Querida Chéu,
Leio a tua última carta e penso que a história do peluche Punch não é caso único nem, infelizmente, dos mais graves.
“Tochas da Liberdade” foi o título da campanha publicitária engendrada por Edward Bernays para a American Tobacco Company, em 1929, que retratava mulheres emancipadas e de cigarro na boca a marcharem entre centenas de protestantes, mostrando quão cool era ser uma mulher rebelde, independente, sedutora, glamorosa e… fumadora. A campanha foi realizada com o apoio do psicanalista A.A. Brill com o objetivo de desafiar a ideia pré-estabelecida na sociedade americana de que uma mulher não fuma (porque não lhe fica bem) e associar os cigarros à juventude feminina, ao movimento sufragista e à ideia de liberdade, aumentando assim (para o dobro) o número de compradores de tabaco. De tal maneira esta campanha foi eficaz que ainda hoje a imagem de uma jovem iraniana a fumar e a queimar com o cigarro uma fotografia do seu líder Sayed Ali Khamenei se torna viral e amplamente divulgada pelos meios de comunicação como um símbolo de resistência, revolta e liberdade (mesmo que o ato de pegar fogo a uma foto de alguém, em qualquer outro contexto, tenha uma conotação extremista). Em contrapartida, a imagem de mulheres vestidas de negro, usando hijab e a carpir copiosamente a morte do seu líder também tem sido divulgada ad nauseum este fim de semana após os ataques norte americanos e israelitas ao Irão que culminaram com a morte de Khamenei. Ou seja, dois países que se dizem democráticos atacam um outro país “para evitar o uso de armas nucleares e manter a paz na região” e uma manifestante iraniana pega fogo a uma fotografia desse mesmo líder agora morto e são exemplos de bravura, coragem, liberdade e até feminismo. Por sua vez, a imagem de uma mulher vestida com um hijab a chorar a morte do Ayatollah é sinal de atraso, de opressão e, indiretamente, de um atraso civilizacional que deve ser remediado de imediato. E nós compramos estes produtos que o telejornal da noite nos vende: de um lado as verdadeiras causas de cigarro na boca e cabelo solto (e a serem instrumentalizadas no tabuleiro geo-estratégico dos interesses económicos e políticos que nada têm a ver com a liberdade – urgente – das mulheres no Irão); e do outro lado “os maus da fita” que não dizem Bless America mas rezam a um outro deus que supostamente subjuga o povo em seu nome e lhes pede para chorar e usar hijabs pretos. Atenção, como bem sabes, se há regime que desejo há muito que termine e por motivos bastante pessoais, é este. Mas não posso deixar de achar perverso e deveras preocupante que a transição para um novo regime se dê graças a uma demonstração exterior de força promovida pelos jornais através de uma escolha criteriosa de estilos de roupa e cortes de cabelo que as fotografias que ilustram os acontecimentos exibem.
Rudi Vranckx, um jornalista belga especializado em conflitos no médio oriente, realizou uma série de pequenos documentários para a televisão belga em 2011 onde desmontava as estratégias de informação sobre o conflito israelo-palestiniano. Já na altura, Vranckx apontava a escolha parcial e manipuladora de entrevistados na cobertura de incidentes em zonas de guerra.
Do lado israelita podíamos ver e ouvir com frequência executivos, académicos e personalidades de renome e com ensino superior, apresentando estudos, mapas e estatísticas sobre os acontecimentos, enquanto do lado palestiniano entrevistavam-se pessoas sem abrigo, vítimas dos ataques ou pessoas em situações muito frágeis. Deste modo, e apesar de aparentemente apresentarem os dois lados do conflito, a forma como os apresentam enviesou durante décadas a maneira como olhamos para as pessoas que ali vivem e lutam diariamente pela sua sobrevivência. Por outro lado, a indumentária que hoje se associa diretamente ao terrorismo e a comportamentos retrógrados – o hijab – foi também alvo de uma campanha de marketing feroz por parte dos movimentos extremistas que desejaram por sua vez criar também a sua linha de moda associada à sua guerra santa, a Jihad. Osama Bin Laden, filho de um bilionário que fez a sua fortuna a área da construção na Arábia Saudita, escreveu amplamente nos seus diários sobre a escolha calculada e ideológica do seu guarda-roupa simples e humilde, baseado na tradição do século VII e claramente anti-ocidental. Por outro lado, Fawzia Koofi, primeira mulher vice-presidente da assembleia nacional do Afeganistão e reconhecida activista dos direitos das mulheres, escreve no seu livro de memórias Cartas às minhas filhas sobre o orgulho que sempre teve no fato tradicional Tajik e de como os Taliban resgataram transformaram esta indumentária que se vestia apenas em determinados dias e para determinados rituais no ano – como era o caso do hijab azul para os casamentos – em uniforme obrigatório para todas as mulheres.
Tenho vergonha, Chéu, da nossa ignorância, e da facilidade com que nos deixamos enganar por ideais de beleza ou de independência que não são mais do que golpes de marketing geniais ou objectivos políticos e religiosos. Consideramo-nos instruídas e cultas e no entanto somos capazes de deduzir que outra irmã é livre e desempoeirada porque fuma enquanto luta pela sua liberdade (e nunca suspeitar que o marido lhe bate) enquanto olhamos, condescendentes, para uma mulher de hijab nas ruas de Lisboa e não nos ocorre que poderemos estar a passar ao lado de uma activista afegã.
O mundo em que vivemos está transformado num gigantesco take away para 1% da população e num supermercado baratucho construído em cima de lixeiras nauseabundas para os restantes 99%, enquanto o jornalismo se tem transformado, para além de um aliado fundamental dos grandes grupos empresariais e políticos, numa montra publicitária que vende estilos de vida, viagens da moda e temas e debates do momento a troco de likes e apoios que garantem a sua própria sobrevivência. A sociedade aceita a perversidade como um modus operandi e tentar ser decente nestas circunstâncias é como tentar tirar a vareta preta no jogo de micado sem mexer em mais nenhuma outra vareta quando esta está soterrada por baixo de todas as outras de outras cores. Tenho vergonha, Chéu, e a leve sensação de estar a contribuir para sistemas e para acções que abertamente condeno nas conversas que tenho mas que acabo por promover de cada vez que faço uma leitura imediata (e preconceituosa) dos estilos e dos vícios das outras atormenta-me.
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela