Sem afirmações categóricas ou definitivas, mas o cenário está traçado: os especialistas com que Presidente da República, presidente da Assembleia da República, Governo e partidos da oposição se reuniram esta terça-feira de manhã admitiram que alguns condicionalismos à vida dos portugueses podem prolongar-se até um ano. Segundo contaram à VISÃO fontes que participaram na sessão, que decorreu nas instalações do Infarmed, os técnicos sugeriram que algumas limitações ao quotidiano das famílias e das empresas poderão ser necessárias para conter novas fases de infeções com o coronavírus.
Após o encontro em que participaram especialistas do Infarmed, da Direção-Geral da Saúde (incluindo a própria Graça Freitas), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e, além destes, os parceiros sociais, a conclusão era quase unânime: os especialistas estão alerta e acreditam que haverá novos surtos de covid-19, em especial no final do ano. Vacina para o coronavírus, ficou também claro, nunca chegará antes de 2021.
Ora, igualmente consensual foi a ideia de que mesmo que haja, nas próximas semanas, uma evolução positiva na luta contra a pandemia, o mais provável é que os portugueses tenham de abdicar, para já, de deslocações e viagens, mesmo dentro do País, no próximo verão. As férias, tal e qual estamos habituados, são para esquecer e, nesta matéria, dificilmente haverá milagres.
Na reunião também se refletiu sobre o que poderia acontecer se, de repente, fosse retirada a pressão sobre a tão falada “mola”. Os técnicos admitiram que, num quadro mais favorável, poderá ocorrer uma “libertação” gradual das medidas de confinamento, ainda que sob vigilância muito apertada. Nesse caso, as localidades com baixa densidade populacional poderiam ser as primeiras a ter alguma liberdade de movimentos, ficando as grandes cidades para uma fase muito adiantada deste processo por existirem maiores riscos de contágio.
Outra solução poderia passar por dar alguma folga a núcleos populacionais menos condicionados pelo contágio, sobretudo jovens, mas todas estas decisões dificilmente poderão ser tomadas antes do final de abril, mantendo-se a atual evolução. De resto, a discussão foi maioritariamente técnica – com questões e esclarecimentos pedidos pelos decisores políticos e representantes dos parceiros sociais.
A questão do prolongamento da permanência em casa foi também levantada por vários participantes, Marcelo Rebelo de Sousa incluído. O Chefe do Estado receia o desgaste psicológico que o isolamento pode provocar e teme as suas consequências na saúde mental dos cidadãos. No entanto, ao que a VISÃO apurou, faltaram respostas concretas sobre este ponto.
No final da sessão, também não sobraram dúvidas sobre a renovação, pelo menos por mais 15 dias, do estado de emergência – hipótese que António Costa já tinha admitido na segunda-feira, em entrevista à TVI. Uma certeza absoluta saída da reunião e que só não foi já anunciada para não queimar etapas e gerar novos focos de instabilidade e angústia nas famílias. Continua a existir bastante desconhecimento sobre a evolução da pandemia, mas o condicionamento do quotidiano será, com toda a certeza, “bastante duradouro”. Na prática, um segundo decreto de Belém deverá vigorar, no mínimo, até 17 de abril.