Luís Montenegro prometeu fazer um esclarecimento sobre as suspeitas que recaíam sobre a sua vida empresarial, mas acabou por não conseguir ser elucidativo e, muito menos, clarificar o que pretende fazer politicamente.
Perante novas suspeitas sobre a sua atividade empresarial e o avolumar de diversas notícias que precisam de explicação cabal, o que o País esperava do primeiro-ministro era simples e objetivo: uma postura de total e absoluta transparência, através de um discurso claro e direto, sem direito a segundas interpretações, como é exigível numa sociedade democrática, num momento solene como o de um discurso à Nação. Essa exigência aumentou quando, ainda por cima, ele optou por se apresentar nos ecrãs, numa coreografia previamente ensaiada, acompanhado por todos os seus ministros.
Em vez disso, Luís Montenegro optou pela ambiguidade. Ao longo de 20 minutos de comunicação, reafirmou que já deu todas as explicações em relação às suspeitas que o perseguem e anunciou que vai cortar a ligação com as empresas familiares em causa. Depois, falou da família, de forma emocionada, e elencou, pasta a pasta, o que considera serem as maiores “conquistas” do seu executivo. Mas deixou para o fim, naturalmente, a mensagem que queria passar, através de uma frase que é, por si só, quase um lema para uma próxima campanha eleitoral: “A crise política deve ser evitada, mas pode ser inevitável”.
Ao enfrentar uma crise séria de credibilidade, o primeiro-ministro optou por fazer abanar o fantasma da crise política e a possibilidade de novas eleições antecipadas – que, como já se percebeu, não é a solução desejada por nenhum dos partidos com assento parlamentar.
Só que, apesar da tática ter sido muito ponderada e demoradamente avaliada, não deixou de se revelar também muito trapalhona. De tal forma que, no final do discurso, ninguém ficou a saber se Montenegro pretende mesmo apresentar ou não uma moção de confiança ao Governo, no caso de continuarem a avolumar-se as suspeitas a seu respeito.
A ambiguidade não foi, no entanto, inocente. Ela ajuda a criar incerteza e, dessa maneira, a fazer apontar as culpas sobre quem for o responsável por uma nova e suposta crise política. E, com isso, desviar o debate e as atenções. Com uma dúvida que precisa, no entanto, de ser esclarecida nos próximos dias: a moção de confiança esgrimida por Montenegro é uma arma de destruição massiva ou uma simples manobra de diversão?