1. Moedas e a segurança em Lisboa Não acreditava, se só me contassem e se como toda a gente não o tivesse ouvido da boca do próprio. O que também significa ter uma consideração por ele (o “próprio”) que mais me fez ficar surpreendido, mesmo espantado, com a sua reação. Ele é Carlos Moedas. O caso é a divulgação pela polícia dos números que mostram ter diminuído a criminalidade, inclusive a violenta, em Lisboa. Diminuído a criminalidade, havendo mais imigrantes, como já tinha acentuado, numa esclarecedora e oportuna declaração, o diretor da Judiciária, Luís Neves.
Ora, a incompreensível reação de Moedas àquela boa notícia para a cidade de cuja Câmara é presidente foi pôr em dúvida, se não negar, tais números, sobrepondo-lhes a sua perceção em sentido contrário. Ou seja: contra os dados concretos, continuando a sustentar que a insegurança e a violência se agravaram – e mostrando-se quase zangado com tais bons números, embora dizendo que ficaria muito contente se eles fossem verdadeiros…
Em suma: o presidente da edilidade, em vez de sublinhar e valorizar esses números, para combater a equivocada perceção de insegurança – que só prejudica as pessoas e a imagem da cidade e contribui para a intranquilidade das pessoas –, fez exatamente o contrário!…
2. … e a Rua do Benformoso, que nem precisa de câmaras de vigilância Tal, para mim surpreendente, conduta de Carlos Moedas vem no seguimento do seu apoio e aplauso à aparatosa operação policial que humilhantemente encostou à parede, durante uma hora a uma hora e meia, quem passava naquela rua, numa normal tarde de trabalho. O que, como aqui já salientei, só faz aumentar o sentimento de insegurança: se a presença de muita polícia, muito armada, a efetuar operações espetaculares, transmitisse ideia de segurança, não havia lugares tidos por mais seguros do que as favelas do Rio de Janeiro.
Mas há mais uma coisa extraordinária, que não vi referida. Se aquela Rua do Benformoso era tão perigosa, com um elevado índice de criminalidade, porque não tinha câmaras de vigilância? Não tinha, não tem, e muitíssimo mais significativo ainda: a Câmara de Lisboa ter um plano para instalar este ano mais 216 (216 repito) daquelas câmaras e dele não constar a Rua do Benformoso, pelo menos como prioritária. Prova evidente de existirem outros motivos para desencadear a operação num território sobretudo de residência e negócio de imigrantes asiáticos.
3. Pedro Nuno Santos: cambalhota?, radical? E sobre estas questões de segurança e emigração muito se disse a propósito de uma entrevista de Pedro Nuno Santos ao Expresso. Porque em matéria de emigração teria dado uma “cambalhota”. Não me parece: houve o reconhecimento do insucesso de medidas do anterior governo PS – e é sério, positivo, reconhecê-lo, exatamente por ser um governo do seu partido –, e houve um certa reorientação/ clarificação de rumo, que me parece ajustada. De resto, a entrevista mostra, confirmando as suas posições como líder do PS, é ser errada ou falsa a sua qualificação como “radical”. Qualificação muito conveniente para a direita, e que passou a ser quase um lugar-comum acriticamente repetido. Tê-lo-á sido antes, ou mesmo antes só alguém que em certas ocasiões deu umas bocas provocatórias?
4. O título antes do texto Tive de dar o título desta coluna, para o sumário da revista, ainda antes de a escrever… A minha ideia era salientar que muito mais importante do que os casos são as causas, e que se impõe sempre tentar apurar as causas dos casos… Acabei por seguir caminho diferente, fica para outra vez. E em matéria de casos da semana, telegraficamente três, entre muitos mais: a) o fim da comissão parlamentar sobre o tratamento às gémeas, um exemplo flagrantes de tempo e dinheiro mal gasto pelo Parlamento; b) ao fim de nove anos de óbvias infundadas suspeitas, a não acusação a Fernando Medina e Duarte Cordeiro, sendo este um dos melhores quadros do PS e que por causa delas abandonou a política, a que se espera regresse; c) o congresso da IL, um partido com elementos tão respeitáveis como Cotrim de Figueiredo, e agora, lamentavelmente, com os “afueras” e a motoserra de Milei.
À Margem
Os 90 anos de Ramalho Eanes
António Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito em Portugal após uma tirania de quase meio século, fez 90 anos. É muito o que a democracia e o País lhe devem, embora ele sempre se tenha limitado – gosta de acentuar e passe o pleonasmo – a cumprir o seu dever. Por isso, creio que terá sido ele a recusar o que quer que fosse para, a propósito da data, o homenagear.
Como militar, toda a sua ação é exemplar, sem prejuízo de possíveis discordâncias sobre algumas escolhas enquanto CEMFA. Como político, a sua ação foi muito positiva, por vezes fundamental, sem prejuízo de erros que entendo ter cometido.
O seu legado, no conjunto, é sobretudo ético. Foi muitas vezes injustamente atacado, hoje é muito justa e maioritariamente reconhecido como a grande figura nacional.