Brigitte Bardot morreu hoje, aos 91 anos. Bardot não foi apenas uma actriz, nem sequer apenas uma estrela de cinema: foi um terramoto cultural, um corpo político antes de o corpo ser política, um escândalo permanente num país que aprendeu com ela a confundir desejo com liberdade e a verdade é que nunca mais voltou atrás.
Há títulos que parecem profecias escritas a posteriori: E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim criou Brigitte Bardot, mais deu-lhe um nome mítico, um enquadramento e uma eternidade. A partir daí, o cinema francês deixou de fingir pudor, a moral burguesa começou a gaguejar, e o mundo percebeu que havia uma mulher que não representava a liberdade sexual: encarnava-a. E isso assustou meio mundo.
Nascida em Paris, em 1934, educada na disciplina do ballet clássico e empurrada para o cinema quase por acaso, Bardot chegou cedo ao ecrã, mas explodiu depressa. Em poucos anos passou de promessa a fenómeno, de actriz a ícone absoluto. Em A Verdade, de Henri-Georges Clouzot levou o julgamento moral da sociedade para dentro do tribunal e para fora da sala de cinema. Em O Desprezo, de Godard, foi ao mesmo tempo corpo mitológico e abstracção moderna, mulher amada e objecto de análise, estrela popular num filme que fingia desprezar estrelas.
Mas Bardot nunca coube inteira no cinema. Cantou — La Madrague, Harley-Davidson, Je t’aime moi non plus com e de Serge Gainsbourg — como quem prolonga no som aquilo que já incendiara com a imagem. Vestiu biquínis antes de eles serem aceites, descalçou-se quando o glamour ainda exigia saltos, e transformou Saint-Tropez numa ideia antes de ser um destino turístico. Bardot foi moda, foi escândalo, foi manchete, foi poster de quarto adolescente e pesadelo de pais conservadores.
Depois, num gesto tão radical quanto a sua ascensão, saiu de cena. Abandonou o cinema cedo, aos 39 anos, quando ainda podia ser tudo. Trocar a ribalta pela militância foi a sua última provocação. Lutou pelos animais com a mesma fúria com que antes vivera o desejo — sem diplomacia, sem paciência para o politicamente correcto, sem medo de se tornar incómoda. Criou a Fundação Brigitte Bardot, enfrentou governos, incomodou causas “certinhas” e, sim, disse muitas coisas que lhe custaram o carinho de parte do público. Bardot nunca soube — nem quis — ser consensual.
Hoje morre Brigitte Bardot. Mas o mito — esse — continua de olhos abertos. Continua em cada plano onde o cinema descobriu que o corpo feminino podia ser sujeito e não apenas objecto. Continua em cada mulher que escolheu viver fora do guião. Continua no incómodo que provoca, mesmo depois do último suspiro. Deus criou Bardot. O cinema eternizou-a. E a história — essa criatura ingrata — continuará a discuti-la. Aliás, como BB gostaria.
Talvez por isso continue a ser tão francesa: contraditória, feroz, livre até ao erro. Amada e atacada, celebrada e cancelada antes de existir cancelamento. Bardot envelheceu fora de moda, fora de época e fora de tom e nisso manteve-se fiel a si própria. Nunca pediu desculpa por ter sido quem foi, nem tentou reescrever a sua biografia para caber nos manuais do presente.