Em Era Uma Vez na América, Sergio Leone filmou mais do que a história de gangsters judeus em Nova Iorque. Filmou uma promessa. A promessa de que a América era o lugar onde todos os passados podiam ser abandonados, onde os filhos dos pobres, dos perseguidos e dos esquecidos podiam reinventar-se. A América era, ao mesmo tempo, refúgio, mito e destino. Um país construído por quem fugia de alguma coisa e por quem acreditava que, do outro lado do Atlântico, a vida podia começar outra vez.
Duzentos e cinquenta anos depois da sua fundação, a pergunta já não é apenas: O que foi a América? A pergunta é: Que América temos hoje?
A América nasceu de uma revolta contra o Império Britânico, contra a tributação sem representação, contra a ideia de que o poder podia existir sem consentimento. Os pais fundadores imaginaram uma república imperfeita, muitas vezes contraditória, marcada desde o início pelo pecado original da escravatura, mas fundada sobre uma ambição revolucionária: limitar o poder, proteger a liberdade, transformar cidadãos em soberanos.
Durante dois séculos e meio, essa América foi muitas Américas. Foi a América da Constituição e da segregação. A América de Lincoln e de Jim Crow. A América que libertou a Europa do nazismo e depois ajudou a reconstruí-la. A América do Plano Marshall, da NATO, da universidade moderna, da investigação científica, da indústria farmacêutica, da internet, de Silicon Valley, da cultura de massas, do jazz, do cinema, da literatura, da liberdade de imprensa e dos direitos civis. Foi também a América do Vietname, do Iraque, de Guantánamo, dos golpes apoiados no estrangeiro e das suas próprias hipocrisias.
Mas, apesar de tudo, havia uma ideia que resistia: a América como horizonte. Não necessariamente como país perfeito, mas como país capaz de se corrigir. A sua grandeza nunca esteve na ausência de falhas. Esteve na capacidade de discutir essas falhas em praça pública e, por vezes, de as vencer.
Hoje, porém, a América que vemos é outra. Ou, pelo menos, é outra a América que a Administração Trump tenta projetar para o mundo. Uma América zangada, fechada, desconfiada, punitiva. Uma América que transforma aliados em suspeitos, imigrantes em inimigos, diferenças em ameaça e fé religiosa em instrumento de combate político. Uma América onde a liberdade é muitas vezes invocada para negar a liberdade dos outros. Onde a bandeira, em vez de símbolo comum, passa a ser fronteira moral entre “nós” e “eles”.
A América de hoje ameaça com tarifas como quem ameaça com tropas. Fala do Canadá como se a amizade pudesse ser convertida em submissão. Olha para a Gronelândia como se o século XXI ainda permitisse mapas comprados por capricho imperial. Trata a Venezuela, o Irão, a Europa ou a Ucrânia não como peças de uma ordem internacional, mas como cartas de uma negociação pessoal. E, no meio de tudo isto, procura uma proximidade inquietante com Putin, precisamente no momento em que a Rússia tenta destruir a soberania de um país independente.
Esta não é apenas uma mudança de estilo. É uma mudança de linguagem moral. A América que salvou a Europa duas vezes sabia que a liberdade exigia sacrifício, alianças e responsabilidade. A América que hoje se apresenta ao mundo parece, demasiadas vezes, cansada da sua própria missão histórica. Já não quer liderar a ordem liberal que ajudou a construir. Quer cobrar portagens à sua própria liderança.
Seria, porém, injusto confundir esta América com toda a América. Existe outra América. A América das universidades, dos tribunais, dos jornalistas, dos cientistas, dos empreendedores, das minorias que continuam a lutar, dos jovens que recusam o cinismo, dos conservadores que ainda acreditam nas instituições e dos democratas que sabem que a liberdade não sobrevive sem limites ao poder. Existe uma América que continua a criar, a curar, a investigar, a acolher e a resistir.
Talvez seja essa a grande tragédia deste aniversário: a América chega aos 250 anos dividida entre o seu mito e o seu medo. Entre a república que quis fundar e o império emocional que hoje parece tentada a construir. Entre a promessa de liberdade universal e a tentação de uma identidade fechada, ressentida e vingativa.
A América nunca foi inocente. Mas foi, durante muito tempo, indispensável. A questão é saber se continuará a sê-lo como farol ou apenas como força. Se voltará a ser a nação que transforma poder em responsabilidade, ou se ficará reduzida a uma potência que confunde grandeza com intimidação.
Duzentos e cinquenta anos depois, talvez a pergunta mais difícil não seja: Que América temos? Talvez seja outra: Que América ainda pode a América querer ser?
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