duas formas desta colonização ocorrer: ou para um habitat vazio, ou sobrepondo-se às espécies que já lá se encontram. O mesmo se aplica à cultura, entrando em jogo o que poderemos referir como consentimento ou adesão, por oposição a imposição.
Em nada os processos de colonização se resumem ao que o senso comum propaga. Tal como em Biologia, a colonização acontece em muitos mais fenómenos que os mediatizados. Mas olhemos para o que hoje é objeto e alvo de tempo e espaço mediático: a História, o passado.

Fruto do desenvolvimento dos direitos cívicos, hoje percebemos que a forma de encarar a cultura, especialmente, o passado, está em mudança, desafiando o que era normal. A sociedade exige outros olhares, outras vozes: não se trata apenas de memória e de cultura, mas da forma de nos vermos, da forma de darmos lugar a nós mesmos numa identidade coletiva, matizada e criada nas múltiplas identidades silenciadas.
A heranças e as tradições herdadas não correspondem a uma sociedade hegemónica ou uniforme. Nem essa uniformidade alguma vez foi realidade, nem os dias de hoje valorizam uma afirmação de unicidade, por mais que identitária ela possa parecer a alguns.
Há múltiplas identidades silenciadas, muitas delas transformadas em orgulho que resulta da construção cultural e de uma certa Síndrome de Estocolmo que tantas vezes se impôs, transformando os invadidos em defensores dos invasores (vejamos, por exemplo, o caso da nossa adesão cultural ao mito de que descendemos do mundo latino, do Império Romano, uma máquina trituradora de povos e de culturas, ou a forma como as elites de antigas colónias multiplicam o modus operandi, levando a sociedade a níveis de desigualdade verdadeiramente “coloniais”).
A História, como instrumento de gestão e consignação da memória coletiva, de uma identidade, é subtil e trabalha as mentes através do que parece óbvio, da criação de senso-comum.
São os silêncios, os apagamentos, as ausências ou, mais refinado, são as visões românticas que enganam o olhar incauto: são as inúmeras categorias de nos representar que nos tolhem a capacidade crítica e construtiva: é o Luso-tropicalismo, mas também o “país de brandos costumes”, a célebre miscigenação e a “criação” do mulato, ou o mítico “encontro de culturas” que, aliás, foi muito mais uma “imposição de cultura”.
Os processos de construção da memoria coletiva sempre foram detidos e dirigidos por quem venceu e formatados pelo que cada geração quer recolher do passado, construindo um “saber oficial” que se transmite nos manuais e na bibliografia de grande tiragem.
O olhar para a História não pode ser um tribunal, e temos sempre de ter em conta os contextos e não analisar o que aconteceu como se pudesse ter tido lugar com as categorias de hoje em dia. Muito menos, devemos olhar para o passado demonizando-o e procurando, em sentido inverso, apagar a História. Ela aconteceu, no seu tempo e com os seus atores, e com os seus aspetos que criticamos e aqueles que foram positivos na construção do mundo que temos. O passado é eterno, nunca mais poderá ser modificado.
O desenvolvimento, como dinâmica que colhe materiais na inovação e na capacidade para criar oportunidades, só acontece fora dos traumas e das verdades formatadas. É da capacidade de questionar, e de ver de diversos ângulos, que nos enriquecemos, sendo mais humanos.
A colonização não teve lugar apenas em África nem foi apenas para com quem vivia ancestralmente nos territórios colonizados. A colonização, como processo de imposição de modelos, teve lugar em todos os quadrantes, dos colonizados aos próprios colonizadores. A colonização da cultura não nos remete apenas para uma realidade, mas para todos os processos de aculturação que, geração após geração, oprimem, escondem, definem verdades.
Descolonizar é valorizar a liberdade, seja a criativa, seja a de opinião, e libertar a cidadania de amos e de servos.
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