Alexei Anatolievich Navalny nasceu a 4 Junho de 1976; morreu a 16 Fevereiro de 2024. Era o mais famoso ativista anticorrupção da Rússia. Orador carismático, foi durante anos o principal crítico e opositor de Vladimir Putin e do seu instrumento político, o partido Rússia Unida, que denunciou como o partido dos “escroques e ladrões”.
Navalny começou no partido liberal Yabloko, guinou para uma linha mais nacionalista, fundando movimentos sociais em defesa dos direitos dos russos. Fez diatribes discriminatórias de etnias minoritárias e procurou restringir movimentos migratórios da Ásia Central e do Cáucaso.
Em 2014, Navalny foi apoiante da ocupação da Crimeia. Tal como Putin, achava que a Ucrânia era uma “construção artificial”. Mas acabou a condenar a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, e apelou aos russos para que vencessem o medo e fossem para as ruas pedir o fim da guerra, enquanto denunciava Putin como um “czar obviamente insano”. Suportou repetidos processos judiciais, prisões, eleições falhadas por fraude e outros obstáculos. Suportou múltiplos assaltos contra a sua integridade física, como o de um spray que o deixou parcialmente cego em 2017. E o envenenamento com o agente químico Novichok em 2020, do qual milagrosamente conseguiu recuperar, tendo então sido transferido para Berlim, a pedido da família.
Mas todos estes ataques e perseguições nunca fizeram Navalny deixar de investigar e revelar os escândalos financeiros da oligarquia sustentada, e sustentadora, do poder de Putin.
A repressão feroz também nunca conseguiu impedi-lo de atrair multidões de apoiantes entusiastas. Calculando que o apoio popular esmoreceria se Navalny ficasse no exílio, a clique de Putin fez tudo para que ele não voltasse de Berlim, incluindo ameaçando-o de prisão se regressasse à Rússia. Mas Navalny, que deixou um livro de memórias intitulado Patriota, decidiu regressar, mesmo contra o conselho da família e dos amigos. E por isso a sua eliminação estava anunciada: quando regressou, foi logo preso no aeroporto, em Janeiro de 2021.
A sua Fundação Contra a Corrupção na mesma altura divulgou internacionalmente um filme de investigação expondo a rede de oligarcas e corruptos instrumentais para construir uma mansão multimilionária para Putin nas costas do Mar Negro.
No final de 2023, Navalny foi transferido para uma remota colónia penal no Ártico. Aí morreria, de colapso, por um alegado “súbito síndroma letal”, segundo as autoridades prisionais.
A Fundação contra a Corrupção (FBK em russo), que Navalny fundou, continua a trabalhar. A sua mulher, Yulia, de quem teve uma filha e um filho, vive no exílio, onde prossegue a campanha para livrar a Rússia de Putin.
A morte de Navalny, na prisão, aos 47 anos, tem a marca da tragédia russa, como as que perpassam nos magistrais romances Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e Guerra e Paz, de Lev Tolstói. Uma tragédia feita de intrepidez e implacável sofrimento, que não suscita apenas piedade: suscita horror perante a agonia do espírito humano numa ordem social e política avessa à justiça e à liberdade.
* Ana Gomes
Ana Gomes é uma jurista, antiga diplomata e política. Foi chefe da missão diplomática portuguesa na Indonésia durante o processo de independência de Timor-Leste. Ex-eurodeputada (2004-2019)
Foi candidata às presidenciais de 2021.
