Estamos espalhados por todo o planeta, cobrindo com o manto único da nossa língua as mais diversas origens, imaginações, lendas e histórias. No nosso sangue cultural único e exótico, somam-se a pioneira arquitetura poética portuguesa; a alegria desinibida brasileira; os tão singulares ritmos libertários que pulsam, cada um com sua própria freqüência, de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Guiné Equatorial; a força resistente de Timor-Leste; e a admiração de todo o mundo por esta pátria, como bem definiu Fernando Pessoa, que é a Língua Portuguesa.
Pátria que, vale destacar, tomou uma decisão irreversível de abraçar a diversidade absoluta quando o primeiro navegador português zarpou rumo aos mares desconhecidos. A glória das descobertas mudou o mundo, embora também tenha deixado um rasto de pecados que, certamente, condenaram tantos a uma eternidade no submundo. Quis a História que chegássemos hoje, ao nosso tempo atual, mais divididos do que as nossas próprias fronteiras originárias.
Vivemos, pois, em tempos de amplo preconceito. A xenofobia impera, com maior ou menor grau, em todos os nossos países, como se a nossa qualidade individual fosse resultado da terra que nos viu nascer em vez da cultura que, de alguma forma, por planos ou por sorte, nos uniu. Desperdiçamos sem nos dar conta daquela que é a grande vantagem de ser um cidadão da Língua Portuguesa: poder transitar, com fluidez, por mundos tão diferentes – e aprender com cada um deles os caminhos certos da vida.
Nunca fui, no entanto, dotado de pessimismos fatalistas: acredito, como sempre acreditei, que o mundo muda sempre para melhor, ainda que, por vezes, a passos desacelerados.
E sempre acreditei que o melhor caminho para esta mudança, para esta evolução civilizacional, se pavimenta justamente com aquilo que nos difere, enquanto seres humanos, de todas as demais espécies vivas: a nossa capacidade de partilhar histórias.
São as histórias que ouvimos, lemos e contamos que nos unem, que tecem um manto de admiração mútua capaz de abrir os nossos olhos para esta benção que é a diversidade na qual comunga a Língua Portuguesa. Apenas as nossas histórias mais plurais, escritas nos nossos sotaques mais marcantes, podem salvar a nossa língua tão única.
E estas histórias têm-se multiplicado a um ritmo frenético, como prova o mercado editorial. Desde que a autopublicação – a capacidade de escritores publicarem os seus próprios livros sem custos e sem precisarem de passar pelas poucas editoras que comandam o mercado tradicional – se tornou realidade, há alguns anos, a própria estatística oficial de livros perdeu-se na sua incapacidade metodológica de se manter em linha com os números que deveria acompanhar.
Para se ter uma ideia, enquanto o mercado editorial tradicional cresceu a um ritmo de cerca de 1% ao ano, o de livros autopublicados saltou 264% nos últimos 5 anos, alcançando um total de 300 milhões de exemplares vendidos apenas em 2022. Mais de 25% de todos os livros publicados em língua portuguesa já são autopublicados.
E porque é que isto importa? Porque é deste perfil de livros que saem as histórias menos tradicionais e mais únicas, mais culturalmente peculiares. Porque o autor independente é quem mais tem a liberdade de escrever e de partilhar as suas visões e experiências de maneira crua, desprovidas de eufemismos e de censura, como elas realmente são. E, sem a barreira financeira tão comum a este mercado, o fluxo de histórias só tende a crescer.
Mais histórias, significa mais olhares voltados para os problemas e as alegrias dos quatro cantos do nosso mundo. Significa uma compreensão mais humanista e civilizada – e, portanto, menos xenófoba – do nosso povo. Significa abraçar, ao invés de afastar, a diversidade que faz a nossa língua tão única no mundo de hoje.
Significa que, em algum 5 de maio futuro, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, possamos deixar de ser uma massa e passar a ser efetivamente uma pátria de 280 milhões de pessoas.