Foi num dia “fatídico”, já há alguns anos, que Ivanka Trump deu um mergulho que mudaria a sua vida no Adriático, adjetivou recentemente uma repórter da The European Correspondent. “Estávamos no iate de um amigo e parámos para nadar, foi assim que descobrimos o local”, contou a filha mais velha do Presidente dos EUA, numa entrevista ao podcast de David Senra.
O local era a ilha de Sazan, na costa de Vlora, no sudoeste da Albânia, que está hoje desabitada mas serviu como base militar durante a II Guerra Mundial, tornando-se mais tarde parte da rede de defesa alinhada com a URSS. Ivanka e o marido, Jared Kushner, teriam então “identificado a oportunidade de ajudar a concretizar o seu potencial e transformá-lo, mas com muita moderação e cuidado”, acrescentou, por ser “muito bonito”.
Dito assim, mesmo em financês, parece tudo nos conformes, mas faltou acrescentar que durante essa viagem o casal encontrou-se com Edi Rama, o primeiro-ministro da Albânia desde 2013, e que Kushner lhe disse que estava interessado em investir quando voltaram a ver-se no Fórum Económico Mundial, em Davos.
“O senhor é um investidor americano, e este país está aberto a todos os investidores americanos”, lembra-se de ter respondido Rama, como contou agora à Reuters.
Pouco demorou até Ivanka, o marido e um grupo de investidores seus amigos comprarem terrenos na ilha de Sazan e também na faixa litoral à frente, ladeada por praias desertas, olivais centenários e falésias imponentes. Intenção declarada? Desenvolver um projeto multimilionário que deverá custar cerca de cinco mil milhões de euros e que inclui urbanizar completamente a ilha, além de construir hotéis e casas de luxo ao longo de sete quilómetros de dunas virgens em plena área protegida do delta Vjosa-Narta.
O rio Vjosa é o último rio selvagem da Europa, cuja proteção foi garantida há uns anos pelo Parlamento albanês para provar à União Europeia que o país respeita o ambiente (recorde-se que a Albânia está prestes a aderir à UE). A lagoa de Narta é um local de nidificação de mais de 200 espécies de aves, entre elas, os raríssimos pelicanos-dálmatas e flamingos. Na área protegida também há tartarugas marinhas e focas-monge-do-mediterrâneo.
Em 2024, Kushner anunciou os seus planos nas redes sociais com uma representação artística que mostrava os terrenos nas imediações da praia de Zvërnec, de frente para a ilha de Sazan, cobertos por um grande hotel, vilas, piscinas e cais para iates.
Na altura, levantaram-se vozes contra, a começar pelas de antigos proprietários dos terrenos junto à costa que foram requisitados pelo regime comunista e nunca devolvidos. A favor estava apenas um homem que argumenta judicialmente ser o único dono, desde o Império Otomano. Foi ele quem vendeu os terrenos a Kushner.
Até que, no final de maio deste ano, com os processos a decorrerem em tribunal e antes de qualquer projeto ser aprovado, Zvërnec foi invadida por escavadoras que arrasaram as dunas, a floresta em volta e até parte da lagoa, antes de se cercar o perímetro com arame farpado, restringindo o acesso ao mar. Foi então que o povo saiu à rua em Tirana.
“A Albânia não está à venda”, começaram a gritar os manifestantes, em frente ao gabinete de Rama, empunhando flamingos gigantes e desfilando com boias em forma de flamingo.
A diáspora juntou-se rapidamente à luta na Grécia e em Itália, Inglaterra, EUA, Áustria e Bélgica, e não parece estar disposta a baixar os braços. E, aqui, a mais de três mil quilómetros de distância, também se aplaude a Revolução dos Flamingos.