Judite Correia acredita que em 2014 deverá abrir a BODIVA – Bolsa da Dívida e de Valores de Angola. Economista e ex-corretora, com nacionalidade portuguesa e angolana, crê que a bolsa irá criar uma espécie de capitalismo popular e está em Luanda para colaborar nesse projeto, além de noutros que estão a dinamizar a economia angolana.
Há quanto tempo está em angola e por que razão decidiu desenvolver aí a sua carreira?
Estou em Angola há oito anos, pois decidi ir para Luanda quando houve a escritura de constituição da bolsa e tudo indicava que iria arrancar no princípio de 2006.
Eu gostaria de participar desde o início nesse processo para poder dar o meu modesto contributo, no qual a minha experiência poderia ser útil, tanto mais que eu era a única corretora de nacionalidade também angolana que tinha sido dona de um lugar na bolsa portuguesa.
Este ano, parece estar de novo eminente a abertura da bolsa em Angola, desta vez para a dívida pública titularizada, a BODIVA -Bolsa da Dívida e de Valores de Angola, que creio que será uma boa maneira de começar a ter o mercado a operar, em termos didáticos, para os vários intervenientes do mesmo e em termos compensadores para os investidores, pois trata-se de ativos sem risco.
É economista, consultora e corretora de bolsa, sendo uma das responsáveis pela golden Brokers em Luanda. Qual considera ser o seu principal desafio?
O principal desafio que tenho em mãos é tentar ajudar ao progresso de Angola, transmitindo os meus conhecimentos e a minha experiência, não só em termos teóricos, mas também práticos, no terreno.
Viver em Luanda também é um desafio. de que gosta mais e menos nessa experiência na cidade?
Adoro viver em Luanda, está numa fase de reconstrução impressionante, sente-se a cidade a crescer, o que é muito motivador. Todo este processo intenso e construtivo e a alegria e frescura de participar na primeira vez que algumas coisas aqui acontecem dá a impressão de estarmos a fazer história, isto a par do clima maravilhoso que permite fazer praia quase o ano todo. Do que menos gosto é do trânsito, que faz perder muito tempo em deslocações, ainda que em percursos por vezes pequenos.
Em que estádio considera que está o desenvolvimento da economia angolana?
Angola é já uma das economias mais dinâmicas de África, e tudo indica que irá reforçar a sua posição. Em 2013, a economia angolana continuou a crescer a um ritmo muito considerável, com a inflação a situar-se num novo mínimo e prosseguindo a estratégia de estabilização económica. Os principais indicadores, nomeadamente a inflação, a taxa de câmbio, o nível das reservas em divisas internacionais e as contas públicas, foram positivos, revelando uma convergência no sentido da estabilização, devido, sobretudo, às políticas monetárias e orçamentais implementadas. Desde 2013 que a trajetória da economia angolana se enquadra também no chamado PND -Plano Nacional de Desenvolvimento, de médio prazo, abrangendo os anos de 2013 a 2017. Neste plano, as grandes opções são no sentido do alargamento da base de crescimento económico e da diversificação da economia, para que seja menos dependente do petróleo, na correção dos principais desequilíbrios, que, apesar dos esforços já feitos, ainda subsistem na economia e na sociedade angolanas, valorizando sobretudo o fator produtivo trabalho, o mais importante de todos.
Os incentivos ao nascimento das micro, pequenas e médias empresas, como o angola Investe, têm sido uma aposta do executivo angolano na qual também esteve envolvida como especialista. de que modo esses programas têm dado frutos para a economia?
Tem havido uma política concertada de incentivos ao empreendedorismo e ao nascimento das micro, pequenas e médias empresas, a par do apoio ao aparecimento de sociedades financeiras não bancárias de microcrédito, que se adequam muito ao caso angolano, o Programa de Apoio ao Pequeno Negócio, o PROAPEN, o Balcão Único do Empreendedor BUE, a reforma fiscal, traduzida no PERT Projeto Executivo para a Reforma Tributária, uma política de substituição de importações, isto para além do programa Angola Investe, que, apesar de ter aprovado projetos de cerca de 200 empresas, ainda tem muitas potencialidades. Tem havido um incremento do setor privado, a par do apoio ao investimento privado de origem angolana, este refletido na Lei n.º 30/11, de 12 de setembro, sobre as micro, pequenas e médias empresas. Nos últimos seis anos, e não obstante a crise económica e financeira internacional, a economia angolana apresentou boas taxas de crescimento e foi o setor não petrolífero que mais contribuiu para este crescimento, o que também é de assinalar na ótica da desejável diversificação da economia. Após a superação da crise internacional, que levou a que o produto crescesse a taxas mais baixas, quer em 2009, com 2,4%, quer em 2010 e 2011, com 3,4%, em 2012 e 2013 as taxas já foram da ordem de 5%, prevendo-se que se mantenham no mesmo nível ou até superiores em 2014, segundo os dados oficiais do MPDT (Ministério do Planeamento e Desenvolvimento Territorial).
Um dos desafios da economia angolana é diversificar, ficando menos dependente do petróleo e apostando na agricultura e na indústria. Como analisa essa evolução?
A evolução no sentido da diversificação da economia angolana para áreas não petrolíferas tem sido notável. O crescimento do PIB em 2013, que foi de 5,1%, foi muito suportado pelo setor não petrolífero, que cresceu 6,5%, contra 2,6% do setor petrolífero. O destaque foi para os setores da energia (22,4%), das pescas e seus derivados (9,8%), da agricultura, da indústria transformadora e da construção. Dentro dos setores de atividade mais promissores em termos económicos, e no âmbito do PRN -Programa de Reconstrução Nacional, destacaria a construção e modernização de infraestruturas, o imobiliário, a distribuição, o material de construção e cimentos, bem como a agroindústria e a alimentação e bebidas, pois Angola tem tudo para ser autossuficiente.
Há dois meses houve mais uma grande descoberta de petróleo em Angola, aliás a maior descoberta de sempre da Sonangol na camada do présal da bacia do rio Kwanza. Apesar da diversificação, o “ouro negro” continuará a ser o símbolo do poder? Angola é já o segundo maior produtor de petróleo da África Subsaariana, a seguir à Nigéria, com uma produção de cerca de dois milhões de barris por dia. O petróleo irá certamente continuar a ser um recurso fundamental de Angola, tanto mais que tem sido estimulado por diversas novas descobertas, e deverão existir mais licenças de exploração nos anos vindouros para o desenvolvimento de novos poços de petróleo.
Como vê o aumento das taxas alfandegárias angolanas? Poderão provocar uma pressão inflacionista?
O aumento das barreiras alfandegárias é um mal necessário para se passar a produzir internamente muitas coisas que são hoje importadas. Poderá haver uma certa pressão inflacionista, mas o controle da inflação foi um dos objetivos de política económica melhor conseguido dos últimos anos, apesar do considerável crescimento económico. Por exemplo, em 2013 foi de 9%, prevendo-se que se mantenha num dígito nos próximos anos, apesar da entrada em vigor da chamada “Nova Pauta Aduaneira” em 1 de Março de 2014.
A economia paralela é rainha em angola. É urgente tornar a economia mais formal?
Tornar a economia mais formal é certamente um objetivo correto, com a criação de novos empregos, nomeadamente através do microcrédito e do combate à economia paralela.
Acredita mesmo que a bolsa de valores será uma realidade ainda em 2014?
Acredito que a bolsa de valores será uma realidade em 2014, pois já foi criada a BODIVA -Bolsa da Dívida e de Valores de Angola e a CEMAVA -Central de Valores Mobiliários de Angola, e a CMC -Comissão do Mercado de Valores Mobiliários está muito ativa.
Ainda no que respeita ao mercado de valores mobiliários, em outubro de 2013 foi aprovado um pacote legislativo da maior importância relativo às bases do mercado regulamentado da dívida pública, ao Regime Jurídico das Sociedades Corretoras e Distribuidoras de Valores Mobiliários, às sociedades gestoras de mercados regulamentados de serviços financeiros sobre valores mobiliários, que integram as sociedades gestoras de câmaras de compensação, as sociedades gestoras de sistemas de liquidação e as sociedades gestoras do sistema centralizado de valores mobiliários, para além do Regime Jurídico das OIC -Organismos de Investimento Coletivo, que integram os fundos de investimento e as sociedades de investimento.
De que forma a criação da bolsa poderá ajudar ao financiamento e desenvolvimento das empresas e também à entrada de mais investidores estrangeiros?
A bolsa vai ajudar muito ao desenvolvimento organizado da economia angolana. Para as empresas, será uma nova fonte de financiamento, alternativa à banca, e para os investidores vai permitir outras aplicações que não sejam só os depósitos a prazo, e criar uma espécie de capitalismo popular.
Como caracteriza a ligação económica de angola com países europeus? E com Portugal, especificamente?
A ligação económica com países europeus não só é cada vez mais intensa como tenderá a aumentar. A ligação económica com Portugal irá prosseguir, pois há laços muito profundos, desde logo a língua e toda uma cultura e um passado histórico que ninguém vai apagar.
No futuro, a relação Portugal-angola tenderá a estreitar-se ou a diluir-se, até pelo aparecimento de novos parceiros ou através do reforço da relação com outros, como a França, a alemanha, etc.?
É natural que com o reforço de laços económicos com outros países o peso relativo de Portugal diminua, o que, a prazo, se verá que não é bom para nenhuma das partes.
Quais são os cinco desafios económicos que angola tem pela frente? E, se tiver de escolher um como o mais difícil de superar, qual será?
Os cinco desafios económicos que Angola tem pela frente, na minha opinião, são: 1 -combate à pobreza, 2 -desenvolvimento harmónico setorial e regional do país, 3 -combate ao desemprego, 4 -combate à economia paralela, 5 -formação e educação do povo, que é o desafio que escolho como o mais difícil, mas é a partir da valorização das pessoas que tudo progride. Se olharmos para o programa do governo, os principais objetivos ali plasmados costumam ser: 1 -aumentar a oferta interna, 2 -diversificar as exportações, 3 -criar emprego, e 4 -diminuir a pobreza, aos quais acrescentaria um quinto, que é a melhoria dos recursos humanos e da produtividade.
Com efeito, apesar de o processo de paz ter criado condições básicas para a normalização da atividade económica, desde a possibilidade de mobilidade interna ao fomento do investimento e da atividade comercial, a carência de infraestruturas físicas e de recursos humanos continua a condicionar a evolução da economia angolana e a melhoria de vida das populações. Mas tudo tem que ser feito por pessoas.
A banca tem tido um forte desenvolvimento em Angola, onde já há mais de 20 instituições. O que falta à banca angolana para ser um verdadeiro braço direito das empresas privadas?
A banca em Angola continua a ser uma das mais lucrativas do mundo, segundo os estudos das principais auditoras internacionais. Recentemente saiu legislação que obriga a um reforço de capitais próprios e à exigência de 50 milhões de dólares para a constituição de novos bancos. O setor bancário é certamente um dos mais sofisticados e dinâmicos de Angola e o que mais progrediu nos últimos anos em termos tecnológicos e informáticos, na melhoria de sistemas, na preparação de técnicos, no desenvolvimento da banca eletrónica, na abertura de multicaixas – ATM, na inovação de produtos, na abertura de balcões e expansão para as 18 províncias do país, etc.
Tem-se assistido também a uma concorrência crescente e a uma melhoria substancial da taxa de bancarização, que ainda é baixa. Note-se que em 2008 era só de 8% e atualmente, apesar de ser mais elevada, ainda tem um longo caminho a percorrer. Também terá de haver uma maior atenção ao chamado “crédito malparado”.
Note-se que até há poucos anos os chamados “ativos sem risco”, os títulos da dívida pública e do banco central pagavam taxas de juro tão altas que a banca preferia emprestar dinheiro ao Estado do que fazer o seu papel tradicional, que é dar crédito ao desenvolvimento da economia. Contudo, ainda é difícil os particulares terem acesso à compra dos títulos da dívida pública, pois os bancos vão aos respetivos leilões e não repassam para o mercado. Esperemos que a entrada em vigor do mercado de capitais e o arranque tão esperado da BODIVA ajudem a melhorar essa situação.
Nos últimos anos, essas taxas, embora elevadas, já baixaram, e esse cenário alterou-se, mas os bancos queixam-se de falta de bons projetos económicos, bem estruturados e com garantias, mesmo no caso do Angola Investe.
Recentemente esteve em Lisboa Chris Alden, professor da London School of Economics e autor do livro China in Africa. Afirmou que os chineses veem Angola como um dos países africanos mais estáveis. Acredita nisso? Poderá deixar de o ser por altura das eleições presidenciais, em 2017?
Concordo com a afirmação de que Angola é um dos países africanos mais estáveis. Por exemplo, o PIB, em 2013, cresceu 5,1%, muito acima da média mundial, que foi de 2,9%, para não falar da Zona Euro, em que este foi mesmo negativo (-0,4%), e foi melhor que o Japão (2%), superior ao dos Estados Unidos (1,6%), em linha com o dos países exportadores de petróleo e da mesma ordem de grandeza das economias emergentes, que foi de 5%.
Note-se que as economias emergentes, que tinham tido tão bons indicadores nos últimos anos, começaram a revelar alguns problemas de capacidade de suporte político, de volatilidade dos preços das chamadas commodities e de abrandamento do crédito à economia. A própria China, a segunda maior potência mundial, começou já a revelar problemas, havendo uma diminuição do investimento e restrições de financiamento a alguns setores da economia, o que também explica que a China esteja mais seletiva.
Como tal, apesar de haver perspetivas positivas para 2014, quer em termos mundiais quer dos países em desenvolvimento e dos africanos, ainda persistem muitos riscos e incertezas e também grandes desafios, e nesse contexto as perspetivas para a economia angolana são das mais positivas.
Quanto à questão se Angola poderá deixar de ser tão estável para os investidores com as eleições presidenciais, em 2017, a três anos de distância e com inúmeros fatores, quer internos quer exógenos, que poderão ter influência no país é difícil responder.
Há sempre uma certa incerteza que antecede a mudança, até na vida das pessoas. Há que não esquecer que existe o partido do poder, o MPLA, que tem tido vitórias esmagadoras nas últimas eleições e que tem uma máquina muito bem organizada.
Chris Alden defende que angola “é uma alternativa às autoproclamadas potências líderes do continente, como a África do Sul e a nigéria”, mas que para que isso se concretize os homens de negócios e os políticos têm de fazer a sua parte, sob pena de “a possibilidade de angola se desenvolver estar limitada pela sua escassez de capital humano”. Concorda? Como tem evoluído essa capacidade de capital humano?
Concordo, e para que isso se concretize todos nós temos que fazer o nosso papel, nomeadamente os agentes económicos e os políticos, sob pena de “a possibilidade de Angola se desenvolver estar limitada pela sua escassez de capital humano”. Esta afirmação poder-se-ia aplicar a muitos países.
Há um grande trabalho a fazer na formação de recursos humanos, e para isso haverá que desenvolver mais as escolas e as universidades que já existem e mesmo criar novas, com muita qualidade e reconhecimento internacional. Isto sem descurar os chamados cursos socioprofissionais, pois não são precisos só bons doutores e engenheiros, mas também eletricistas, canalizadores, etc.
Contudo, devo dizer que, apesar de ter conhecido e trabalhado com profissionais de grande gabarito no mundo inteiro, as pessoas com quem tive a sorte e o privilégio de trabalhar durante estes oito anos em Angola não lhes ficam atrás, quer em termos tecnicoprofissionais quer até humanos, e isto aplica-se quer aos meus chefes quer aos meus colegas e colaboradores. É altamente gratificante e até didático, porque o mercado angolano tem as suas especificidades e é tudo menos fácil. Não é fácil ter um emprego em Angola, não é fácil mantê-lo, e já assisti a casos em que alguns colegas e amigos sofreram problemas de saúde.
Em Angola, além do chamado QI (coeficiente de inteligência), também é muito importante ter o QE (coeficiente emocional). Esse, em geral, tem tido um progresso espantoso e as pessoas estão ávidas desse QE, que é a base de tudo o resto. Além disso, estão ávidas de conhecimentos e conscientes de que ainda há um grande trabalho a fazer.
O mesmo autor defende que seja trazido de fora o know how para fazer crescer o mercado interno e investir nas pessoas. Estará Angola interessada em continuar a receber esse know how vindo de fora, nomeadamente de Portugal? Ou esse movimento acabará em breve?
Concordo com a afirmação de que tenha de ser trazido de fora o know how para fazer crescer o mercado interno e investir nas pessoas, principalmente numa primeira fase, mas cada vez mais se vão preparando os recursos humanos internos para que Angola se vá tornando cada vez mais autossuficiente. É a trajetória natural e desejável para qualquer país, sobretudo se chegou recentemente à independência e à paz.
Creio que Angola está muito interessada em continuar a receber esse know how vindo de fora, nomeadamente de Portugal, que tem a grande vantagem da língua e das afinidades culturais, mas esse movimento tenderá a diminuir gradualmente, à medida que os quadros nacionais se forem preparando.
Mas há sempre atualizações a fazer e inovações a assimilar, sobretudo na área financeira, que é a que melhor conheço, onde será sempre preciso trazer especialistas internacionais a Angola para transmitir esses conhecimentos e para que o país continue a progredir.
Ter um eficaz sistema jurídico, por exemplo para dirimir conflitos entre investidores e empresas, é uma condição para o desenvolvimento de uma economia, seja ela portuguesa ou angolana. De que forma Angola tem evoluído nessa área?
Ter um eficaz sistema jurídico, que garanta a segurança dos negócios e até das pessoas, é de capital importância. Em minha opinião, esse é o principal problema de Portugal: a ineficácia e morosidade do sistema jurídico, que, naturalmente, só protege os infratores e que parece deixar impune certas elites.
Espero que Angola não cometa o mesmo erro, uma vez que está agora a construir todo o sistema desde a base. Faço votos, a bem do país, que o sistema jurídico seja justo e célere e que copie os casos dos países em que este funciona.
“Angola tem de ser inclusiva e reduzir a pobreza”, afirmou, em Luanda, o representante do FMI, Nicholas Staines, em 2012. Como analisa o que mudou de lá para cá nesta matéria?
Era assim em 2012, e em 2014 ainda há um grande caminho a percorrer, havendo pouca informação rigorosa sobre o tema, sendo a taxa de desemprego alta e o número de analfabetos ainda muito elevado. Recentemente, Lula da Silva esteve em Luanda, e o antigo Presidente do Brasil participou num seminário sobre a “Experiência de Angola e do Brasil no Combate à Fome e à Pobreza”, em que afirmou que “Angola é a chave para a erradicação da pobreza no continente africano” e disse continuar a acreditar que é possível acabar com a pobreza no mundo, como diz provar com o exemplo dos seus governos.
Nesse seminário, a ministra do Comércio e coordenadora do Programa Angolano de Luta contra a Pobreza, que começou a trabalhar em 2010, fez um resumo das atividades em curso, destacando que “descentralizámos a comissão, temos unidades técnicas provinciais e comunais para melhorar a qualidade de vida da população, foi feita a descentralização financeira, para que cada município tenha uma verba para levar a cabo os programas de combate à pobreza em todos os municípios” (Jornal de Angola, 9 de Maio de 2014).
Mas faltam escolas e hospitais para ajudar no combate à pobreza e na valorização do ser humano…
A ministra do Comércio e coordenadora desse programa admite que para erradicar a pobreza há que construir mais escolas e mais postos de saúde e recordou os programas de habitação social e de merenda escolar, “que têm um fundo de 480 milhões de kwanzas” para 2014, estando a fazer-se um esforço para que todos os alunos tenham acesso à merenda, porque é uma forma de combater o abandono escolar.
Em Angola acontece um pouco como na Nigéria, uma das nações mais ricas de África, em que os setores que mais se destacam são os de capital intensivo, como o petróleo. Recentemente, a Moody’s classificou Angola com o rating de Ba3, com perspetiva positiva, o que corresponde a “lixo”, na terceira categoria, mas pode ser revista em alta numa próxima avaliação. Todos os estudos indicam que, a médio prazo, o potencial de crescimento da economia angolana continue muito elevado, devido à dimensão geográfica, às potencialidades hídricas, agrícolas e mineiras, à baixa densidade da população e à composição etária da mesma, pois cerca de 60% da população têm menos de 25 anos, ou seja, a pirâmide etária é invertida, ao contrário do que acontece na Europa. Além disso, regista-se um acentuado crescimento demográfico, a par de um esforço de investimento na educação e formação profissionais. Podemos concluir que o potencial de crescimento do capital humano é mesmo o maior de todos em Angola, e, sendo este o maior ativo, também é o maior desafio, porque é uma forma de combater o abandono escolar.
BI
Uma mulher da bolsa
Nome Judite Correia Função
É economista e consultora em Angola
Currículo
Foi professora responsável pela cadeira de Economia Portuguesa no ISEG, até que em janeiro de 1988 se tornou corretora da Bolsa de Valores de Lisboa. Foi ainda acionista da Sofin. Em Angola, foi consultora da CMC -Comissão de Mercado de Capitais (2006-09), foi CEO da Golden Broker (2012-14) e da FACILCRED, ambas do grupo angolano BNI.
Este artigo é parte integrante da edição de julho da Revista EXAME