A minha maneira de estar na vida – sentada há quase 39 anos numa cadeira de rodas – podia ser feita de sucessivos questionamentos ou formulação de hipóteses: “e se?” Não me tem faltado imaginação e criatividade, mas no que diz respeito à minha condição de pessoa com deficiência congénita assumo que vim com o chip da aceitação incorporado. Portanto, o meu cérebro raramente voou para os seguintes pontos de interrogação: e se me assaltam? e se me raptam? e se houver uma fuga de gás e eu precisar de fugir? e se este sítio começar a arder como é que eu saio daqui? e se houver um terramoto como é que eu me protejo? e se desencadear uma briga onde é que eu me escondo? e se todos correrem e eu for deixada para trás? e se se esquecerem de mim? Rodar na confiança plena de que sou amada também me tem feito sentir guardada e livrada do mal nestas hipóteses. Essa perceção alterou-se depois de a comunicação social me dar conta desta notícia: falta de acessibilidade aos abrigos e à ajuda humanitária pode tornar “terrível” a vida de 2,7 milhões de pessoas com deficiência na Ucrânia.
Imaginei-me a mais de 4 mil km daqui e a ser uma daquelas pessoas. Calcei as suas rodas e inevitavelmente pensei: e se eu estivesse lá? Seria eu uma deixada para trás? Consciencializei-me, com um gosto amargo na boca e o coração comprimido, da diferença entre poder tentar escapar e não ter sequer a oportunidade de tentar. Pesquisar por notícias sobre esta temática é desolador, ao mesmo tempo que me obriga a, do meu lugar de privilégio, não ficar calada. Segundo o Fórum Europeu da Deficiência (EDF, na sigla em inglês), “as mulheres com deficiência estão em maior risco de violência sexual e as crianças com deficiência estão mais expostas ao abuso e à negligência. As informações cruciais sobre segurança e evacuação são muitas vezes inacessíveis, e os próprios centros de evacuação também raramente possuem acessibilidade, o que significa que as pessoas com deficiência são muitas vezes deixadas para trás”. Ampliar as notícias acerca do que se está a passar com esta minoria em tempo de guerra e continuar a lutar, com as armas que tenho, para que nos lugares de paz a acessibilidade, igualdade de oportunidades e inclusão não sejam esquecidas, é também uma forma de não parar de fazer a minha parte.
Desde a manhã de 24 de Fevereiro que não estar informada para mim não é opção. Treinada como jornalista, mesmo sem exercer, há qualquer coisa que me acalma se procurar continuamente por informação credível no meio da enxurrada de fake news e o lixo da propaganda russa. Há quem ache que é masoquismo ou que, para combater a ansiedade e impotência de pouco ou nada podermos fazer a partir deste nosso paraíso luso à beira mar plantado, mais vale não ver as notícias porque são todas más. A minha resposta a isso é que a visão gera compaixão e a minha fé precisa de conhecimento, pois até para saber como e pelo que orar eu preciso de conhecer o que se está a passar na Ucrânia.
No ano passado, o slogan comemorativo do aniversário da igreja cristã onde congrego era “ninguém fica para trás”. Fundada na visão e ministério de Jesus, esta frase não só me fez todo o sentido, como me soou a análise própria de consciência para me manter ainda mais atenta aos que no meu dia-a-dia fazem parte de mim. Já levávamos mais de um ano de pandemia e, nesta coisa de sermos Casa uns para os outros, o desafio de nos fazermos presentes, quando sistematicamente nos era pedido distanciamento físico e social, requeria cada vez mais um equilíbrio entre uma sabedoria racional e uma fé ousada.
Uns dias antes de Putin (e não toda a Rússia) invadir a Ucrânia ouvia o meu amigo Andrey Ivanishchev dizer, a propósito daquilo que não devíamos deixar para depois quando se trata de dar o nosso melhor ao outro: “se virmos uma pessoa a afogar-se, não vamos instantaneamente salvá-la? Se soubéssemos que a pessoa com quem estamos, no momento seguinte, vai ser atropelada, agimos da mesma forma?” Mal sabíamos nós que dias a seguir cada hora contaria como sendo urgente para todos os que gostávamos de poder conseguir resgatar desta guerra.
O melhor investimento que podemos fazer na vida é nas ligações que mantemos uns com os outros. Pois quando tudo der errado, são as pessoas as únicas capazes de, em nome do Amor que as liga, não deixar ninguém abandonado ao seu destino fatalista de imobilidade. Quando não existirem condições técnicas favoráveis, são as pessoas as únicas dispostas a agarrar na dependência de alguém e exterminar a sua solidão.
Ainda assim, nenhum ato de compaixão deve ser feito com pressão. Aqueles que não poderão fazer ou doar alguma coisa, por se estarem ainda a reerguer das consequências da pandemia, não se culpem. É que está sempre ao nosso alcance a capacidade de ser e de nos doarmos. Que encontremos utilidade em promover a paz junto dos que já estão ao nosso lado, nos pequenos detalhes. Que nos apresentemos disponíveis para acolher no nosso dia-a-dia os que estão para chegar; às vezes, basta um sorriso que é percetível em todas as línguas. Que continuemos a não deixar para trás as boas notícias e a partilhar os milagres diários que nascem sem ser por acaso no meio do caos. Assim, “a vida vencerá a morte e a luz vencerá as trevas”, crê Volodymyr Zelensky e eu também.