Sinto-me como o rapaz que conduzia a mota no poço da morte. Estou prestes a tentar uma habilidade muito perigosa. Ouço a voz do altifalante, que avisa: “Cuidado, Panchito! Teu pai morreu ao executar este número!” Mesmo assim, avanço. O objectivo é explicar ao povo português o que se passou no domingo passado. Uma das dificuldades é o facto de, aparentemente, o povo português não ter a mais pequena curiosidade em saber. A outra dificuldade é que eu próprio não percebi muito bem o que se passou. Vamos então recapitular: primeiro, foi a campanha eleitoral. O tema central foi a questão de saber se é ou não admissível chamar vírus ao PS. A troca de argumentos foi inconclusiva, e sentimos todos a falta de debates, para esclarecer o problema. Mas os socialistas ficaram indignados com Paulo Rangel, e Paulo Rangel ficou indignado com aquela indignação. Os socialistas só não se indignaram com a indignação de Paulo Rangel relativamente à sua primeira indignação porque, infelizmente, entretanto a campanha terminou. Acabou por se registar um empate (1-1), em indignações. Proponho um sistema de penalties da indignação, sempre que este tipo de fenómeno volte a verificar-se.
No sábado, o Presidente da República apelou ao voto de todos os portugueses. No dia seguinte, registou-se a maior abstenção de sempre. Cavaco Silva é muito mobilizador, mas não conseguiu competir com um daqueles dias em que não estava bom tempo para a praia nem havia futebol. Talvez não seja boa ideia colocar um homem que nunca pôs um cravo na lapela a apelar ao bom funcionamento do regime nascido da Revolução dos Cravos.
Depois, saíram os resultados. O PS teve uma vitória extremamente humilhante. António José Seguro nem ganhar sabe. Venceu e ficou com o lugar em risco. Por outro lado, a direita teve a maior derrota de todos os tempos, o que lhe deu alguma esperança no futuro. Nenhum dos seus dirigentes foi posto em causa.
Após três anos de uma política de direita que empobreceu o país, o eleitorado decidiu castigar o Bloco de Esquerda, que passou de terceira para quinta força política. O PCP aumentou o número de deputados e vai apresentar uma moção de censura por considerar que o governo, após ter perdido grande parte da sua base de apoio, deixou de legitimidade para governar. Supõe-se que a moção seja dirigida também ao Bloco de Esquerda que, após ter perdido grande parte da sua base de apoio, terá deixado de ter legitimidade para fazer oposição.
Entretanto, Marinho e Pinto foi eleito e os responsáveis do seu partido disseram que, se a comunicação social o tivesse deixado falar, o candidato teria obtido um resultado ainda melhor. É exactamente o contrário. A ingratidão é muito feia.