Eram 8h46 da manhã de 11 de setembro de 2001 quando Elia Zedeño, que trabalhava no 73º andar do World Trade Center, em Nova Iorque, ouviu uma grande explosão e sentiu a Torre 1 abanar violentamente, como se fosse cair. Nesse momento, agarrou-se à sua secretária e gritou: “O que está a acontecer?”
O instinto não a levou a fugir logo dali. “O que eu queria mesmo”, contaria quatro anos mais tarde à jornalista norte-americana Amanda Ripley, “era que alguém respondesse: ‘Está tudo bem! Não te preocupes. Isso é coisa da tua cabeça.’”
Zedeño não sabia que a maioria das pessoas à sua volta estava congelada pela incredulidade. Nunca tinha ouvido dizer que a resposta inicial a um alerta de catástrofe é habitualmente a descrença. Os psicólogos até têm uma expressão para a nossa tendência para subestimar a hipótese de desastres: chamam-lhe “enviesamento da normalidade”.
Por sorte, um dos colegas de Zedeño reagiu de maneira diferente da maioria e gritou: “Saiam do prédio!” Apesar da urgência da ordem, era como se ela estivesse em transe. “Procurava algo para levar comigo. Lembro-me de ter levado o meu livro. Depois, continuei à procura de outras coisas”, recordaria, com um sorriso.
Um estudo do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, baseado em entrevistas a quase 900 sobreviventes, revelaria que as pessoas que naquela manhã conseguiram sair das duas torres do WTC, atingidas por aviões, esperaram em média seis minutos antes de começarem a descer as escadas, acabando por levar o dobro do tempo previsto para alcançar a rua.
“Porque é que os nossos instintos falham, por vezes, de forma tão drástica?”, perguntava, então, Amanda Ripley no artigo, publicado na revista Time, em 2005, avançando aquilo que a comunidade científica já sabia: “Mesmo quando estamos calmos, o cérebro precisa de oito a dez segundos para processar cada nova informação complexa. Quanto maior o stresse, mais lento é esse processo neurológico, o que pode explicar, em parte, a tendência para ficar no mesmo local em momentos de crise.”
A “negação” é a primeira fase da nossa resposta, escreveria a jornalista no livro The Unthinkable: Who Survives When Disaster Strikes – And Why (o impensável: quem sobrevive quando o desastre acontece – e porquê), de 2009. Segue-se a “deliberação”, fase em que escolhemos o que fazer, frequentemente dificultada pelo stresse. Só depois vem o “momento decisivo”, em que devemos agir de maneira rápida e determinada.
Serve o exemplo de Elia Zedeño para deixar bem claro que poucos de nós teríamos reagido melhor ao incêndio que matou 40 pessoas (entre elas, a portuguesa Fany Pinheiro Magalhães) e feriu mais de cem no Le Constellation, um bar na estância de esqui suíça de Crans-Montana, durante a noite de Ano Novo.
Os vídeos que entretanto surgiram nas redes sociais, em que se vê o teto do piso térreo a encher-se rapidamente de chamas, não “personificam na perfeição a era da estupidez do Instagram, em que a vontade de gravar coisas é tão forte que se sobrepõe aos instintos programados nos humanos desde o início dos tempos”, como li na legenda de um deles.
As pessoas muito provavelmente já estavam a filmar, a música continua a tocar, os empregados do bar não entram em pânico – ou seja, parece tudo normal, diz-nos o nosso cérebro numa situação daquelas. E não houve tempo para reagir, porque o teto, coberto de espuma de poliuretano, transformou a pista de dança num inferno em pouco mais de um minuto.
Mais: 26 das 40 vítimas mortais eram adolescentes, sem grande experiência de vida. O próprio DJ, Matéo Lesguer, tinha apenas 23 anos e não sobreviveu para contar o que viu.