Se crentes formos, facilmente teremos de afirmar que o Espírito Santo tem um grande conhecimento do mundo dos humanos. Na recentíssima eleição do Papa Leão XIV, a equação que resultaria na escolha da pessoa certa era de uma complexidade imensa no campo dos problemas que vão pelo mundo.
Uns, mais internos à Igreja Católica; outros, do campo da diplomacia e das relações internacionais; em todos, grandes opções em cima da mesa. Em todos eles, a herança do Papa Francisco: continuidade plena, continuidade controlada, ou reescrita de algumas das opções ‒ e sem falar no estilo e na forma que Jorge Bergoglio deu ao seu pontificado.
Francisco tornou-se uma “caixa de ressonância” do mundo ocidental e dos seus valores humanistas. Numa época de extremos, de radicalismos políticos, com o crescimento da extrema-direita um pouco por todo o lado, Francisco foi a voz que sempre se fez ouvir em torno de causas centrais na própria definição do que hoje é humanismo.
Foi perante esta extrema eficácia do Papa Francisco que Donald Trump percebeu os danos que o Sumo Pontífice lhe fazia em termos reputacionais, especialmente junto do eleitorado católico. As pressões para eleger um Papa menos próximo e menos ativo às causas de Francisco era, para o Presidente norte-americano, uma prioridade. A herança de Francisco passará sempre pela forma como o novo Papa irá gerir esta natureza de “pontífice de causas”, sendo que a natureza radical de muitas das causas torna muito difícil o diálogo e a concretização de pontes.
Mas se para Donald Trump o que importava eram as causas que na sua leitura moral não deveriam ter visibilidade, para a Igreja Católica o grande desafio do dia de hoje encontra-se na unidade da igreja, especialmente na relação com as comunidades católicas dos Estados Unidos da América. O novo Papa não é um homem de Donald Trump, apesar de ser norte-americano. Leão XIV é, mesmo, uma “bofetada de luva branca” que o colégio de cardeais deu à soberba do Presidente norte-americano.
O pontificado de Francisco levou a um afastamento muito grande da igreja norte-americana face ao Vaticano. Às questões dos abusos sexuais somaram-se as referidas causas, muito mal aceites num clero altamente conservador. Urge, até por questões financeiras, trazer essas comunidades para uma comunhão mais efetiva com Roma.
O novo Papa tem como grande função efetivar a natureza de “pontifex” expressa no seu título eclesiástico. Pontes para fora, mas também pontes para dentro. Foi este o primeiro ponto enunciado por Leão XIV no seu primeiro discurso: a unidade da sua igreja, respeitando a imensa diversidade que a constitui.
Este é o desafio maior do novo Papa. Tudo o resto é importante, especialmente todas as questões ligadas à Paz, à ecologia, à justiça, às migrações; tudo com a fraternidade em pano de fundo. Mas a questão central é a indivisibilidade da igreja: juntar debaixo de um mesmo agremiador vertentes opostas em muitos aspetos. Este será o centro do caderno de encargos que o novo Papa recebeu das mãos dos cardeais reunidos na Capela Sistina.
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