Querida Chéu,
Espero que estejas bem e me perdoes a ausência deste último mês. Por vezes o corpo toma conta da cabeça e a dor toma conta da escrita e não há meio de terminar uma carta sem correr o risco de a tornar banal, inócua ou demasiado reveladora de um estado de alma que não pretendemos partilhar. Não por vergonha, não por orgulho, mas porque o silêncio também alimenta e é uma boa cerzideira.
Tenho pensado muito no que vale a pena escrever. Falar de vergonha é por vezes um assunto desavergonhado, e talvez seja importante medir e instaurar a distância certa entre a coragem que não se tem para falar de alguns assuntos e o espaço desmesurado que a obscenidade e a insustentabilidade de algumas situações ocupam nas nossas vidas. Corremos diariamente o risco de ocupar um espaço salutar de pensamento livre sobre incómodos que nos desconcertam com lixo e frases feitas que empecilham mais do que esclarecem. Que te estou eu a tentar dizer? Estou a tentar confessar-te que sinto necessidade de me debruçar sobre aquelas vergonhas que estão debaixo do tapete e das quais me gostaria de livrar mas não sei se as posso atirar para o outro lado da barricada. Não sei se as possa passar para o outro lado, reconheces? São vergonhas minhas que tenho de manter deste lado para poder mudar todos os lados. Que quererei eu dizer com isto?
Nas últimas semanas, talvez meses, tenho colecionado artigos sobre assuntos que me desconfortam e sobre os quais é difícil escrever por falta de vocabulário, opinião formada ou mesmo ignorância. Por exemplo: tive o prazer de me sentar ao lado de Miguel Carvalho numa sessão de autógrafos e de lhe agradecer as múltiplas investigações sobre temas dos quais ninguém gosta de escrever ou mesmo ler. Como o artigo de fundo sobre a violência doméstica exercida sobre homens. Acompanhei, durante anos, um amigo que foi pai de uma gravidez indesejada e a invisibilidade do sofrimento dos homens perante uma decisão que os afeta de forma (também) tão fundamental e, no entanto, tão distante dos seus corpos, é algo que me faz interrogar a simplicidade do slogan “ é o meu corpo, sou eu que decido”, sem por outro lado deixar de querer acautelar que nenhuma mulher deve ser obrigada a gerar e a educar um filho que não quer ter só porque a “sorte”, a circunstância, um preservativo rasgado, uma violação ou mesmo o desejo irresistível de estar com um homem lhe tenham criado este dilema no percurso da sua vida. Da mesma forma, e apesar de ser uma acérrima defensora do direito ao aborto, e de já ter apoiado sem margem para dúvidas, essa decisão em amigas próximas, não sei se teria coragem para realizar um, como se uma ateia convicta tivesse, de repente, uma fé inesperada nesse fenómeno absolutamente estratosférico e biológico que dá pelo nome de gravidez.
Por outro lado, e continuando a falar de direitos de reprodução, e conhecendo vários amigos e familiares que engravidaram através de inseminação artificial, barrigas de aluguer ou congelaram ovos para terem filhos mais tarde, por vezes dou por mim a pensar qual é a nossa parte de responsabilidade na manutenção de uma sociedade profundamente machista e neoliberal onde tudo se pode comprar, alugar, consumir, produzir, ou mesmo desfazer de acordo com uma vontade isolada que ignora uma ideia holística de um mundo interdependente até no mais ínfimo e aparentemente inocente gesto. E até que ponto, enquanto mulheres, nos continuamos a tratar como uma mala de viagem para sonhos familiares românticos alimentados por uma economia da reprodução tecnológica, por vezes tão trágica e tão promotora da desigualdade (e da violação do corpo da mulher) como a regressão inconcebível que se vive hoje no Afeganistão onde, esta semana, foi notícia, um pedido de divórcio de uma jovem de 18 anos, ao governador da província de Jawzian, Abdullah Sarhadi, ex-prisioneiro de Guantánamo, alegando que o marido a trata mal e lhe bate com regularidade.
A notícia, que a uma primeira vista não deixa margem para dúvidas, merece alguma atenção. A jovem de 18 anos, volto a sublinhar a idade, já casada há um bom par deles, apresenta-se perante o líder da comunidade de burca e óculos escuros, e vê o seu pedido ser recusado. Ela insiste, e afirma sem hesitação: “prefiro ser executada a manter-me casada com este homem”. O governador aconselha a jovem mulher a manter o casamento pois, se acaso se divorciar, “perderá a sua dignidade e honra”. A jovem mulher afirma que “a sua honra e dignidade há muito foram destruídas” e que não vai pagar o valor exorbitante que o marido lhe pede pelo divórcio (como se sabe, outra forma sobejamente utilizada para evitar divórcios é acenar com entraves ou recompensas financeiras que poderão dificultar um caminho orgulhosamente só). O governador vira-se então para o marido e sugere-lhe que “a sua mulher deveria ter um quarto só seu”, a famosa citação de Virginia Woolf, e ainda recomenda que tenha calma e não bata mais na mulher.
Acabo de ler esta notícia e penso na sorte que tenho em viver num país onde supostamente este tipo de violência é condenado para logo me lembrar da minha conversa com uma amiga mais velha, da idade da então minha sogra, um mulherão inspirador que tinha o mundo todo pela frente mas “optou” por ficar em casa a tomar conta da casa e de “alguns” dos filhos, quando a informei de que me iria divorciar do meu então companheiro. A resposta foi imediata: Ó Patrícia, vais fazer isso agora com esta idade? Vais arranjar quem? Um rapaz mais novo? Os homens a partir dos 50 vão preferir todos o sofá e os vídeos pornográficos, para que é que te vais divorciar? E não sentes líbido? Também tens de te esforçar, não apetece sempre a toda a gente! Vá, toma lá 50€ e vão os dois jantar fora, estás sempre a trabalhar ou a tomar conta da tua filha, como é que queres que o teu marido se interesse por ti? Tens de aprender a divertir-te. E devias pintar o cabelo, já se notam algumas brancas.
E o que é certo é que eu não tive mais nenhuma conversa sobre este assunto. Lá me divorciei sozinha, não sei passar primeiro por uma boa dose de violência diária durante um bom ano e meio e, pior do que tudo o que te conto aqui, fi-lo em absoluto silêncio. E numa absoluta solidão. E é sobre a vergonha que por vezes sentimos em tomar certas decisões que na verdade são corajosas e mais comuns do que imaginamos, como bater com uma porta, dizer que não, recusar ser mal tratada na vida privada ou no trabalho que gostaria de escrever. É sobre a vergonha que temos de pensar de maneira diferente da que pensávamos antes, como se a mudança implicasse uma perda de um estatuto qualquer que imaginamos para nós ou fosse equivalente a um falhanço colossal na vida que sonhámos. Somos reféns de muitas vergonhas que carregamos connosco, prisioneiras de segredos dos locais que no fundo são iguais em muitas de nós. Vergonha de vergonhas que afinal são comuns e não se calhar nem deveriam ser vergonhas. E ao ler sobre esta jovem de 18 anos e imaginá-la, a enfrentar, sem medo, sozinha, um sistema que executa mulheres que não obedecem aos maridos, pergunto-me o que andamos por aqui a fazer quando choramos na casa de banho, escondemos dos filhos as nossas mágoas e os convencemos de que está tudo bem, ou militamos numa ideia de felicidade conjugal ou realização pessoal que continua alicerçada naqueles mesmos princípios patriarcais que do casamento, às alterações do clima, passando pela Inteligência Artificial, vão ser responsáveis por atirar este modo de vida para o galheiro!
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela