Este artigo centra-se no narcisismo masculino nas relações íntimas e nos seus possíveis efeitos na saúde mental das mulheres. A escolha apoia-se em estudos que encontraram maior prevalência da perturbação narcisista nos homens e níveis médios superiores de alguns traços, sem que isso descreva todos os homens. Também há homens vítimas de mulheres com comportamentos abusivos e o seu sofrimento merece igual reconhecimento.
A análise comportamental ajuda a compreender comportamentos que se repetem e os seus efeitos nas relações, mas não permite, por si só, estabelecer um diagnóstico clínico. Ter características narcisistas não significa necessariamente agir de forma abusiva e quem pratica abuso pode não ter uma perturbação narcisista.
Reconhecer estes padrões em si pode ser difícil quando a crítica é sentida como humilhação ou ameaça à autoestima. A palavra “narcisista” pode ser recebida como acusação. Ainda assim, os estudos de Carlson e colaboradores mostram que algumas pessoas reconhecem os seus traços e a impressão negativa que causam. Ter essa consciência não é o mesmo que assumir responsabilidade pelo sofrimento provocado. O essencial é olhar para os comportamentos e para os seus efeitos.
A investigação ajuda a compreender uma contradição dolorosa: procurar admiração e, ao mesmo tempo, desvalorizar quem a oferece. Os estudos de Back e de Wurst distinguem a procura de admiração, associada sobretudo à atração inicial, da rivalidade narcisista, ligada a dificuldades nas relações duradouras. Nesta última, diminuir o outro pode servir para proteger a imagem de si.
Nestas dinâmicas, a inteligência e a sensibilidade de uma mulher podem ser valorizadas enquanto confirmam essa imagem, mas tornar-se alvo de crítica, quando ela questiona ou estabelece limites. É precisamente quando a relação exige escuta e respeito pela autonomia dela que esta contradição se torna mais evidente: como pode alguém procurar tanto o seu amor e depois fugir ao diálogo necessário para cuidar da relação? A questão traduz a distância entre desejar afeto e conseguir retribuí-lo.
Em algumas manifestações de narcisismo patológico, existe também uma rigidez defensiva: a dificuldade de rever a própria posição e aprender com os erros. Weinberg e Ronningstam descrevem obstáculos à aprendizagem com a experiência. Kealy e Ogrodniczuk analisam dificuldades na capacidade de amar a si próprio e aos outros. Contudo, estes estudos não permitem concluir que a mudança seja impossível.
O problema torna-se particularmente doloroso quando alguém procura no amor de uma mulher alívio para o vazio interior, mas fragiliza a confiança que poderia ampará-lo. A mulher que o conhece, respeita e aceita pode acabar ferida precisamente quando tenta ajudá-lo. A sua compreensão pode apoiar uma mudança, mas não substituir a responsabilidade dele por essa mudança.
Nem sempre a teia começa por um sinal de perigo. Pode começar por um sentimento de exceção: elogios, confidências e promessas fazem a mulher sentir que, finalmente, alguém a vê. Chama-se love bombing à profusão de afeto usada para conquistar influência e manipular. O entusiasmo inicial, por si só, não prova abuso. Mas, quando existe engodo, este apresenta-se com a linguagem do afeto. Confiar não é um defeito: a responsabilidade pela mentira pertence a quem mente.
Quando a admiração se transforma em crítica e a presença em distância, a mulher tenta recuperar a relação que julgava conhecer. “O que fiz de errado?” pode tornar-se a pergunta central. Não permanece necessariamente por ignorar o sofrimento: pode permanecer porque ainda espera reencontrar a pessoa por quem se apaixonou.
O silêncio punitivo aprofunda essa espera. Distingue-se de uma pausa comunicada para acalmar ou de uma decisão legítima de terminar a relação. Quando a retirada de contacto e afeto é usada para castigar, impor cedências ou controlar pode constituir violência psicológica. A fuga repetida ao diálogo deixa a vítima sem esclarecimento e faz da incerteza uma forma de pressão.
Esse silêncio ocupa a casa, o telemóvel, a noite. A mulher não sabe quando terminará nem quando voltará a encontrar disponibilidade para conversar. Vigia mensagens, perde o sono, revê palavras e pode pedir desculpa por algo que não fez. Para recuperar a proximidade, abandona perguntas e limites. A ausência de palavras acaba por dirigir o seu comportamento.
O regresso da ternura nem sempre resolve o problema. A alternância imprevisível entre afeto e rejeição pode funcionar como reforço intermitente: os momentos de proximidade mantêm a expetativa de voltar a receber cuidado. O alívio da reconciliação pode ser confundido com segurança, embora o padrão continue.
Umas vezes, pedra. Outras, doçura.
A imprevisibilidade desgasta: a mulher aprende a vigiar o tom de voz e a demora de uma resposta. A pergunta “O que quero?” cede lugar a “O que devo fazer para que ele não se afaste?”. Até as datas importantes podem tornar-se momentos de receio quando aniversários ou conquistas ficam repetidamente atravessados por críticas, conflitos ou afastamentos.
Quando se acrescenta gaslighting — a manipulação reiterada que leva alguém a duvidar da sua memória ou perceção —, a vítima perde também confiança no próprio julgamento. “Isso nunca aconteceu” ou “estás a imaginar” podem integrar esse padrão. A mulher já não tenta apenas compreender o outro: tenta saber se pode confiar em si.
Por que permanece uma mulher numa relação que a fere? A resposta envolve afeto, esperança de mudança e investimento numa vida partilhada, mas também medo de represálias, preocupação com os filhos, dependência económica, vergonha e isolamento. São obstáculos reconhecidos pela National Domestic Violence Hotline. Saber que existe abuso não basta para conseguir sair.
Uma família aparentemente exemplar pode esconder uma casa onde todos medem palavras. A gentileza pública, a devoção religiosa e um estatuto social respeitado podem servir de máscara a um companheiro que, na intimidade, humilha, controla ou pune com o silêncio. Quando essa imagem lhe garante admiração e credibilidade, pode também protegê-lo de ser questionado: aos olhos dos outros, parece improvável que um homem tão estimado cause sofrimento. A mulher enfrenta então duas dores: a violência que vive e o medo de que ninguém acredite nela. O contraste entre o homem que todos elogiam e aquele que ela conhece dentro de casa pode aprofundar o isolamento e dificultar o pedido de ajuda.
A mulher pode ainda tentar conciliar duas imagens incompatíveis: o homem que prometeu amor e aquele que provoca sofrimento. Esta tensão, conhecida como dissonância cognitiva, pode levá-la a minimizar episódios ou a atribuí-los a uma fase difícil. Quando o controlo reduz a autonomia, limita também a capacidade de agir. Permanecer não significa consentir, nem revela falta de inteligência.
Algumas vítimas descrevem a sensação de estar a “enlouquecer”. A expressão pede escuta: viver em alerta, perder o descanso e duvidar repetidamente da própria perceção pode deixar alguém profundamente desorientado. Esse sofrimento deve ser reconhecido, nunca usado para desacreditar quem o vive.
Compreender o sofrimento do outro também pode dificultar a saída. Quem conhece as suas fragilidades pode acreditar que deve salvá-lo. Mas acolher a dor não obriga a suportar violência. Pensamentos suicidas devem receber avaliação e apoio profissional. A permanência da mulher não pode ser imposta como condição para a sobrevivência do companheiro.
Proteger a saúde mental começa por levar este sofrimento a sério. Contar o que acontece a alguém de confiança e procurar apoio psicológico ou serviços de apoio à vítima pode ajudar a recuperar segurança e capacidade de decisão. Quem ainda não consegue sair precisa de amparo e de condições para se proteger.
Um pedido de desculpa ou um regresso à ternura não demonstra, por si só, mudança. Esta exige reconhecer o dano, procurar ajuda e manter comportamentos diferentes ao longo do tempo. Comparar promessas com atos permite avaliar se existe cuidado ou apenas uma breve interrupção do mesmo padrão.
Uma mulher pode compreender a dor de um homem e decidir que já não aceita ser ferida por ele. A sua inteligência também se revela ao reconhecer a teia, procurar apoio e defender a própria saúde. Compreender não obriga a permanecer. Cuidar não exige sacrificar-se. A saúde mental precisa de espaço para o descanso, para a voz e para a liberdade de decidir. Recuperar essa liberdade é poder existir inteira, sem que o afeto dependa do seu silêncio.
Referências
Stinson, F. S., et al. (2008). Prevalence, correlates, disability, and comorbidity of DSM-IV narcissistic personality disorder: Results from the wave 2 national epidemiologic survey on alcohol and related conditions. Journal of Clinical Psychiatry, 69(7), 1033–1045. https://doi.org/10.4088/JCP.v69n0701
Grijalva, E., et al. (2015). Gender differences in narcissism: A meta-analytic review. Psychological Bulletin, 141(2), 261–310. https://doi.org/10.1037/a0038231
National Domestic Violence Hotline. Why people stay in an abusive relationship. https://www.thehotline.org/support-others/why-people-stay-in-an-abusive-relationship/
National Domestic Violence Hotline. What is emotional abuse? https://www.thehotline.org/resources/what-is-emotional-abuse/
Carlson, E. N., Vazire, S., & Oltmanns, T. F. (2011). You probably think this paper’s about you: Narcissists’ perceptions of their personality and reputation. Journal of Personality and Social Psychology, 101(1), 185–201. https://doi.org/10.1037/a0023781
Merck Manual Professional Edition. Narcissistic personality disorder (NPD). https://www.merckmanuals.com/professional/psychiatric-disorders/personality-disorders/narcissistic-personality-disorder-npd
Back, M. D., et al. (2013). Narcissistic admiration and rivalry: Disentangling the bright and dark sides of narcissism. Journal of Personality and Social Psychology, 105(6), 1013–1037. https://doi.org/10.1037/a0034431
Wurst, S. N., et al. (2017). Narcissism and romantic relationships: The differential impact of narcissistic admiration and rivalry. Journal of Personality and Social Psychology, 112(2), 280–306. https://doi.org/10.1037/pspp0000113
Weinberg, I., & Ronningstam, E. (2022). Narcissistic personality disorder: Progress in understanding and treatment. Focus, 20(4), 368–377. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20220052
Kealy, D., & Ogrodniczuk, J. S. (2014). Pathological narcissism and the obstruction of love. Psychodynamic Psychiatry, 42(1), 101–119. https://doi.org/10.1521/pdps.2014.42.1.101
Nota da autora: Maria Manuela Almeida, professora, com formação de analista comportamental e estudo dedicado à Perturbação da Personalidade Narcisista.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.