Henri Cartier-Bresson eternizou o “instante decisivo” para falar do momento em que, como por milagre, numa só imagem, se reúne o controlo perfeito do tempo e do espaço.
No caso desta fotografia, captada na manhã do dia a que Sophia de Mello Breyner Andresen chamou “inicial, inteiro e limpo”, juntou-se-lhe também o sentido da História. Naquele “instante decisivo”, o Regimento de Cavalaria 7 acabara de aderir ao Movimento dos Capitães revoltos. Ainda estavam no Terreiro do Paço, ainda não haviam subido em apoteose até ao Largo do Carmo. Maia Loureiro faz um “v” de vitória com os dedos. Ao seu lado, Salgueiro Maia está comovido, e morde o lábio para não chorar.
Não raras vezes, a História também é feita de mitos. Mas, aqui, foi o próprio Salgueiro Maia – herói de Abril, avesso a protagonismos e a entronizações – que haveria de o confessar, 14 anos mais tarde, em entrevista ao escritor e jornalista Fernando Assis Pacheco (entrevista compilada no livro Retratos Falados). “É que o 25 de Abril venceu-se ali”, explicou. “O brigadeiro grita para o cabo apontador dispara! e o cabo apontador não diz nada. Dispara! E o cabo apontador continua a não disparar. Aqui é que se ganhou o 25 de Abril. Porque o cabo apontador, que não tinha nada em comum connosco, não nos conhecia de lado nenhum, que tinha um brigadeiro – e nessa altura um brigadeiro era também Jesus Cristo – a berrar para ele dispara, dispara!, e ele recusa-se a disparar… Mas a cena mais bela é que o cabo sai da viatura e vem juntar-se a nós. Se há uma
insubordinação, uma sublevação, essa sublevação e essa destruição de uma estrutura é o cabo que as faz.”
Eduardo Gageiro tinha 39 anos e uma Canon nas mãos. Nesse dia e nos seguintes, Gageiro gastou “20 e tal rolos” (“não tinha mais”). Salgueiro Maia comprava todas as semanas O Século Ilustrado e, nessa madrugada, ainda antes do “instante decisivo”, reconheceu o fotógrafo e puxou-o para fixar o lado certo da História.