Há frases que ficam. Não porque façam sentido, mas porque doem. Porque se colam à pele e regressam nos momentos mais inesperados, como um eco difícil de silenciar. Há palavras que são casa. E há outras que ferem profundamente, silenciosamente, de forma duradoura. Para quem vive com endometriose, muitas vezes a dor não vem apenas da doença, mas também de quem deveria escutá-la, compreendê-la e cuidar. Ainda assim, é justo dizer que felizmente a exceção não faz a regra e temos profissionais de saúde fantásticos que se regem pelo profissionalismo, sem nunca esquecer a empatia.
Contudo, ainda nos chegam relatos profundamente chocantes que nos obrigam a parar e a refletir que esta é uma realidade que não pode ser varrida para debaixo do tapete. Esta é uma realidade que precisa ser debatida e combatida. Dizer a uma mulher “você tem endometriose mas não se preocupe porque nunca ninguém morreu disso” não é tranquilizar. É desvalorizar. É reduzir uma doença complexa, incapacitante e tantas vezes invisível a algo irrelevante. Como se a medida da gravidade fosse apenas a morte, ignorando anos de dor crónica, infertilidade, cirurgias, exaustão física e emocional.
Afirmar que “a sua dor é psicológica porque não se vê nada nos exames” é perpetuar um dos maiores erros na medicina: confundir invisibilidade com inexistência. Nem toda a dor se revela em imagens. Mas toda a dor merece ser valorizada. A dor é uma experiência complexa, influenciada por fatores biológicos, neurológicos, emocionais e sociais, e não pode ser descartada simplesmente porque não deixa marcas visíveis num exame. Ao fazê-lo, corre-se o risco de atrasar diagnósticos, comprometer tratamentos adequados e, sobretudo, fragilizar a relação de confiança entre médico e paciente, que deveria assentar na escuta, no respeito e na validação daquilo que o outro sente.
Perguntar “tem amigos? é feliz?” antes de sugerir um psicólogo não é cuidado, é suspeita disfarçada de empatia. Sob a aparência de interesse, instala-se uma dúvida silenciosa sobre a legitimidade da dor, como se o problema estivesse na forma como a pessoa vive ou sente, e não naquilo que o seu corpo manifesta. É insinuar, de forma subtil mas profunda, que a origem do sofrimento reside na fragilidade individual, desviando o foco da investigação clínica para uma leitura quase moral da experiência da doente. É empurrar a responsabilidade para quem já carrega peso a mais.
E dizer, num processo de fertilidade, que transferir embriões “é o mesmo que atirá-los ao lixo” ultrapassa qualquer limite de ética, humanidade e respeito. Não é uma metáfora inocente nem uma forma legítima de esclarecimento. É uma violência verbal que ignora a carga emocional, física e simbólica que acompanha cada etapa desse percurso. Para quem está a atravessar tratamentos de fertilidade, cada embrião representa esperança, investimento, vulnerabilidade e, muitas vezes, um longo caminho de perdas silenciosas. Palavras assim não informam, destroem. Não orientam, ferem. Em vez de promover compreensão, instalam culpa. Em vez de oferecer suporte, criam distância. Há formas de explicar probabilidades, riscos e limitações sem recorrer a imagens agressivas ou desumanizantes. Há maneiras de ser honesto sem ser cruel.
Os profissionais de saúde não lidam apenas com diagnósticos. Lidam com pessoas. Pessoas que chegam vulneráveis, muitas vezes desacreditadas, cansadas de não serem ouvidas. Uma frase pode aliviar ou agravar, pode validar ou silenciar, pode aproximar ou afastar. E, quando a linguagem falha no respeito e na empatia, o cuidado fica incompleto, por mais correto que seja do ponto de vista clínico.
É urgente reconhecer e transformar esta realidade que ainda persiste nos nossos dias. Humanizar a medicina não é um detalhe nem um ideal abstrato, é uma necessidade concreta. Porque cuidar verdadeiramente implica mais do que tratar a doença, implica reconhecer, escutar e respeitar quem a vive.
A endometriose já rouba demasiado. A comunicação nunca deveria ser mais uma forma de sofrimento. É possível dizer a verdade sem ser cruel. É possível admitir dúvidas sem invalidar. É possível não saber e ainda assim acolher. Março foi o mês de sensibilização para a patologia, mas esta realidade é apenas mais uma prova de que esta temática não se esgota num único mês. Exige escuta contínua, informação consistente e, acima de tudo, respeito diário por quem vive com ela.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.