Estava com a família do Diogo quando Pedro Passos Coelho chegou. Cumprimentámo-nos, num daqueles momentos em que a tristeza torna insuficiente tudo o que se possa dizer. Guardo esse encontro associado à dor da sua morte, em julho de 2011, quando ainda procurávamos compreender como podia desaparecer tão cedo alguém com tanta inteligência e generosidade para oferecer. Não imaginava que, quinze anos depois, regressaria àquela memória por causa de um elogio político. Contudo, há palavras que reabrem a ausência de quem amámos tanto, porque nos fazem perceber quanto precisamos ainda da sua presença.
O funeral de Diogo Vasconcelos, anunciado pelo Expresso, ficou marcado para sábado, 16 de julho, no Porto. A imprensa desse dia registou a presença de Cavaco Silva na Igreja da Lapa, onde decorria o velório, e indicou a missa para as 15 horas, seguindo-se o funeral no Cemitério de Agramonte. A 28 de julho, numa cerimónia distinta, a Universidade Católica do Porto acolheu uma homenagem pública com a participação de Passos Coelho, então primeiro-ministro. Importa distinguir estes momentos, porque o rigor também é uma forma de respeito pela memória.
Nessa homenagem, segundo a notícia da Lusa publicada na VISÃO, Passos afirmou que o Diogo “parte num dos momentos em que seria mais notada a sua falta” e reconheceu-o entre os “elementos mais fulgurantes da sua geração”. Ao reler estas palavras, impressiona-me a responsabilidade que elas encerram. Quem reconhece publicamente o valor de alguém deixa também um testemunho sobre os seus próprios critérios de admiração; por isso, é legítimo perguntar o que acontece a esses critérios quando outras escolhas os põem à prova.
Para mim, o Diogo Vasconcelos era um grande amigo do coração, cuja retidão não precisava de uma homenagem para se tornar visível. Conheci nele um homem íntegro, humanista, extremamente inteligente e generoso. Não invoco estas qualidades para embelezar a morte: recordo-as porque fizeram parte da relação que tivemos e porque continuam a dar sentido à saudade. A sua inteligência impressionava-me tanto quanto a humanidade que a acompanhava. Era essa ligação que admirava, essa capacidade de não deixar que o brilho pessoal diminuísse a importância dos outros.
O seu percurso público ajuda a compreender a amplitude dessa vida. Diogo foi vice-presidente do PSD, presidiu à Agência para a Sociedade do Conhecimento e esteve ligado a iniciativas como o Portal do Cidadão e a banda larga nas escolas. Foi também um dos fundadores da revista Cais ou no projeto pioneiro Escolas Navegadoras, delineado por Roberto Carneiro, antigo ministro da Educação, com a nossa participação e colaboração. Vejo nessa aproximação entre conhecimento, inovação, preocupação e intervenção social uma expressão do homem que conheci: alguém para quem o futuro merecia ser construído com mais pessoas dentro dele.
É com essa memória que leio as declarações de Passos Coelho noticiadas pelo PÚBLICO em 11 de outubro. Na entrevista à SIC Notícias, atribuiu a André Ventura “bastante mérito” e um “poder de iniciativa notável”, associando esse reconhecimento à expressão alcançada pelo partido que criou. Defendeu ainda que o PSD deveria ter explorado um entendimento com o CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal após as eleições de 2024. O elogio surge, portanto, acompanhado de uma orientação política: considerar o Chega como parte de uma solução de poder.
A capacidade de fazer crescer um partido é um dado relevante, mas não resolve a questão do mérito de quem o dirige. Para a resolver, precisamos de examinar os meios utilizados, as ideias ou ideologias defendidas e as consequências para aqueles que ficam expostos ao discurso político. Um dirigente pode mobilizar descontentamento e, ao mesmo tempo, degradar a convivência democrática; pode identificar medos reais e escolher alimentá-los em vez de lhes dar uma resposta responsável. Quando o crescimento eleitoral passa a bastar como prova de valor, as pessoas atingidas durante esse percurso tornam-se um pormenor dispensável da análise.
Ora, essas pessoas existem. Em 2021, André Ventura e o Chega foram condenados a uma retratação pública por ofensas aos direitos de personalidade de uma família do Bairro da Jamaica, depois de o dirigente ter exibido a sua fotografia num debate televisivo e chamado “bandidos” aos seus membros. O Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a sentença. Antes de servir uma disputa eleitoral, aquela fotografia mostrava pessoas com direito à honra e à imagem. Uma avaliação séria do percurso de Ventura tem de incluir este episódio, porque o respeito pela dignidade humana também se mede quando a sua violação promete rendimento político.
Passos Coelho conhece o peso do reconhecimento que concede. Um antigo primeiro-ministro conserva uma autoridade pública que dá aos seus elogios consequências diferentes das de uma conversa privada. Ao valorizar Ventura e defender a procura de um entendimento com o Chega, contribui, na minha leitura, para normalizar a extrema-direita como parceira de governação. Essa normalização avança quando figuras da direita democrática apresentam a aproximação como uma questão de eficácia, deixando os princípios para uma discussão que nunca parece tão urgente como a aritmética parlamentar.
Se Passos reconheceu o valor do homem que Diogo foi, a sua postura atual torna mais perturbadora a distância entre a homenagem e a escolha política. Há, a meu ver, uma hipocrisia nesta disponibilidade para celebrar alguém e depois legitimar práticas que considero incompatíveis com o seu humanismo. Michel de Montaigne, que tantas vezes convoco, escreveu que “o verdadeiro espelho dos nossos discursos é o curso das nossas vidas”. É nesse espelho que as palavras de Passos devem ser examinadas, confrontando a admiração manifestada pelo Diogo Vasconcelos com aquilo que agora aceita e promove. O cinismo que reconheço nesta postura consiste em deixar as virtudes no lugar confortável da homenagem, sem permitir que elas imponham limites às conveniências do presente.
Noutro passo dos Ensaios, Montaigne observa que “dizer é coisa diferente de fazer”, acrescentando que a concordância entre ambos dá maior autoridade às palavras. A distinção não torna falso tudo o que alguém diz quando age de maneira incoerente; obriga-nos, porém, a avaliar o orador para além da beleza do discurso. Não ponho em causa a sinceridade da tristeza de Passos em 2011. Questiono o alcance de Passos Coelho de uma admiração que parece deixar tão poucas exigências nas escolhas de 2026. Se as qualidades que reconhecemos nos outros nunca interferem no que estamos dispostos a aceitar, que importância lhes concedemos realmente?
É a partir da amizade que tive com o Diogo Vasconcelos que assumo esta convicção: o elogio a Ventura e a defesa de um entendimento com o Chega envergonhariam o homem que ele foi. Este é o meu juízo, fundado no conhecimento que tive dele, e não uma declaração que lhe atribua sobre um tempo que não viveu. A sua memória não me autoriza a falar em nome dele; obriga-me a dizer com honestidade onde reconheço uma incompatibilidade profunda com os valores que nele testemunhei.
O Diogo pertenceu ao PSD, e essa pertença recorda-me que o humanismo nunca foi propriedade de uma família política. Uma direita democrática pode defender a iniciativa, a liberdade e a responsabilidade sem transformar a vulnerabilidade dos outros em motivo de desprezo. Pode ouvir os eleitores do Chega, reconhecer os problemas que os inquietam e procurar respostas sem adotar os métodos de quem os mobiliza. A representação parlamentar de um partido não obriga os restantes a escolhê-lo como parceiro; essa escolha continua a exigir uma justificação política e moral de quem a faz.
Continuo a guardar aquele cumprimento junto da família do Diogo, mas já não consigo recordá-lo sem pensar na enorme distância que hoje me separa das escolhas de Passos Coelho. Da amizade ficou uma saudade que o tempo nunca vai resolver e uma exigência que não quero deixar morrer: a de nunca considerar a dignidade de alguém um preço aceitável para chegar ao poder. Em 2011, Passos soube reconhecer a falta que o Diogo faria.
A honra de um homem público também se mede pela coerência que aceita exigir de si próprio quando os princípios lhe dificultam as escolhas. A inteligência, por sua vez, aumenta essa responsabilidade: quem compreende o alcance de um discurso e conhece os seus efeitos tem menos desculpas para ignorar a dignidade de quem ele atinge. Por isso, o que censuro em Passos Coelho é a contradição entre a grandeza que reconheceu no Diogo Alves de Sousa de Vasconcelos, nascido em 16 de maio de 1968, e a condescendência que agora revela perante uma prática política que considero ofensiva desse humanismo. A admiração que se declara por alguém fica moralmente diminuída quando se aceita, nos candidatos ao poder, aquilo que tornava esse alguém incapaz de humilhar os outros.
O humanismo não é prerrogativa de qualquer família política, e a direita democrática tem inteira responsabilidade na sua defesa. O desprezo pela dignidade alheia também não é exclusivo da extrema-direita: pode manifestar-se na complacência de quem a legitima, sabendo o que está a tornar aceitável. É essa responsabilidade que Passos Coelho não pode deixar à porta dos seus elogios a Ventura. Quanto ao Diogo, a honra que lhe reconheci continua a exigir de mim uma fidelidade concreta aos valores que nele admirei. Se a sua ausência ainda me dói, mais me doeria habituar-me a ver esses valores celebrados nas homenagens e dispensados nas decisões.
Hoje, gostaria que Passos Coelho regressasse às suas próprias palavras e se perguntasse o que resta de uma homenagem quando os valores do homenageado deixam de incomodar as escolhas de quem o elogiou.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.