“O facto de nunca termos dobrado filmes ou séries aguçou-nos o ouvido, dando-nos facilidade em línguas e em sotaques. Tudo se congeminou para Portugal ficar no mapa”

Foto: Marcos Borga

“O facto de nunca termos dobrado filmes ou séries aguçou-nos o ouvido, dando-nos facilidade em línguas e em sotaques. Tudo se congeminou para Portugal ficar no mapa”

“O meu middle name é post-it”, atira, já depois de o gravador estar desligado. Mas só vemos três papelinhos amarelos com listas de tarefas em cima da sua arrumada secretária, onde também está um jardim zen japonês, a que recorre algumas vezes enquanto conversamos, mexendo com o ancinho na areia, como forma de se concentrar. “Isto só está assim porque estou a dias de ir para baixo e já tenho tudo o que vou levar comigo empacotado.” Na verdade, descobrimos, ao longo da entrevista, que Patrícia Vasconcelos, 57 anos, a diretora de casting com mais créditos do mercado, tem vários middle names: professora na ACT, a escola que criou há 23 anos, cantora de jazz, realizadora (fez um documentário sobre Raul Solnado), membro da Academia das Artes de Hollywood, mãe e avó dedicada. Diz que assume estes e outros papéis, como mentora do programa Passaporte, destinado à internacionalização de atores, com muito “sentido de responsabilidade”.

Terminou há pouco a 8ª edição do Passaporte. Quantos atores já galgaram fronteiras por sua culpa?
Ui… Não faço ideia. Isso é a cereja no topo do bolo, mas o que interessa é participar em tudo o que acontece durante o programa.

Mas existem uns cartões de visita?
Os casos que estão no site [Joana Ribeiro, Nuno Lopes, Albano Jerónimo, Lúcia Moniz, por exemplo] são aqueles de que se pode falar. Outros só são anunciados muitos meses depois, quando a série ou o filme são lançados. Há segredos que é preciso preservar.

Porque se cria esse secretismo todo na indústria?
Tem que ver com o aproveitar do momento da promoção para fazer essas revelações – há muitos casos em que até se assinam termos de confidencialidade.

Como se faz a seleção de quem participa no Passaporte?
Há sempre uma candidatura que começa em janeiro, que dura aproximadamente dois meses e que consiste num conjunto de provas muito específicas. Neste ano, tivemos 202 válidas, um recorde. Depois, há um júri internacional que elege os que entram no programa, que nunca devem ser mais do que 16, sem limite de idade.

Quais são as características mais atraentes nos atores portugueses?
Logo na primeira edição do Passaporte, o ator Albano Jerónimo foi escolhido para os Vikings e foi um “xitex”. Com isso, provou-se que o programa era uma boa ideia. O projeto tem vindo a ser aperfeiçoado todos os anos e ainda deve crescer mais, nomeadamente para o Porto…

Não me falou das características dos nossos atores.
Neste ano, pela primeira vez, depois de umas francesas me terem chamado a atenção para isso, reparei numa característica própria, que é a fisicalidade.

O que é a fisicalidade, a forma de estar?
Uma certa descontração física, diz que os portugueses trabalham melhor o corpo. E eu nunca me tinha apercebido disso.

Concorda?
Percebo a diferença em relação a atores de outras nacionalidades. 

Apesar de já serem comuns as internacionalizações, reagimos com provincianismo quando vemos um ator a brilhar lá fora. São vícios de um país pequeno?
Especialmente de um país com uma fronteira só. Pensando do ponto de vista positivo, isso desenvolveu-nos a imaginação e o sentido aventureiro. E o facto de nunca termos dobrado filmes ou séries aguçou-nos o ouvido, dando-nos facilidade em línguas e em sotaques. 

Já nos podíamos ter habituado ao sucesso dos nossos atores lá fora…
Há um certo lado infantil nessa atitude. O País está numa mudança e acredito que o Passaporte tem o seu papel nessa mudança, pois aconteceu no timing perfeito e tudo se congeminou para Portugal ficar no mapa, e nascer a curiosidade de se vir cá espreitar. O mesmo movimento aconteceu em Espanha, há uns anos, quando descobriram Antonio Banderas, Penélope Cruz e, mais tarde, Javier Bardem. Foi nessa altura que comecei a perguntar aos meus colegas internacionais porque não passavam a fronteira. Claro que era só porque não conheciam ninguém que os trouxesse. E prometi que, um dia, havia de o fazer, apregoando-lhes que os nossos atores não tinham sotaque [risos].

Queixa-se de que o Turismo de Portugal não financia este programa de internacionalização. É falta de sensibilidade para o tema?
É lamentável.

É uma ótima forma de promover o País…
Para não entrar em críticas, digo apenas que os interlocutores que tive para passar a ideia, ano após ano, não conseguiram transmiti-la de forma objetiva nem perceber a dimensão do projeto. Ninguém tem bem a noção da quantidade de diretores de casting que vêm antes e que ficam depois do programa e dos que regressam em contexto de férias.

O Passaporte está em risco por falta de financiamento?
Já no ano passado disse que não conseguia mais, embora tenha tido apoio do Ministério da Cultura. A forma de financiamento é através do programa Ad Hoc, do ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual], que obriga a uma espera para ver se o conseguimos ou não. Tudo aquilo atrasou, só em junho soube que tinha financiamento e o dinheiro veio em outubro – entretanto, tive de assumir um enormíssimo risco financeiro. Já tinha feito sete edições e pensei que não queria gastar mais energia daquela forma.

Vai esquecer-se disso e para o ano haverá outra edição…
Não sei. Tudo farei para que aconteça, mas se, de facto, não se reunirem as condições – e isto não é nenhuma espécie de chantagem –, não avanço. Tenho 57 anos e filhos e netos a quem gosto de dar muito apoio.

Fala-se muito da importância das selftapes. Pode explicar do que se trata?
Conforme o nome indica, é uma autogravação de uma determinada cena previamente pedida. Quando começou a utilizar-se nos castings, foi ótimo, porque agilizou o processo – deixámos de passar dias a filmar as pessoas. Mas hoje, isso banalizou-se e agora corre-se o risco de cair no facilitismo. Para mim, nada substitui o casting presencial. No Passaporte, por exemplo, recorremos só a selftapes, mas o júri não está cá.

Como descobre novos talentos?
Cada um tem o seu método, não sei se posso apresentar todos. Já cá ando há 33 anos, mas nem por isso deixarei de aperfeiçoar o meu ofício. Aliás, continuo fascinada por ele. Acontece-me estar num restaurante ou numa peça de teatro e pensar: “Uau, vou estar de olho.” Guardo todos os programas de peças a que vou e, se alguém ficar no meu radar, imprimo logo a fotografia para não me esquecer dessa pessoa. Ainda conservo um arquivo físico, embora já tenha doado grande parte à Cinemateca. Um casting director never stops; tudo nos inspira para uma personagem. Depois, quando estamos a ler um guião, de repente remetemos para essas memórias acumuladas. Estou sempre a trabalhar, como os atores. Tudo o que me rodeia inspira-me, alimenta-me.

Um casting director never stops; tudo nos inspira para uma personagem. Depois, quando estamos a ler um guião, de repente remetemos para essas memórias acumuladas. Tudo o que me rodeia inspira-me, alimenta-me

Sem os outros darem por ela?
Sim, exceto quando a minha filha me diz: “Mãe, por favor, estamos num restaurante. Podes parar?”

Sendo diretora da ACT, Escola de Atores, acredito que considere a formação fundamental.
Varia muito. Já encontrei o ator certo em pessoas que não tinham formação.

E o contrário: é possível aprender a ser ator ainda que não se tenha jeito nenhum?
Nesta profissão, é preciso ter talento. No curso, ao longo de três anos, ensinamos a desenvolvê-lo.

É admissível que, num casting, perguntem a um ator quantos seguidores tem nas redes sociais, como já aconteceu?
Acho absolutamente inacreditável. E nunca ouvi tal coisa; tenho um feitio especial e não respondo por mim se isso acontecer à minha frente. Sou muito exigente para mim e para os outros.

Ainda há discriminação de género nesta profissão?
Também nunca senti ou assisti a episódios que possa dizer que “sim”.

Depois daquele episódio no Teatro São Luiz, sobre a representação “trans fake”, passou a existir mais sensibilidade para o assunto?
É um tema delicado, que merece reflexão, e acredito que tenha mudado algumas atitudes. Mas também acho que a liberdade criativa se deve preservar. Estou com muito cuidado com as palavras e não queria entrar em comparações… 

As séries produzidas pela RTP e pela Opto têm sido uma alavanca para a profissão?
Mesmo assim, não chegam. Às vezes, quando passo em revista o meu arquivo, pergunto-me o que será feito de algumas pessoas. Ainda há muitos que caem no esquecimento, literalmente. A angústia que deve ser não se conseguir continuar a alimentar a profissão.

Há mais público no teatro?
Sou de uma altura em que ia ao teatro e me partia o coração quando se decidia que, perante dois espectadores, não se levava a peça a cena. Depois, passei para outra fase, em que, perante dois espectadores, se decidia atuar na mesma. E, agora, é uma alegria ver as salas cheias, especialmente para mim, que vou ao teatro duas vezes por semana. Alimento-me disso e, mesmo que a peça não seja boa, retiro sempre qualquer coisa de lá.

Já nas salas de cinema, a conversa é outra…
Nem me quero alongar, porque não tenho explicação para essa realidade, apesar de já ter tido imensas discussões sobre o tema.

Foi convidada a integrar a Academia das Artes de Hollywood. O que se faz nesse cargo?
Que honra, que honra. Só se chega lá por convite, como se houvesse olheiros, e é vitalício, a não ser que te portes mal. Foi um reconhecimento direto do meu trabalho. Há uma altura em que me fecho em casa a ver filmes e, depois, voto. Senti-me mesmo honrada por acharem que, algures, o meu votozinho contribui para aquelas decisões. Também me pronuncio sobre a melhor produção internacional, coisa que é opcional, mas a mim interessa-me imenso saber o que se faz pelo mundo.

E a sua carreira musical? Tem estado em standby?
É o meu momento artístico, que foi sendo deixado para trás durante muitos anos. Quando ganhei coragem e percebi que tinha alguns dotes, fui para a escola aprender. Já lancei dois álbuns e muito brevemente sairá o terceiro.

Como consegue tempo para tanto?
Sou muito metódica e organizada. Faço uma coisa de cada vez. Já fui adepta do multitasking, mas agora não. É muito cansativo. Quero viver durante muitos anos, com saúde e boa cabeça. Cuido muito de mim – sou a minha prioridade.

Cuida-se como?
Física e emocionalmente. Faço muito desporto, acupunctura todas as semanas; destino um dia em que não trabalho para estar com a minha neta de ano e meio – ela e o meu neto transformaram-me completamente a vida. Sou uma privilegiada, por aquilo que consegui construir e manter. Faço tudo com muita dedicação e amor, com equipas extraordinárias, em quem adoro delegar. Hoje, sou uma pessoa muito diferente do que era. Tenho uma personalidade muito forte e, sem querer, sou um bocadinho vulcânica e, às vezes, não canalizava a energia da melhor maneira. Por isso, trabalhei sobre a minha pessoa – aprendi a dosear, a ser mais pausada.

E a Mansarda, a casa que quer criar para atores em fim de vida, será ao estilo Casa do Artista?
Será para todas as pessoas ligadas às artes criativas, de escritores a fotógrafos. A Mansarda está de pé, mas não está construída. Já avançou imenso em dez anos (há terreno e projeto). Falta apenas angariar os milhões necessários [risos]. Sou teimosa – no bom sentido – e acho que vou conseguir.

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