Fenómeno de vendas nos EUA, o que resultou numa adaptação para TV, The Walking Dead é uma série de “zombies”. Que não é sobre “zombies”. Não que não glose todos os “clichés” sobre filmes de terror que os utilizam, desde ambientes pós-apocalípticos, microcosmos com elementos representativos de várias grupos sociais, mordidelas infecciosas e humor mórbido com corpos em decomposição; ou a habitual mania das personagens “normais” se aventurarem em recantos escuros, abrindo portas que deveriam permanecer fechadas. Mas se isso, o facto de ser a preto e branco, ou o desenho funcional mas não espetacular de Adlard, afastar leitores demasiado sofisticados para o seu próprio bem é pena. Porque a força de The Walking Dead está no argumento, na caracterização de personagens, na gestão de situações. E no modo como usa dispositivos clássicos do género por entre reflexões sobre humanidade, moral, comunidade, lealdade, autoridade, diplomacia, sociedade. Melhor: de como tudo se subverte quando o mundo colapsa, e é preciso sobreviver estabelecendo novas regras e referências. As quais não serão muito diferentes das anteriores, porque as pessoas não mudam assim tanto. Talvez se tornem mais selvagens, corajosas, rmísticas, resignadas, suicidárias. Talvez ajam, talvez se limitem a reagir; cultivem mentiras piedosas ou uma honestidade brutal; aceitem o fim do mundo que conheceram, ou tentem desesperadamente mantê-lo. O pretexto poderia ter sido uma guerra nuclear, uma crise financeira que lançasse países e seus cidadãos no caos. Neste caso é uma praga de mortos-vivos.
Apesar de conseguir capturar alguma da essência do trabalho de Kirkman, a série de televisão homónima (em Portugal passa na FOX) é pior que o original (outro “cliché”), e por três motivos. O primeiro relaciona-se com a mediocridade dos atores (salvam-se secundários como Scott Wilson ou Michael Rooker), o segundo com a vertigem de tentar explicar os “zombies”, quando a BD nunca foi sobre eles. Mas o pior é a incapacidade para manter um ritmo, com vários episódios que se arrastam a esticar dramas inexistentes. Se essa é uma característica habitual em séries cujo prolongamento esgotou a premissa (Lost, Blake & Mortimer), é curioso como, a esse nível, a banda desenhada ainda consegue surpreender, enquanto a (muito mais recente) versão televisiva se torna previsível.
Na verdade a razão é simples: em BD The Walking Dead não tem medo de correr riscos; em TV teme alienar. Os leitores de Robert Kirkman interiorizam a precariedade, evitam ficar demasiado apegados a cenários ou personagens que nunca estão a salvo. E, por estar para lá do bem e do mal, o protagonista não é refúgio seguro para ninguém; apenas mais um “zombie” em potência que luta por todos os meios para se manter humano, quer literal, quer figurativamente. The Walking Dead é uma série para os vivos, que sabem a sorte que têm.
The Waking Dead 3: Segurança na prisão.
The Waking Dead 4: O desejo do coração. Argumento de Robert Kirkman, desenhos de Charlie Adlard (com Cliff Rathburn). Devir, 120 pp., 15 Euros.