Este artigo inaugura a série “Brasil, que país é este?”, tendo como objetivo a elaboração de uma radiografia sociopolítica do que entendo serem as grandes questões da formação social brasileira, procurando apresentar elementos para que possamos analisar e acompanhar as eleições presidenciais de outubro de 2026 com uma veia histórica crítica e de longa duração.
Um contexto: as ideias-força que constam neste texto foram escritas no dia em que Jair Bolsonaro (o totem) foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes; assim como, generais e almirantes das Forças Armadas (FA) – que categorizamos como o Partido Fardado no Brasil. Todavia, mesmo que processo seja um “acerto de contas” entre a direita tradicional (oligárquica) e a direita neofascista/integralista brasileira – analiso e identifico como uma tentativa de reconfiguração hegemónica nesse campo político, é evidente que essas condenações têm um significado importante e ímpar na história brasileira, visto que o golpismo do Partido Fardado tinha, até hoje, permanecido impune, especialmente depois dos 21 anos da ditadura empresarial-militar (relação esta demonstrada no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho).
Agora, Jair Messias Bolsonaro e generais “cinco estrelas” das FA estão encarcerados a cumprir as suas penas – o ex-presidente encontra-se, neste momento, em prisão domiciliária temporária por motivos de saúde – conquanto permaneçam ilibados daquilo que compreendo serem crimes contra a humanidade e daqueles que podem deixar um “legado” político para a direita brasileira.
Imagino que alguns leitores/as podem estar a interrogar-se sobre o porquê ou mesmo “surpreendidos” com a minha afirmação enfática de que “Bolsonaro continua impune!”, visto que neste momento está preso e a pagar pelos seus crimes. Explico-me. O ex-presidente brasileiro, assim como os militares das FA, continuam sem punição relativamente aos seus crimes mais graves: o genocídio da pandemia do Covid-19. A sua política de Estado negacionista e criminosa exterminou a vida de 716 mil brasileiros/as – muitos desses mortos foram enterrados de modo indigno em valas comuns – pois, como estudos epidemiológicos já apontavam em 2021, “quatro de cada cinco mortes teriam sido evitadas se estivéssemos na média mundial”, segundo o cientista Pedro Hallal. Ou seja, a opção política foi pela morte sistemática!
A estratégia genocidária de combate ao vírus da Covid-19, de um governo com traços neofascistas, foi uma suposta “imunidade de grupo”. Observemos o “fundamento” desumanizador da fraudulenta suposição, assim como o curandeirismo e charlatanismo: Bolsonaro prescreveu medicações sem efeito comprovado cientificamente, no que foi, em certa medida, chancelado pela ordem dos médicos brasileira, Conselho Federal de Medicina (CFM). O ponto mais visível dessa política fatal ocorreu na cidade de Manaus, quando centenas ou milhares de pessoas morreram por falta de oxigénio, porque o governo federal decidiu fazer da capital do Estado do Amazonas um laboratório do falso “tratamento precoce e do kit covid”. A consequência foi um espalhamento brutal do vírus, ao ponto de faltar oxigénio de forma generalizada na cidade Manaus, leitos hospitalares, medicamento e afins; teve uma mobilização nacional e estrangeira para levar oxigénio e transferir doentes. Sem contar o “atraso letal” na compra das vacinas, pois, segundo Bolsonaro “não tinha vacinas para vender”, etc.
A política mortífera do Partido Fardado no governo central – a governação mais militarizada da História brasileira – não apareceu “do nada”, ou seja, faz parte da longa história colonial, autocrática e reacionária do país. Isto é, a persona política do Bolsonaro cumpre o papel de um “totem”, uma figura capaz de incorporar na esfera da política institucional-civil, os valores e interesses da política dos quartéis e das classes possidentes, como analisou um dos mais argutos estudioso da questão militar no Brasil, Pedro Marin. O bolsonarismo, enquanto corrente política, é marcado também pela lógica da “família militar” e uma formação militarizada e ideológica que lhes entroniza uma visão “elitista” e superior entre os fardados (militares) e os apaisanas (não pertencentes a família).
Nesse esteio, Bolsonaro e o governo, quando “reagem” à situação pandémica, começam por dizer, em comunicado a nação, que seria uma “gripezinha”, ou seja, a desprezar a gravidade do vírus, e que o ex-presidente, pelo seu “histórico de atleta, não precisaria se preocupar”. Essa retórica tinha como objetivo alimentar um imaginário ideológico racialista e eugenista, o “darwinismo social” – a sobrevivência “dos mais fortes”; assim como, banalizou as mortes, pois, quando questionado sobre o facto de o Brasil ter ultrapassado a China em números de mortes, soltou um “e daí?”; noutros momentos disse “não sou coveiro” e também imitou pessoas infetadas pelo vírus com falta de ar; no que tange a sua propaganda antivax, chegou a dizer que quem tomasse a vacina da Covid poderia virar “jacaré”; ainda, que o Brasil era um “país de maricas”, porque pessoas convalesciam dos efeitos da Covid-19 – portanto, sofrer seria coisa de mulheres e gays; entre muitas outras frases de lógica fascizante, misógina e racista que foram propagadas por Bolsonaro, os bolsonaristas e militares – o delator do ex-capitão do Exército, coronel Mauro Cid, aparentemente falsificou também o comprovativo de vacinação do ex-presidente do Brasil. Na aparência, parecem que estavam a brincar e tripudiar com a vida das pessoas, contudo, é mais do que isso, porque é expressão mais evidente e sem cinismo da essência histórica do projeto político e societário que a atravessa a longa história do Brasil.
Até agora, Bolsonaro e os militares continuam impunes em relação a esses crimes. Essa tragédia brasileira não pode ser normalizada, e muito menos esquecida, porque eles foram condenados e estão privados de liberdade – e muito bem – por tentativa de golpe de Estado. O bolsonarismo não é uma deformidade na História do Brasil; infelizmente, eles são apenas a versão mais reacionária, organizada e violenta que conhecemos nos últimos anos. A Comissão Parlamentar de Inquérito, a “CPI da Covid”, ficou, até agora, sem consequências concretas – o máximo que tivemos foi o juiz do Supremo, Flávio Dino, que tomou a decisão de investigar Bolsonaro. Mas só! Ele, enquanto expressão do Partido Fardado, nunca enganou ninguém – essa é uma das suas “virtudes” – em relação ao seu projeto de sociedade: “a minha especialidade é matar”. Lamentavelmente, muita gente não o levou a sério quando disse isso, em 2017. Mesmo depois de mais de 700 mil mortos e da sua política sanitária de morte, Bolsonaro teve 58 milhões de votos em 2022 e o seu filho, Flávio Bolsonaro, pré-candidato “no lugar do pai”, parece estar em segundo lugar nas sondagens e com possibilidade de ir à segunda volta com Lula da Silva.
O meu realismo e racionalismo político fizeram-me sentir uma alegria* contida com a sua prisão e com a das altas patentes militares. Nunca o golpismo tinha sido punido na História brasileira; entretanto, precisamos de um “tribunal de Manaus” para julgar Bolsonaro, os militares e os civis que estavam no governo e promoveram esse genocídio. Saliento: não é uma banalização do termo; houve uma intencionalidade muito evidente – para os mais puristas e melindrosos, que têm medo de chamar as coisas pelo que elas são. Precisamos de construir memoriais em todas as cidades, para relembrar as vítimas da Covid-19, e de políticas sociais de apoio às pessoas que sofrem de Covid longa, etc. – pelos vistos, isso não é uma prioridade do governo Lula III, só mesmo a austeridade e a rendição política, ao articular com setores da direita uma diminuição da pena dos golpistas.
Esses são os crimes mais graves e seguem impunes. Insisto: não podemos normalizar esse tipo de política; ela tem um efeito de dessensibilização social que nos faz olhar para o genocídio em Gaza e sentirmo-nos, na generalidade, apáticos perante mais uma tragédia humanitária. Nesse sentido, tenho o entendimento filosófico-histórico de que o primordial na política não é estabelecer diálogos em abstrato, mas delimitar o que é inegociável concretamente, isto é, a lógica mortífera de matriz colonial, visível ou invisível, deveria ser um traço que não deveria ser ultrapassado. (Infelizmente, a Chacina de 28 de outubro, no Rio de Janeiro, parece tê-lo ultrapassado mais uma vez.) Penso que esse tipo de projeto societário continua a reemergir, nas suas diferentes versões nacionais, “porque não cortamos o ‘mal’ pela raiz” – numa expressão popular brasileira.
Este é um texto escrito em homenagem a todas as vítimas da pandemia, na sua maioria pessoas pobres e subalternas, que, infelizmente, não puderam viver para ver os genocidas presos, mesmo que não seja pelos seus crimes mais atrozes. Não poderia encetar esta série, “Brasil, que país é este?”, sem rememorar uma das tragédias recentes mais violentas e marcantes da sua história.
No próximo artigo abordarei a intentona golpista de 8 de janeiro de 2023.
* Gostava de salientar um ponto, enquanto cientista social: sou objetivo e verdadeiro com os factos e elementos históricos que estudo, analiso, interpreto e escrevo. Contudo, não sou imparcial. Esta ilusão muito repetida serve para legitimar posições daqueles que procuram defender a ordem social que existe ou não querem ter os seus trabalhos postos em causa ou em dúvida. Todavia, relembro, até o ato de elencar estes factos e não outros implica uma “escolha” ou um viés, portanto, quero salientar os/as leitores/as não estão a ser ludibriados, fiquem à vontade discordar ou contestar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.