Para quem não foi à praia, aos arraiais de Santo António, ou não tinha dinheiro nem para uma coisa nem para outra, domingo, dia 15 de junho, foi pródigo em protestos. A indignação, à primeira vista, vai sendo gratuita, mas só nas aparências.
Houve uma caminhada de seis horas pela Palestina livre, saindo de Carcavelos e acabando no centro de Lisboa, frente à Embaixada de Israel. Houve a manifestação Não Queremos Viver no País do Medo, na sequência das agressões ao ator Adérito Lopes, do Teatro A Barraca, com protestos em Lisboa, Porto, Coimbra, Beja, Braga e Faro, entre outras cidades. As agressões, conotadas com elementos da extrema-direita, motivaram o protesto contra o racismo e a violência.
Foi pena não se terem encontrado ou coordenado com a “procissão” Lá Vai o Andor de Santo António Despejado, que andou pelos bairros lisboetas de Alfama e da Graça, um protesto inserido na rede SET – Sul da Europa contra a Turistificação, e que aconteceu em várias cidades europeias.
Porque o racismo, a violência, a ascensão da extrema-direita e do ódio antissistema, esta revolta contra uma democracia sem respostas ou soluções, encontram o maior dos rastilhos nas condições de vida. E na sensação (real) de estarmos cada vez mais a escorregar para longe dos centros – sejam estes das cidades ou de tomadas de decisão, onde se manejam os fios do nosso futuro sem que tenhamos uma palavra a dizer sobre o assunto.
O sociólogo e geógrafo holandês Hein de Haas, um dos grandes especialistas mundiais sobre as migrações, disse há um ano numa entrevista à VISÃO: “Não são só as empresas que beneficiam com a imigração, também a sociedade, nomeadamente a classe média e a alta. Basta pensar em serviços como a entrega de comida ao domicílio, os restaurantes, os serviços de limpeza e de cuidado dos idosos… Só os mais pobres é que têm razões para se questionar: em que é que eu beneficio da imigração? E também são eles que vivem com as consequências sociais das políticas que segregam os imigrantes porque habitam os mesmos espaços.”
A relação é simples de fazer. Os portugueses mais pobres e com menos habilitações literárias são os que engrossam as periferias, agora que os centros das cidades lhes foram vedados. São os segregados dos centros a habitar os espaços dos segregados da sociedade, os imigrantes, num caldeirão de pobreza, invisibilidade, exploração e esquecimento. O resultado está à vista.
Porque o fascismo funciona na lógica do “nós” e “eles”. E a esquerda não tem funcionado assim, dividida como sempre?
Noticia o jornal Público de segunda-feira: “O Governo posiciona-se, de forma clara, contra algumas das soluções sugeridas por Bruxelas para responder à crise habitacional, como o reforço da regulação do arrendamento ou do alojamento local.” A Comissão Europeia defendeu recentemente que Portugal deve apostar em “medidas de longo prazo para controlar o rápido aumento dos preços das rendas”. Para o Executivo de Luís Montenegro, a imposição de limites legais às rendas representaria um “castigo generalizado dos proprietários”, preferindo deixar as rendas nos níveis atuais ou naqueles que o mercado quiser, e optando por subsidiar alguns inquilinos e prometer mais casas no mercado.
São medidas que não funcionam, insiste Bruxelas, como não funcionaram as dos sucessivos governos de esquerda. Onde falta a coragem fica o terreno baldio para ser ocupado por quem tem mais sentido de oportunidade política. Haverá manifestações que nos valham?
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