Onde é que nós já vimos este filme? Ah, e tal, “somos candidatos” e “favoritos” e, depois vai-se a ver, e pimba! Empate com o Congo. Calma! Nada que inviabilize, desde já, uma boa campanha neste Mundial, mas que acaba por chegar como um sinal de alerta que, se for escutado por quem de direito, pode servir para recolocar uma seleção recheada de talento no caminho do sucesso. Uma seleção que não merece estar obrigada a cumprir apenas os desejos de recordes de um só dos seus craques, mesmo que seja o alegado “melhor do mundo”. Uma geração com qualidade de sobra para não ficar refém de estratégias calculistas de quem se contenta com um golo cedo e não procura resolver o jogo quando tem essa oportunidade. A ver vamos que lições tira Martinez desta estreia falhada.
As escolhas de Roberto Martinez para esta estreia da Seleção Nacional não surpreenderam. À exceção da dúvida quanto ao defesa-central que iria ser escolhido para o lugar do lesionado Rúben Dias, o onze de Portugal era aquele que a esmagadora maioria dos observadores esperavam que o selecionador fosse escolher. Sabia-se de antemão, que fora qualquer calamidade, Diogo Costa e Cristiano Ronaldo seria titulares. O primeiro porque é um dos melhores guarda-redes do mundo e o mais capaz de Portugal na atualidade e o outro porque parece ter lugar cativo enquanto quiser e enquanto representar, em número de seguidores nas redes sociais, tanto como os países mais populosos do mundo. Os admiradores não jogam, mas o dinheiro que fazem girar em torno de quem manda no negócio do futebol fazem de Ronaldo um “indispensável” para quem tiver a tarefa de treinar Portugal, seja ele quem for. No resto, Martinez volta a apostar em valores seguros. Cancelo e Nuno Mendes nas faixas laterais da defesa, Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes na zona intermédia e uma dupla de centrais inédita, mas que, hoje, era a que dava mais garantias. Na ausência de Rúben Dias, Tomás Araújo era o central destro que sobrava no lote de convocados e, no lado esquerdo do eixo, a compleição física e o momento de forma recomendavam mais Renato Veiga do que Gonçalo Inácio. Lá na frente, nas faixas laterais, escolha recaiu em Bernardo Silva, pela direita, e Pedro Neto, pela esquerda. Podiam ter entrado também João Félix, Trincão ou Rafael Leão, mas as escolhas do selecionador foram as mais óbvias, tendo em conta a opções que tem tomado no passado em jogos oficiais.
O início da partida começou por dar indicações positivas. A trocar rapidamente a bola, Portugal aproveitou a postura mais defensiva do Congo para controlar o os ritmos do jogo logo desde o primeiro minuto. Com Vitinha, João Neves e Bernardo Silva a comandar as habituais operações de circulação de bola, Portugal cedo encontrou o caminho do golo, aos seis minutos, com João Neves a surgir de trás e a corresponder com um cabeceamento perfeito, após cruzamento de Pedro Neto. Quando se esperava que a equipa nacional aproveitasse a desorientação da seleção africana, os jogadores de Portugal baixaram o ritmo e cedo se percebeu que, assim, o Congo conseguia levar o jogo para o meio-campo contrário, chegando mesmo a rematar duas vezes à baliza de Diogo Costa.
Depois da paragem para hidratação, Portugal regressou mais acutilante, mas as tentativas de explorar as costas da defesa congolesa, que subiu no terreno, nunca resultaram, porque Nuno Mendes, Neto, Cancelo e Bernardo já lá chegavam sempre em esforço e porque, para correrias já não dá para contar com o ponta-de-lança de Portugal, CR7. O resultado de quase 30 minutos de domínio, de posse de bola, mas sem ataque à baliza foi o mesmo que a equipa portuguesa já devia conhecer: quando já todos esperavam pela ida para o intervalo, na sequência de um canto, o Congo chegou ao empate, num lance em que Wissa conseguiu cabecear sem oposição em plena área de Portugal, com Tomás Araújo, Renato Veiga e Bernardo Silva a ver jogar.
Mais do mesmo
Para o segundo tempo, Martinez fez entrar Francisco Conceição para o lugar de Bernardo Silva, que já tinha visto um amarelo e quase não se tinha deixado ver nos primeiros 45 minutos. Portugal continuou a controlar a posse de bola, mas raramente conseguindo entrar com perigo na área do Congo. Conseguiu aos 55 minutos uma boa jogada de envolvência em que João Neves e Cancelo voltaram a aparecer de trás, mas o golo do lateral foi invalidado por fora-de jogo. Sem rasgo nem velocidade, aos 69’ lá surgiu, enfim, uma entrada do “espalha brazas” Conceição pela direita, mas o passe que ia direitinho para Bruno Fernandes, foi desviado por um remate sem nexo de Cristiano Ronaldo, algo que se repetiu aos 73’, quando Martinez já tinha feito sair Pedro Neto e Nuno Mendes para a entrada de Rafael Leão e Nélson Semedo. Nem um nem outro mexeram com o jogo, tal como aconteceu com Gonçalo Ramos, que entrou aos 83’ para o posto de Vitinha. O jogo acabou por se arrastar até aos 95 minutos, sem que Portugal conseguisse desmanchar a bem montada defensiva do Congo, que assim garantiu um empate com o qual não estaria à espera. Já para os portugueses, mesmo aqueles que, nos últimos dias, diziam que “Vai dar Portugal”, já viram este filme.