Querida Patrícia,
O tempo vai passando e eu, entre mil trabalhos, tem de ser assim para quem trabalha nas áreas artísticas, sob pena de o dinheiro não chegar sequer para pagar as contas, vou empurrando a carta com a barriga. Agora, sim, sentei-me finalmente para te escrever.
Nem sei por onde começar. São tantos os problemas e tão pouca a paciência que me resta para tudo. Se calhar, vou começar precisamente por aí, pelo cansaço, pela fase que estou a atravessar e que tantas mulheres da nossa idade conhecem bem. A detestável perimenopausa, se calhar já é menopausa mesmo, que me está a roubar o bem-estar e essa capacidade cavalar de trabalho de que sempre me orgulhei.
Quero começar por aqui porque “o pessoal é político” e este é um tema que ainda causa tanto pudor e embaraço. As mulheres têm vergonha de falar sobre isto, sobretudo com os homens, porque há inevitavelmente, citando os adolescentes, uma “perca de aura”. Mas eu já não consigo calar-me, esteja quem estiver por perto. Nesta fase da vida, as coisas viram um pandemónio interno, calar porquê? São as insónias, a irritabilidade, a senhora de aspeto cansado que nos aparece ao espelho mesmo quando dormimos bem, os suores noturnos, a falta de libido, etc., etc., um sonho. Só que não. Uma bela merda, verdade seja dita. Não estou a ver beleza nenhuma, se calhar estás a vivê-lo de forma diferente, gostava que falasses sobre isto.
É claro que vou pedir ajuda. Felizmente vivo num país que me permite ter acompanhamento especializado, embora seja caro e eu ande a evitá-lo precisamente por isso. Não posso deixar de escrever sobre este assunto, é uma circunstância de saúde, não é um capricho, e nós somos também a nossa circunstância física. E a minha, como a de tantas outras mulheres, está a passar por uma fase em que precisa de ajuda especializada.
O que é isto de deixar de ser fértil? Não é estranho? Só agora é que ando a pensar nestas coisas.
Como é que perder a capacidade de gerar vida, sendo certo que muitas mulheres escolhem não fazer uso dela, altera a perceção que temos de nós próprias e a que os outros têm de nós?
Será que, neste momento, se torna mais evidente que somos animais?
Será que já não podemos ignorar o primeiro alerta inequívoco da nossa finitude?
Sei que tudo isto está a mexer comigo e não param de me surgir perguntas. Sinto que não se fala o suficiente sobre estes assuntos, que há pudor, que falar ainda parece uma demonstração de fraqueza e que continuam por desenvolver muitas soluções porque, lá está, é um “problema de mulheres”. Como se não fosse algo que afeta toda a gente, direta ou indiretamente.
Repara como, para a disfunção erétil masculina, se encontrou uma solução, ainda que não definitiva e dispendiosa. O célebre Viagra, que já matou uns quantos, mas ao menos foram de barriguinha cheia. Desculpa a vulgaridade, eu sei que há coisas com as quais não se deve brincar, mas são essas que me dão prazer. É claro que os problemas de ereção não estão exclusivamente ligados à idade e podem surgir em qualquer fase da vida. Mas, sobretudo a partir dos quarenta anos, entram também em cena as questões da virilidade, que não são, necessariamente, questões de fertilidade.
As mulheres também têm problemas de libido, sobretudo na mesma fase da vida, e a investigação nesta área, ou pelo menos a atenção pública que lhes é dada, nem se compara. Ou já existe, por acaso, um Viagra para mulheres de que toda a gente tenha ouvido falar? A pergunta é provocatória, eu sei, e a comparação não é inteiramente justa do ponto de vista clínico. Mas talvez seja precisamente essa a questão: o que é que a sociedade considera suficientemente importante para merecer investigação e investimento que possa ser anunciada em horário nobre?
E depois olho para as notícias e dá-me uma sulipampa constante.
Continuando a falar de mulheres, esta segunda-feira, as deputadas do Chega Rita Matias e Madalena Cordeiro “invadiram” as instalações da Associação Académica de Coimbra (AAC), onde se situam os estúdios da RUC — Rádio Universidade de Coimbra —, precisamente quando decorria um debate com representantes de vários partidos. O Chega também tinha sido convidado a participar no novo programa de rádio, mas apenas à distância. Tinha sido proibida a participação do partido liderado por André Ventura em eventos da AAC e a entrada dos seus representantes nas respetivas instalações, conforme explicou à agência Lusa Jaime Raposo, do Departamento de Informação da RUC.
E eu penso: é natural. Não somos obrigados a partilhar o mesmo espaço físico com pessoas que defendem ideias assumidamente reacionárias, para não dizer fascistas. Sinceramente, já lhes tinha sido dada uma bênção com a participação à distância. Acontece que as ditas deputadas resolveram entrar nas instalações, reclamando o direito de estar presentes. E eu digo, ora aqui estão duas mulheres que, infelizmente, não posso defender, duas mulheres que representam um conjunto de valores que, se fossem postos em prática, lhes retirariam os próprios cargos que hoje exercem. Seriam recambiadas para o lar num instante. A ironia quase se escreve sozinha, duas mulheres a reclamar um direito que, em nome dos valores que defendem, tantas outras poderiam perder.
Ai, Patrícia, olho para tudo isto e já nem sei bem onde me situar. Leio notícias de execuções em direto, e lembro-me automaticamente do teu livro, Hoje, 3 de Maio, claro, e não sei se o calendário andou para trás ou para a frente, enquanto eu ando aflita com as oscilações hormonais.
Vejo mulheres com mais de noventa anos a serem despejadas das suas casas, como a Maricarmen, e depois a serem reconduzidas quando o povo finalmente mostra aquilo de que tantas vezes se esquece e nunca deveria esquecer-se: “O povo é quem mais ordena.”
Vejo birras de futebolistas a darem direito a horas de debate, picuinhices transformadas em assuntos de Estado, discussões sem lógica nenhuma a ocuparem o espaço público, o gasóleo a aumentar todas as semanas, a comida cada vez mais cara, as roupas da minha filha por comprar ou a custarem mais do que deviam. E eu, por mais que trabalhe, tenho sempre menos dinheiro. Parece que encolhe a cada mês, como o meu útero.
E é aqui que tudo se junta, não é? O corpo que já não responde como antes, o dinheiro que nunca chega, o mundo que parece ter enlouquecido e a sensação de que estamos sempre a tentar recuperar o controlo de qualquer coisa que já nos escapou das mãos. Diz-me lá, minha amiga, como é que se recupera o ânimo? Como é que se continua a acreditar que vale a pena escrever alguma coisa quando o corpo nos lembra que somos finitas?
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela