Num mundo controlado pela estatística, tenho sempre receio dos viés de observação – quando os números não captam a realidade. Portugal não produz estatística como os países anglo-saxónicos sobre criminalidade grupal. Existe uma cissão de acordo com imputabilidade, produzindo-se duas estatísticas: entre os 12 e os 15 anos e entre os 16 anos e os 25 anos. A sua interligação, para uma visão integrada, merece reflexão na metodologia utilizada e na ação que nos é exigida.
Crescer é um dos maiores desafios de um ser social como o ser humano. Entre os doze e os dezasseis anos, ocorrem simultaneamente múltiplas transformações biológicas, psicológicas, sociais e escolares. Se a família estiver menos disponível, se existirem desafios financeiros, a escola não acompanhar individualmente e o grupo de pares for menos positivo, pode-se caminhar em direção ao abismo.
De acordo com o Eurostat (11/8/2026), em 2025, um em cada quatro jovens nas idades entre os 15 e os 29 anos estão em risco de pobreza ou exclusão social, correspondendo a 17.3 milhões de pessoas. Em Portugal, os números rondam os 19% da nossa população jovem naquela idade. Se não houver meios legítimos para o jovem satisfazer as suas necessidades ou expetativas de consumo, torna-se mais vulnerável ao recrutamento por grupos criminosos.
Há ainda os NEET – jovens que não estudam nem trabalham. Vão-se arrastando na escola e no seu meio social.
Na juventude, a influência dos pares é maior. O sentido de pertença, o estatuto social a par de proteção são fatores de atração para ingressar num grupo. Obter rapidamente dinheiro, vestuário de marca ou um telemóvel caro são estímulos reais.
As estruturas familiares, por vezes, são marcadas por conflitos familiares, violência doméstica, ausência de figuras parentais estáveis ou negligência.
Estes são alguns dos ingredientes para recrutar jovens numa estrutura paralela de integração criminógena.
Esta é a origem das “firmas”. E sim, qualquer jovem do 8º ano ao 12ºano sabe o que são, sobretudo se o seu centro de vida decorrer na área metropolitana de Lisboa, certas zonas do Porto ou alguns concelhos de Setúbal. Agentes de violência e simultaneamente vítimas. Depois de se entrar, sair é quase impossível.
E se os jovens gostam de jogos, porque não transformar atividades perigosas ou ilícitas em sucessivos desafios: hoje conseguiste 100 euros, conheço alguém que fez 300 euros; hoje entregas esta encomenda, amanhã recolhes um pacote, depois tens de ir fazer uma cobrança difícil. O jovem começa a obter respeito, notoriedade, reputação e sentimentos de pertença. E assim se dissolve a perceção ilegal do comportamento, numa normalização do comportamento desviante.
Sair como, se há perda dos amigos e existe rejeição social? Se existem retaliações e ameaças? Se há perda de rendimentos financeiros? Se o estigma social se vai manter? Se se pode ser alvo de grupos rivais?
No direito da família é ensinado que os Tribunais devem ser a última linha de intervenção. Pensar que os problemas sociais se resolvem exclusivamente mandando quem se porta mal para a prisão ou aplicando outra medida punitiva é adotar uma solução simplificada pode só vai agravar o problema.
Na Europa, os Estados com maior sucesso no combate a este fenómeno passaram de estratégias quase centradas na repressão para modelos de prevenção integrada.
Na Suécia, o projeto “Sluta Skjut” (stop shooting) é dirigido aos grupos mais violentos e transmite a mensagem de que a violência deve cessar e quem quiser abandonar a criminalidade recebe ajuda concreta de proteção, emprego, formação, acompanhamento social.
Na Holanda, o projeto “Preventie met Gezag” (prevenção com autoridade) desenvolveu um projeto para evitar o recrutamento de jovens, com financiamento nacional específico e avaliação permanente de resultados.
Em Espanha, mais concretamente Barcelona, o projeto Yougang evidencia a estratégia de integrar grupos de jovens em estruturas legais de participação juvenil.
Estes e outros projetos evidenciam que os jovens não abandonam as “firmas” porque um adulto lhes diz para o fazer. Saem quando encontram uma alternativa credível ao que o grupo lhes dava: identidade, rendimento, proteção e reconhecimento.
E esta é uma responsabilidade de todos nós. Porque o jovem de hoje é o adulto de amanhã.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.