À beira dos 100 anos, que completa a 08 de Dezembro, o realizador português vai voltar ao trabalho dentro de poucos dias, com a filmagem de “Singularidades de uma rapariga Loura”, a partir de um conto homónimo de Eça de Queirós.
Depois, “gostava de fazer o Estranho caso de Angélica, que é um projecto já dos anos 50 que o SNI (Secretariado de Informação) rejeitou”, adiantou.
“O primeiro filme destina-se ao Festival de Berlim e eu gostava muito de fazer o outro, ‘O estranho de caso de Angélica’, para o Festival de Cannes, se me derem meios para tal”, adiantou.
“Não deixarei de trabalhar. Se não tiver dinheiro para fazer os filmes de ficção, voltarei aos tempos antigos, voltarei para o documentário”, referiu.
A primeira obra de Manoel de Oliveira chama-se “Douro, faina fluvial”, um documentário sobre a sua cidade natal, o Porto, que foi realizado em 1931.
As dificuldades para filmar são hoje maiores, em sua opinião: “O financiamento estatal dá para cerca de metade do custo total e o resto é preciso encontrar noutras partes”.
O que acontece “é que parece que eles (os políticos) ainda não se aperceberam bem desta questão”, considerou.
“Cada filme dá trabalho a uma equipa completa, músicos, actores, figurantes, dá trabalho à Tóbis, que, veja, continua a tirar cópias do meu primeiro filme, que foi feito em 1931 (Douro, Faina Fluvial) e de todos os outros”, acrescentou.
“Sinto que o Estado ainda não vê bem as coisas. A equipa, o realizador, os músicos e essa gente toda que ganha dinheiro paga impostos ao Estado e pagam quase 46 por cento”, argumentou Manoel de Oliveira.
O realizador diz que não sente maltratado pelo Estado, mas considera que as entidades oficiais “recebem mais dos impostos do que aquilo que dão para fazer os filmes”.
Apesar das dificuldades, há uma entidade que o cineasta elogia: “A Fundação Gulbenkian tem sido um apoio formidável”.
O realizador mostrou-se também “muito grato e muito sensibilizado” com a homenagem que lhe fez Serralves, “porque de um modo geral houve bastante assistência”.
Desafiado a dar a sua visão sobre o mundo actual, Manoel de Oliveira fez uma breve retrospectiva: “Depois do 25 de Abril, parecia que todo o Mundo se ia abrir e se ia instalar o céu no Mundo, pois houve socialismo em França, com Mitterrand, logo a seguir houve socialismo na Espanha e a seguir houve a queda do muro de Berlim”.
“Tudo parecia que ia pelo melhor, mas a seguir veio o terrorismo e por aí fora. Agora são os bancos a dar o estouro na América…”, resumiu.
“Não estou nada sossegado”, concluiu Manoel de Oliveira, que foi homenageado com o mais completo ciclo dedicado à sua obra realizado até ao momento na cidade do Porto.
O ciclo, designado “Manoel de Oliveira: ver e rever todos os filmes (e mais alguns ainda)” decorreu entre 18 de Setembro e terminou domingo.
Com a presença do próprio realizador, foram exibidos “Encontro único”, um filme de três minutos, “O improvável não é impossível”, um documentário sobre os 50 anos da Fundação Gulbenkian, e “Cristóvão Colombo – o enigma”, a sua mais recente obra, na qual ele e a mulher “foram forçados a entrar por um mera questão económica”.
Quando a sessão terminou, os espectadores levantaram-se, aplaudiram Manoel de Oliveira e um deles fez-lhe um pedido: “Queremos mais filmes!”.
“Tem de esperar um pouco mais”, retorquiu, feliz, o realizador mais velho do Mundo.