O principal aeroporto de Makhachkala, capital do Daguestão, região no sul da Rússia constituída por uma população maioritariamente muçulmana, foi invadido no passado domingo à noite, dia 29, por centenas de homens que ali se dirigiram para perseguir os passageiros de um voo proveniente de Telavive, em Israel.
Os homens começaram por permanecer no exterior do aeroporto a verificar os passaportes dos passageiros, à procura de cidadãos israelitas, e, mais tarde, forçaram as portas do terminal, segundo vídeos disseminados pelo Telegram (a plataforma de mensagens encriptadas) e pelas redes sociais, percorrendo os corredores, derrubando barreiras e arrombando salas sob o cântico “Allah Akbar” (Alá é grande), alguns deles com bandeiras palestinianas. Outros vídeos mostram a multidão já na pista do aeroporto, a tentar entrar à força no avião da companhia aérea russa Red Wings que tinha acabado de chegar de Telavive, Israel, e ali fazia escala, antes de prosseguir para Moscovo.
Segundo o Ministério da Saúde do Daguestão, 10 vítimas, entre as quais dois polícias, foram hospitalizadas (duas com ferimentos graves), e outras 10 receberam tratamento ambulatório. Não há registo de judeus feridos. Os passageiros do avião estão “num local seguro”, garantiram as forças de segurança à Reuters.
A Guarda Nacional Russa e outras forças de segurança foram enviadas para controlar a situação. De acordo com o ministério do Interior russo, 59 pessoas foram detidas e foram abertos processos criminais contra elas, enquanto 150 foram identificadas. Estão ainda em curso operações de busca para identificar outros agressores. Segundo o Sota, cerca de mil pessoas participaram nos tumultos do aeroporto de Makhachkala
Todos os voos foram suspensos. Cerca de 50 polícias continuam a vigiar o aeroporto, que deverá ser reaberto nesta terça, 31, segundo a Agência Federal de Transporte Aéreo. “O governo da República do Daguestão informa que a situação está sob controlo, as autoridades policiais estão a trabalhar no local”, comunicou o governador, Sergey Melikov, através do Telegram. Acusou ainda os canais ucranianos no Telegram pela organização dos distúrbios. Pela plataforma terão sido difundidos boatos, em grupos de utilizadores do Daguestão, onde se lia a informação falsa de que a região ia começar a receber refugiados judeus do conflito no Médio Oriente.
O conflito israelo-palestiniano tem alimentado os sentimentos antissemitas na Rússia. Em Khasavyurt, outra cidade do Daguestão, moradores invadiram um hotel, tentando encontrar e expulsar judeus. De acordo com o meio de comunicação social russo independente Sota, cerca de uma centena de famílias pertencente à comunidade judaica considerou a situação na região muito difícil e não descartou a necessidade de evacuar a população judaica. Também no domingo foi incendiado um centro judaico na cidade de Nalchik, na região meridional de Kabardino-Balkaria, segundo informação avançada pela agência RIA Novosti.
“Israel espera que as autoridades russas protejam todos os cidadãos israelitas e todos os judeus, e atuem de forma decisiva contra os manifestantes e contra o incitamento à violência”, disse o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, através de comunicado.
A comissária russa para os Direitos Humanos, Tatiana Moskalkova, afirmou que “os acontecimentos no aeroporto têm claramente por objetivo incitar ao ódio étnico e podem conduzir a graves violações dos direitos humanos”, afetando a paz civil na Rússia, e exortou os cidadãos do Daguestão “a não sucumbirem às provocações e a seguirem rigorosamente a lei e os apelos das autoridades”.
Já a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Adrienne Watson, afirmou, na rede social X, que “os Estados Unidos condenam vigorosamente os protestos anti-semitas no Daguestão, na Rússia” e “apoiam inequivocamente toda a comunidade judaica enquanto testemunhamos um aumento mundial do anti-semitismo”. ”. Quanto ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, escreveu na mesma rede que “este não é um incidente isolado em Makhachkala, mas sim parte da cultura generalizada de ódio da Rússia contra outras nações, que é propagada pela televisão estatal, especialistas e autoridades”.
Nova vaga de pogroms?
Nas redes sociais, há quem já se refira a estes incidentes como pogroms, termo usado para denominar atos em massa de violência, espontânea ou premeditada, contra um grupo étnico ou religioso. Comuns na Rússia nos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, levaram à emigração massiva da comunidade judaica deste território.
Segundo a Enciclopédia do Holocausto, da responsabilidade do Museu e Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, “a palavra pogrom tornou-se de uso comum durante as grandes revoltas antissemitas que aconteceram na Ucrânia e no sul da Rússia, entre 1881 e 1884, após o assassinato do Czar Alexandre II. Durante o período do nazismo na Alemanha e no leste europeu, assim como havia acontecido na Rússia Czarista, os ressentimentos económicos, sociais, e políticos contra os judeus alimentavam os pogroms, reforçando o já tradicional antissemitismo religioso.” Organizados pelas comunidades locais, contavam com a tolerância e o encorajamento do governo e da polícia, que fechavam os olhos às agressões, mortes, vandalismo e roubo das vítimas.
Desde o ataque do Hamas de 7 de outubro a Israel – que muitos descreveram como um pogrom –, e com o agudizar do conflito na Faixa de Gaza, as fábricas de propaganda estão a trabalhar a um ritmo sem precedentes para produzir publicações inflamadas e alimentar ainda mais os ódios. Os incidentes antissemitas aumentaram um pouco por toda a Europa e crescem os receios das comunidades judaicas – sobretudo, em França, onde há uma grande população muçulmana – em relação a novas manifestações de violência.
“É um triste facto… sempre que surge um conflito entre Israel e os palestinianos, os judeus em todas as partes do mundo sofrem algum nível de violência e de ódio”, disse Heidi Beirich, cofundadora do Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, ao Voice of América. Neste caso, a invasão do aeroporto de Makhachkala foi mais uma demonstração de como a instrumentalização da população civil pode conduzir a brutais consequências, se não for travada.