Filha de um engenheiro e de uma professora universitária, Marta é a segunda de quatro irmãos e todos acabaram por exercer profissões na área da saúde. Não parece ser o caso dos dois filhos da sexóloga, maiores de idade e que aspiram a enveredar pelo direito e jornalismo.
Os portugueses conhecem-na por ser pioneira a dar a cara pelos temas de sexualidade em programas televisivos, mas também por ser uma mulher de convicções e que cultiva um estilo discreto mas direto e compreensível para todos. Depois de sair da Clínica do Homem e da Mulher, “que foi integrada na clinica São João de Deus e acabou por ser aniquilada pela falta de competência dos responsáveis”, a psicóloga e sexóloga continua a exercer a prática clínica no Espaço Integra, em Lisboa. Continua a escrever, a fazer palestras e a lançar projetos como o Sex & Museum. (SAIBA MAIS AQUI)
O que mudou em dez anos, na vida sexual dos portugueses? Se hoje se encaram temas como a diversidade sexual ou a pornografia de forma mais desempoeirada, o mesmo não se verifica no capítulo da intimidade, onde parece reinar a confusão e, mesmo, algum retrocesso, como sucede, de resto, nos processos de transição. Oiçamo-la.
Correr riscos e o apelo por causas está-lhe no sangue?
Faço o que gosto e o lado artístico pesou sempre nas minhas escolhas. Queria ser pianista, mas não gostava de escalas nem de arpejo. Depois quis ser pintora, fui para a António Arroio. Fiz ainda carreira como atriz, durante alguns anos, e fui casada com um ator e encenador (de quem preserva o apelido Crawford). Quando terminei o curso de psicologia, não havia ainda internet, passei de um tema chato, a alexitimia (incapacidade de identificar e expressar emoções) para outro que me chamou a atenção no estágio da consulta de sexologia, no Hospital Júlio de Matos: a transsexualidade.
Que memórias guarda de infância? Não foi toda passada em Lisboa.
Vivi também nos Estados Unidos, quando a minha mãe estava a fazer o doutoramento. Passei parte da infância no Texas, em Austin, entre os quatro e os seis anos, lembro-me de fazer muito calor, do condomínio com piscina, do içar da bandeira americana e cantar o hino, dos bolos que se faziam na escola, eu e a minha irmã mais nova morenas no meio de muitos lourinhos, com calças à boca-de-sino, o pai barbudo e a mãe com vestidos de flores com o estilo freak mas académico dos anos sessenta… ah, e as viagens ao Grand Canyon, à Disney, e os cheiros! Há cheiros que associo à infância lá, que têm a ver com papelarias, borrachas, livros, ainda tenho essa paixão!
Quando, há dez anos, começou a falar de sexo na TV, não temeu ser ‘queimada’ na praça pública?
Foi um risco que assumi ao dar a cara para este e os outros programas. Houve muita gente que me disse “Vê lá onde é que te vais meter”. Achei que era capaz e avancei. O feedback foi positivo e o meio académico acabou por aceitar também este registo mais direto e compreensível.
O que a tem afastado dos ecrãs?
Sempre me identifiquei muito com o trabalho clínico e é esse que continuo a fazer, além de palestras, conferências, formação. Eu não sofro por estar sem um programa de televisão. É um meio que vive do que vende e tem audiências. O AB Sexo teve audiências e terminou, podia ter continuado.
Estamos a assistir a um retrocesso das mentalidades?
As pessoas estão confusas, não sabem o que querem. Vêm ao consultório porque ouviram alguém dizer ou leram numa revista algo que não tem a ver com a história delas e pensam que têm um problema. O que importa já não é o ‘eu e tu’, é o ‘eu, tu, as bolas chinesas, os vibradores, o vizinho do lado, o swing, as palmadinhas’, entrámos por aí. Deixou de haver a essência, o ter de se saber quem se é.
O que mudou no atendimento dos casais?
Já trazem o diagnóstico feito pela internet. ‘Eu tenho isto’, muitas vezes erradamente. Há muita falta de desejo e procuram ajuda porque um vive bem com isso e o outro não. O trabalho passa por encontrar um entendimento sem escravizar um nem maltratar o outro.
E agora com as pilulas masculinas, os homens já não ficam confinados à ‘reforma’, por assim dizer.
Foi uma revolução. Até há pouco tempo a disfunção erétil deles e a insatisfação sexual delas libertava ambos do sexo. Agora eles recuperaram a potência sexual artificial, exigem voltar ao ativo mesmo se elas nunca tiveram prazer. Continua-se a encarar o falo e a penetração como essência da sexualidade, que impede as mulheres de terem prazer. Por isso as t-shirts que temos para o Sex& Museum têm frases como “o mais importante é o homem por trás do pénis” ou “o clítoris não é só um botão”.
Ainda estamos nesse registo tão básico, na cultura do conhecimento e da internet?
Noto isso todos os dias nas consultas. Falam e dizem coisas acertadas, mas na cama a história repete-se, sem que consigam falar sobre isso. A internet é outra história. Falta criatividade ao casal, trabalha-se muito, cada um fica na cama a mexer nos telemóveis, a alimentar os seus narcisismos. Eu chego a dizer, ‘se querem mesmo estar um com o outro, o melhor é desligarem-se das redes sociais’, como na mensagem da campanha recente de uma marca de preservativos.
O culto da imagem, do imediatismo, trouxe novos problemas à intimidade?
Continua a haver muita falta de segurança nas relações, ligada à ansiedade, pela associação de ter de ser rápido, pelo medo de ser avaliado, pela desconfiança. Nas mulheres é o vaginismo, nos homens é a ejaculação prematura. Em ambos, a falta de desejo. Há ainda questões acerca do formato do pénis, da ideia de certo tipo de corpo para ser apetecível e ter sucesso e o tema da orientação sexual.
Porque se recusou sempre a comentar o fenómeno As cinquenta Sombras de Grey?
Foi uma estratégia de marketing, comecei a ler e estava mal escrito, sem interesse. Respondi aos pedidos que me fizeram na altura com um “quando tiverem alguma coisa de jeito para me perguntar avisem”. Há muita gente que acha esta conversa pobrezinha.
No ‘supermercado‘ do sexo, o amor romântico morreu? A ‘cara-metade’ já não existe?
Os que ainda não têm uma experiência significativa neste campo aspiram a uma relação fantasiosa e preenchida. Outras, abalroadas pela tendência do one night stand ou que acumularam experiências negativas, adotam mais facilmente a posição do ‘não quero mais do que isto’, compromissos, ‘só se valer a pena’. Um erro de casting comum nas relações é fazer algo em função de crenças como “tem de funcionar desta forma”, “tenho de saber fazer isto e aquilo”, sabendo que nada disso trará prazer.
Ainda se procuram receitas?
Pergunta-se muitas vezes “o que é que é para fazer?”. Isso não vai resultar, é zero. Questiono os casais sobre o grau de empenho na terapia. Se é só para se encontrarem um dia antes da consulta quinzenal para obter 20% de resultados (em três meses), mais vale nem começar. Digo: “Não façam terapia agora, mais vale gastarem a massa num bom restaurante, porque aí ficam com a barriga cheia e felizes!”
O que é preciso para atingir a felicidade sexual?
Há que voltar a olhar para si e ver o que pode fazer com o que tem. O grande trabalho a fazer é questionarmo-nos sobre o que de facto queremos. Quando se aprende o sexo como se se tratasse de geografia, ou a contraceção como um esqueleto do museu da história natural, coisas distantes de nós. Falta-nos usufruir do prato, sem estar sempre com o foco na sobremesa.
A nossa população está a envelhecer e raramente se fala da sexualidade sénior. O que se passa?
Um dos últimos programas que fiz no 100 Tabus realizou-se num lar e foi um dos mais bonitos. Têm a compreensão de quem já viveu muito, já fez o que os outros querem, prescindindo da sua vontade em função do outro. Já foram enganados, passaram pelo melhor e pior, emocionalmente. Veem tudo isto com outra serenidade, uns com parceiros, outros sem, mais solitários, com problemas financeiros, de mobilidade, mas mantinham a vivacidade, pela ligação à internet, e cultivavam a sexualidade espiritual.
Nunca se pensa que vai chegar a nós esse dia pois não? Até nós as duas, que passámos dos 40…
Lembro-me de uma palestra que fiz na segurança social, sobre envelhecimento. Comecei assim: “Quando chegar aos 80 anos, vou poder continuar a fazer sexo” e a minha palestra foi sobre os meus avós. Como eu imaginava o meu avô a cair sobre a minha avó que nem um trator e a barraca final foi que no fim uma pessoa veio ter comigo e disse que conhecia os meus avós e eu fiquei… (risos) “Pois, era uma alegoria”. Nós vamos ser todos velhos. Na meia-idade achamos que somos infalíveis mas sabemos que há perdas a gerir, de saúde até, mas muito ainda para viver e com outra visão, mais rica.
BI
46 anos. Psicóloga clínica e terapeuta sexual. Integrou a direção da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar entre 2011 e 2015. Foi docente no Instituto Piaget e na Universidade Lusófona. Exerceu funções na linha SOS Dificuldades Sexuais e na consulta de Sexologia do Hospital Júlio de Matos. Apresentou três programas televisivos – AB Sexo, Aqui Há Sexo (ambos na TVI) e 100 TABUS (SIC MULHER) – e publicou três livros – Sexo sem Tabus (2006), Viver o Sexo com Prazer – Guia da Sexualidade Feminina (2008) e o Diário Sexual e Conjugal de um Casal (2011). Em Março de 2016 vai lançar o Sex& Museum.