Trump é quem mais ordena − Nunca pensei, como cidadão comum, ver/viver em minha vida coisas como as que estou a ver/viver hoje. O que tenho a certeza acontece com muito mais gente de variadas gerações. E não estou a referir-me, infelizmente, aos enormes progressos científicos e técnicos, mesmo sociais e comportamentais, verificados em diversos domínios. Eles têm existido, mas estão hoje longe de assumir a dimensão das desgraças, das violações dos Direitos Humanos e de valores essenciais de um mundo livre e civilizado.
São inúmeros os exemplos desta tristíssima realidade. Mas nenhum tão “obviamente ululante”, em simultâneo tão terrível como incrível e caricato, de tão asfixiante presença e tão trágicas consequências, como o de Donald Trump. Presidente dos EUA e, de facto, “senhor do mundo”! A ONU, o direito internacional, o respeito por países, povos e pessoas (incluindo pela sua vida), pela verdade, pelo simples bom senso ou pela simples decência, não contam: Trump é quem mais ordena.
Trump pode dizer uma coisa hoje e o seu contrário amanhã, não importa: o que diz é que dita, do preço do petróleo ao perigo de destruir oito séculos de civilização. Sentado na sua secretária na Casa Branca, rodeado de uma pequena legião que, de pé, o contempla, aplaude ou admira em respeitoso silêncio – ele, aquele homem com o pensamento, o passado, a formação política e o estofo moral que se conhece, é que decide os destinos do mundo!
Assim na Terra como no Céu − Há centenas de milhares de mortos, cidades arrasadas, bairros destruídos, milhões de homens, mulheres, crianças sem teto e sem pão (e nisso tendo papel decisivo Netanyahu e Israel, o país que mais vezes violou as decisões da ONU, sempre impunemente), milhões de pessoas não vivendo mas sobrevivendo, nem se sabe como. E o Presidente do país mais poderoso do planeta, Trump, que quer ser Prémio Nobel da Paz, é o senhor da guerra.
Mais: soube-se agora, ele próprio informou, que é também o Divino Espírito Santo, pois a ele, Trump, deve Leão XIV a sua eleição como Papa − Papa que já recriminou como ele sabe. Ele, também Jesus Cristo, como, com a ajuda da IA, expressivamente se representou, curando um doente… Imagem depois substituída por outra em que aparece com a sua cabeça encostada à de Jesus. Trump: “Assim na Terra como no Céu”…
O inimaginável, versão Trump caseiro – Ora, em Portugal, tem sido o nosso “Trump caseiro” a fazer-nos ver/viver o inimaginável. São inúmeros os exemplos disso, mas agora fico-me pelo do seu − de André Ventura −, discurso no Parlamento, na comemoração dos 50 anos da Constituição da República.
De facto, como seria “imaginável”, há meia dúzia de anos, que alguém, para mais deputado, e ainda por cima “duce” de uma bancada parlamentar com 60 cadeiras, 52 anos depois de uma revolução que derrubou uma cruel e decrépita ditadura; uma revolução em todo o mundo conhecida como “dos cravos”, por não ter havido outra tão pacífica e sem derramamento de sangue (os três mortos no dia 25 de Abril foram os últimos assassinados pela PIDE); uma revolução com todos os seus princípios democráticos e humanistas institucionalizados na Constituição que se celebrava − fosse classificada por Ventura como “uma revolução miserável”?…
Como seria “imaginável” que alguém, mesmo o mesmo Ventura que tem feito da mentira, da difamação, da propagação do ódio, seu instrumento constante, levasse o seu despudor ao ponto de afirmar ter havido mais presos políticos depois do que antes do 25 de Abril? (o imediatamente antes e depois pressupõe uma “falsa comparação”, porque o depois abrange os que durante 48 anos cometeram crimes impunes, mormente na polícia política).
O desafio de Pacheco Pereira – Face a esse inqualificável discurso de Ventura, José Pacheco Pereira (JPP) entendeu “desafiá-lo” para um debate televisivo. Com o óbvio e louvável objetivo de desmascarar as suas mentiras, distorções e calúnias, como sempre visando atacar o 25 de Abril e propagandear a ideologia, se assim se lhe pode chamar, de extrema-direita, populista e racista, do Chega. Ventura claro que aceitou, acredito que com grande satisfação…
É claríssimo que JPP cumpriria o seu objetivo se… pudesse falar e houvesse de facto um debate e não, mais uma vez, como sempre com Ventura, um espetáculo vergonhoso, inadmissivelmente permitido por um alegado ou hipotético moderador, a não cumprir o seu dever como jornalista.
Um espetáculo em que Ventura interrompe constante e sistematicamente o outro, fala, sempre mais alto, por cima dele, usa uma panóplia de conhecidos truques (muito facilmente desmontáveis se o adversário conseguisse fazer-se ouvir…), falta à verdade, deturpa, manipula.
Extraordinário, e para mim incompreensível, é JPP, com o seu muito saber e a sua larga experiência, ter feito aquele desafio e aceitado a sua concretização, sem ter garantias de o debate ser limpo, decente, com igualdade de armas – e não o que foi. Tanto mais que penso logo à partida se levantarem algumas dúvidas: por exemplo, o discutir-se com Ventura, sabendo como ele é e como atua, se houve mais presos políticos antes ou depois do 25 de Abril, o que pela sua evidência não é sequer uma questão, muito menos de opinião, não poderia ter como consequência levantar entre os menos esclarecidos dúvidas de todo injustificáveis e que não tinham antes?
Não cabe aqui analisar o que foi esse espetáculo, a vários títulos degradante, que me indignou (como a tanta gente), e trouxe à tona o advogado do Plenário e de outras lutas que na circunstância teria atuado de forma diferente. Pacheco Pereira é hoje um excelente historiador, comentador, homem de ação e de cultura, militante cívico – bastava a Ephemera para o tornar credor da nossa admiração e da nossa gratidão –, mas neste caso a intenção foi muito boa, o resultado foi mau…
A falta de assunto à portuguesa
A par da polícia política, a censura foi o mais importante instrumento de repressão e manutenção da ditadura durante quase meio século. Hoje, em geral não se faz bem ideia de quão dura, arbitrária, prepotente, eficaz no pior sentido e abrangendo tudo, ela foi. E da censura Ventura não costuma falar… Conhecia-a bem e sofria-a muito, como jornalista, advogado e cidadão. Em véspera do 25 de Abril, publico aqui (encontrei por acaso uma sua “prova”) a salvo erro última crónica que a Cansura me cortou, com o título em epígrafe, na minha coluna Fogo Livre, no diário República de 23 de março de 1974, uma semana depois do “golpe das Caldas” e 33 dias antes do 25 de Abril.
“A falta de assunto já serviu de assunto a cronistas de todo o mundo aos quais foi imposto, ou a eles próprios se impuseram, uma presença certa, periódica, nas páginas de um jornal ou de uma revista.
Porém, nunca um verdadeiro cronista ou colunista português deve ter tido tantos, tão importantes e palpitantes assuntos como nestas últimas semanas. E apesar disso, ou por isso mesmo, esteve ausente este Fogo Livre que se anunciou para todas as quintas-feiras, em pontual diálogo com os leitores.
Como não queria prolongar esta ausência, resolvi também eu escrever nesta tribuna sobre a falta de assunto. Ou melhor, a falta de assunto à portuguesa: olhar em volta e ver tanta coisa, tanta, impondo-nos palavras, nosso ofício; palavras de indignação ou revolta, palavras de análise e denúncia, palavras de alegria ou tristeza, palavras de esperança ou entusiasmo – palavras que nos morrem ou, pior, apodrecem no peito que nunca conheceu a naturalidade de uma respiração livre; ou que assomam, inquietas, receosas, à tecla da máquina ou ao aparo da caneta, para logo, medindo-se, calculando, se enlearem no papel, buscando outras que as escondam, ou disfarcem, espreitando só nas entrelinhas, piscando o olho ao leitor, fazendo apelo a exercícios de inteligência ou perspicácia, dizendo, quando dizem, a quem menos importa dizer – os que já sabem…
E palavras que assim castradas, assim mascaradas, assim medidas, assim tão poucas, ainda outros matam de uma nova morte, uma morte azul, que é a cor do céu e do mar!…
Para depois ter de se concluir que nunca nos falta tanto o assunto como quando há mais, e fundamentais, assuntos que se nos impõem. E ter de se concluir que a falta de assunto, à portuguesa, é para o cronista como a tourada à espanhola é para o touro – de morte. O que, óbvio, constitui apenas uma metáfora, pois também a nós não nos matam, apenas nos embolam e farpeiam – piedosamente.”