Havia razões mais do que suficientes para desconfiar de “Michael” antes mesmo de a luz se apagar na sala. Um biopic de grande estúdio sobre Michael Jackson, com apoio da família, com o sobrinho Jaafar Jackson no papel principal e com aquele perfume industrial de “vamos transformar trauma em espetáculo e espetáculo em dinheiro”, parecia, à partida, uma receita para mais um santinho de altar pop em formato IMAX. E a verdade é que o filme de Antoine Fuqua [“O Protetor: Capítulo Final” (The Equalizer 3) 2023], que estreou em Portugal a 22 de Abril, não faz exatamente um esforço hercúleo para fugir dessa suspeita.
Mas pronto, convém começar pela surpresa, porque ela existe. E não, não estou a falar de uma súbita coragem moral de Hollywood, porque isso seria pedir à indústria americana para trocar o champanhe por água benta. A surpresa está no facto de “Michael” não ser o mono mecânico e totalmente inerte que muita gente receava. Não é uma grande obra, não é um filme particularmente profundo, não é um retrato arriscado e está longe de enfrentar a criatura em toda a sua dimensão contraditória. Mas tem nervo nos números musicais, tem alguma envolvência sempre que decide lembrar-nos porque é que Michael Jackson não foi apenas uma estrela, mas uma espécie de curto-circuito planetário em forma humana. E, acima de tudo, tem Jaafar Jackson, diga-se com justiça.
É aqui que o filme ganha a sua principal razão de existir. Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, um dos irmãos dos The Jackson 5 — e também um dos produtores executivos do filme, o que significa que a família não se limitou a dar a bênção, também lá pôs dinheiro —, não entra apenas em cena como truque de marketing genético. Em muitos momentos, entra mesmo como presença. Há ali qualquer coisa de impressionante na forma como reproduz o corpo, o sorriso, o recorte do rosto, os movimentos, a energia, a delicadeza artificial, aquela mistura de fragilidade e precisão clínica que fazia de Michael Jackson um intérprete vindo de outro sistema solar. É evidente, sobretudo nos temas musicais, que a voz não é dele, ou pelo menos não é dele no sentido puro e integral da coisa. Mas isso quase passa para segundo plano, porque o trabalho físico é tão certeiro que há momentos em que o espectador deixa de estar a ver um sobrinho aplicado e passa a olhar para uma aparição tecnicamente muito eficaz do mito. A crítica internacional, aliás, foi bastante mais generosa com Jaafar do que com o filme em si, sublinhando precisamente a sua capacidade de encarnar Michael com uma precisão quase fantasmática.
O santo, o pai tirano e o resto varrido para debaixo do “moonwalk”
O problema é que “Michael” sabe muito bem o que quer fazer com esse talento todo: não quer tanto compreender Michael Jackson como quer reintroduzi-lo no mercado da veneração respeitável. E isso nota-se logo na maneira como o filme organiza os pecados, distribui as culpas e seleciona os monstros. Joe Jackson, o pai, aparece como o grande ogre doméstico, o tirano fundador, o homem do cinto, da humilhação, da pedagogia à paulada e do terror emocional. E atenção: não é propriamente uma invenção tirada da cartola. A brutalidade de Joe Jackson faz parte da mitologia sombria da família há décadas. O problema não é esse. O problema é a utilidade dramática dessa escolha. O pai torna-se aqui o grande mau da fita, quase como se bastasse colocá-lo no centro da culpa para o resto da narrativa poder circular com as mãos lavadas e a consciência em modo aromaterapia. Ou seja: o filme diz-nos, com muita subtileza de marreta, que Michael foi um génio ferido, um miúdo explorado, uma vítima da máquina familiar, um artista sensível que queria apenas cantar, dançar, curar o mundo, visitar crianças doentes nos hospitais pediátricos e, imagino eu, resolver até o conflito israelo-palestiniano se lhe sobrasse um intervalo entre “Beat It” e “Billie Jean”. É a velha tentação do biopic contemporâneo: transformar sofrimento em desconto moral. Sofreu? Então compreende-se. Foi explorado? Então relativiza-se. Teve uma infância horrível? Então a narrativa começa a pedir-nos não reflexão, mas absolvição emocional em prestações.
Ora, com Michael Jackson isso nunca poderia bastar. E o filme sabe-o. Tanto sabe que opta por não ir lá. A questão mais incómoda da vida pública de Michael Jackson não é enfrentada, nem sequer encarada de lado com aquele ar embaraçado de quem viu o elefante na sala, mas prefere comentar o candeeiro. O filme termina antes de esse território se tornar incontornável, e a crítica tem sido clara ao apontar essa omissão como uma forma de contorno, suavização ou simples fuga. A Associated Press resumiu isso de forma quase cruelmente certeira: o filme não toca sequer de raspão nesses factos, passa por eles em moonwalk. E a imagem até faz sentido: o moonwalk, popularizado por Michael Jackson em 1983, cria precisamente essa ilusão de deslizar para trás enquanto parece que se avança. A Reuters também noticiou que as referências às alegações foram retiradas e que o projeto acabou reposicionado como uma “celebration story”. Refiro tudo isto já com o filme visto, acabado de sair da sala de cinema: o Teatro Tuschinski, uma das salas mais bonitas do mundo, em Amesterdão.
E pronto, estamos conversados. Isto não é exatamente um retrato total. É uma operação de montagem. Uma versão autorizada. Uma narrativa em que o génio entra pela porta grande, o pai abusivo fica com o papel de demónio oficial e o resto é tratado como assunto para sequelas, advogados ou almas particularmente masoquistas. Até porque, no fim, surge a promessa de continuação: esta história vai continuar, depois do concerto mais famoso de Michael Jackson em Londres, a 16 de Julho de 1988, no Estádio de Wembley, durante a Bad World Tour. Um espetáculo histórico, com a presença da princesa Diana e do príncipe Carlos, e que mais tarde viria a ser lançado em DVD. Um portento e um momento mágico do mito.
Um filme que funciona melhor quando se cala e deixa a música trabalhar
Dito isto, também não vale a pena fingir que o filme não tem prazer, energia e algum poder de sedução. Tem. E tem porque Michael Jackson continua a ser maior do que quase tudo o que a cultura pop fabricou no último meio século. O homem não lançava apenas canções: lançava acontecimentos sísmicos. Não fazia videoclipes: refundava a escala visual do entretenimento. Não dançava: humilhava a anatomia normal do ser humano. Há ali uma sucessão de recriações — do período dos The Jackson 5 ao esplendor de “Thriller”, “Beat It”, “Bad” e companhia — que pode não ter a centelha de invenção do original, mas consegue pelo menos reproduzir parte do espanto.
Antoine Fuqua, que conhece bem o músculo da imagem e a eficácia da encenação, percebe isso melhor do que o argumento. Quando o filme se põe a explicar Michael Jackson, tropeça. Quando o filme se limita a mostrá-lo em combustão performativa, melhora logo. É quase como se “Michael” fosse mais convincente enquanto concerto dramatizado do que enquanto cinema biográfico propriamente dito. O que, pensando bem, talvez seja a definição perfeita desta coisa toda: menos um filme sobre uma pessoa do que um espetáculo de reposição de marca com momentos de verdadeira competência cénica.
É por isso que saí da sala mais surpreendido do que rendido. Estava à espera de uma catástrofe embalsamada, de uma espécie de “Bohemian Rhapsody” com luva branca, chimpanzé digital e reverência hereditária a escorrer pelas paredes. E não, não é bem isso. Ou melhor: é isso em parte, mas não apenas isso. Há uma eficácia inegável em vários momentos, há um fascínio que resiste, há um ator central que sustenta imenso, e há uma consciência industrial tão afinada da dimensão icónica de Michael Jackson que o filme, mesmo quando falha, raramente se torna irrelevante.
O que não há é verdadeiro risco. Não há desordem. Não há a sensação de que alguém quis filmar um ser humano inteiro. Há antes a ideia de que se quis preservar uma divindade pop suficientemente utilizável para consumo público, nostalgia geracional e eventual expansão do universo Jackson, que, neste ritmo, ainda acabará por ter spin-off do chimpanzé Bubbles, prequela do chapéu de “Smooth Criminal” e série limitada sobre a luva. Não ponho isso fora de hipótese. Em Hollywood, um cadáver rentável é sempre só o começo.
No fim do filme, o que realmente sobra entre o brilho da lenda e o vazio do retrato
No fim de contas, “Michael” interessa menos como grande filme do que como sinal revelador do nosso tempo. Por um lado, confirma o óbvio: Michael Jackson continua a ser um animal mitológico da cultura popular, alguém cuja obra ainda comanda o corpo coletivo com uma autoridade absurda. Por outro, confirma também que a indústria não sabe — ou não quer — filmar a totalidade da sua contradição. Prefere o brilho ao abismo, a coreografia ao conflito, a hagiografia ao incómodo.
E, no entanto, mesmo nessa forma domesticada, o filme deixa escapar qualquer coisa que talvez nem queira confessar. Deixa escapar que Michael Jackson continua a meter medo. Não medo no sentido barato do escândalo de tablóide, mas medo enquanto figura artística inclassificável, demasiado grande para ser reduzida a slogan, demasiado estranha para caber numa lição moral e demasiado poderosa para ser descartada com superioridade higiénica por quem acha que basta apagar uma canção da playlist para resolver a história.
“Michael” não é uma obra-prima, nem sequer anda perto disso. É um biopic polido, estrategicamente cauteloso, emocionalmente limitado e narrativamente muito mais obediente à lógica da preservação do que à do cinema. Mas também não é o descalabro absoluto que se anunciava em certos obituários críticos escritos antes do enterro. Funciona várias vezes, sobretudo quando deixa a música entrar, quando Jaafar Jackson toma conta do ecrã e quando o filme se lembra, ainda que por instantes, de uma verdade simples: Michael Jackson não foi apenas famoso. Foi uma mutação da fama.
O problema é que, para fazer um grande filme sobre ele, não bastava filmar a lenda. Era preciso ter coragem para entrar na zona contaminada onde a obra continua a brilhar e o homem continua a não caber em paz nenhuma. “Michael” prefere ficar à porta, ajeitar a lapela, pôr o chapéu de lado e dançar em bicos de pés por cima do incómodo. Vê-se bem, entretém bastante, surpreende mais do que se esperava e confirma o essencial: o ídolo ainda mexe. Só que o filme, esse, mexe menos do que devia.