Querida Chéu,
Por vezes penso que nunca saímos de um lugar onde a lei se impõe através da violência ao invés de conter a violência. Estruturamos o nosso debate para ter razão, não para alimentar a curiosidade ou a informação sobre um tema, fazemos compromissos para ganhar ou tirar partido ao invés de encontrar um meio termo ou a melhor opção entre as vontades. Acusamos ou censuramos, consideramos aceitável ou a única opção em relação a tudo, e no meio deste formato em que se grita antes de escutar, se silencia sem apelo nem agravo, ter uma posição informada é como aceitar fazer parte de um cabinet curiosité tornado tesouro escondido para excêntricos ou piratas que teimam em procurar a mina de ouro na Terra.
É cada vez mais difícil lutar contra uma injustiça quando não se conhecem os seus meandros ou o que acontece a quem a desafia. A História está repleta de jornalistas encarcerados, torturados e silenciados mas também de artistas que se opuseram à violência e à guerra denunciando-a através da sua obra, muitas vezes aceitando as duras consequências do silêncio, da prisão, do exílio ou da morte, mas ainda assim obrigando o poderoso que conduz a História Oficial a ter de ver o que tenta afastar do olhar de todos.
Na semana passada, fazia eu a minha leitura cruzada pela “internet abaixo” (como diria Manuel da Silva Ramos) – faço questão de cirandar e ver todo o tipo de notícias online em várias línguas nem que seja para confirmar que há muita informação que não passa em lado nenhum – e encontrei esta:
A 2 de maio (célebre dia da insurreição madrilena face às invasões napoleónicas), o ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben Gvir, recebeu como presente do seu 50º aniversário um bolo da sua esposa Ayala, decorado com uma forca desenhada a dourado e com a seguinte frase (presumivelmente escrita a chocolate): Por vezes os sonhos tornam-se realidade.
Ora, consta que o grande sonho de Ben Gvir antes de chegar ao meio século de vida era passar a lei da pena de morte por enforcamento exclusiva para palestinianos que atentassem contra a vida de cidadãos de Israel. E conseguiu. A 30 de março, aprovada com 62 votos contra 48, Gvir celebrou a lei com os seus comparsas do governo, distribuindo brindes de champanhe pelos corredores da Assembleia. Bem Gvir é, portanto, um homem de sucesso que celebra com a legalização da morte o seu nascimento. A legalização da morte para alguns cidadãos do seu próprio país; se um israelita matar um palestiniano não enfrenta a mesma pena. A notícia era ilustrada com um vídeo amador, provavelmente realizado com um telemóvel por um dos convidados. E divulgado nas suas redes como quem celebra um evento da vida que recebe muitos likes e se torna viral (num certo circuito). Eu vejo e revejo esta imagem e pergunto-me porque estou eu a vê-la e por que me chega esta imagem com tanta facilidade ao ecrã quando procura tanta outra informação que não encontro (como a revolta dos civis em Israel ou em qualquer outro lugar).
Também foi na semana passada que o pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza reabriu pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia em 2022, apesar do alerta da Comissão Europeia que ameaçou retirar o apoio bojudo à Bienal de Veneza se a Rússia participasse no certame (relembro que Israel continua a participar) e a recusa do júri da bienal em avaliar “obras de países cujos líderes são alvo de mandatos de captura internacionais”.
Foi ainda nesta semana que Carlos Brito faleceu, número dois do partido Comunista Português e um dos mais importantes resistentes na luta anti-fascista da história recente de Portugal, e a comunicação social nacional e as redes concentraram-se em insultar o PCP por não ter feito uma nota de pesar como devia, mas também, e só a título de exemplo, a acusar Miguel Carvalho – jornalista (em tempos da VISÃO) e autor do livro Por dentro do Chega (múltiplas vezes retirado de programações literárias a pedido de autarquias que promovem, por sua vez, a censura na sua agenda cultural) – de anti-comunista. Pouco se viu sobre a história de Carlos Brito ou sobre a luta anti-fascista que nos trouxe a liberdade e a democracia, e penso que concordas comigo que teria sido uma excelente oportunidade.
E enquanto discutimos se deixamos ou não um partido descer a avenida, se silenciamos ou não um investigador que procura aprofundar a história de um partido, se achamos pertinente ou não dar atenção a um bolo de aniversário decorado com uma forca nas primeiras páginas dos jornais, a caravana vai passando, cheia de homens de fato completo, toldados por uma qualquer bandeira, destruindo tudo à volta enquanto caminham para o precipício, sem vergonha das barbaridades que comete ou vocifera porque não tem contraditório, apenas raiva e insultos descontrolados.
Relembro, no entanto, que o pavilhão de Israel esteve fechado durante toda a Bienal de Veneza em 2024 apesar de ter sido autorizado, gesto dos próprios artistas convidados (cujo nome nunca aparece nas parcas notícias que se encontram sobre o assunto, e imagino que hoje não tenham grandes ofertas de trabalho); relembro que este ano o pavilhão da Rússia abriu com uma manifestação à porta das Pussy Riot, impedindo os convidados de entrar (enquanto são consideradas um grupo extremista na Rússia aguardando-as uma possível prisão se regressarem a casa). Relembro que este ano são os visitantes da maior exposição de arte na Europa que têm a responsabilidade de votar no melhor pavilhão de 2026. Quem sabe se não era um belo gesto não votarem, ou mesmo não irem à exposição? A nenhum país? Ficavam à porta a fazer piqueniques e a contar a sua história, alegando um certo síndroma de Bartleby?
Quero uma visão mais aberta numa Europa com menos eurovisão. Quero saber o que acontece nas ruas, pela televisão portuguesa, pela televisão sul- e-norte-americana, mas também pela russa ou israelita, chinesa ou do Dubai. Quero pensar sobre o impensável e ter a minha opinião sobre os assuntos. Quero enganar-me. Quero saber mais. E sobretudo, quero pôr em prática o exercício mais nobre de estar à altura do que me acontece. E isso implica ter uma posição e uma ação urgentes sobre os genocídios que se cometem em meu nome.
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela