A suspensão durou apenas algumas horas. As suficientes, porém, para que a polémica se espalhasse através das redes sociais e chegasse ao conhecimento da autora da banda-desenhada que deu origem à série de animação infantil Destemidas.
“Estou atordoada”, confessava no Twitter a francesa Pénélope Bagieu, ao ler que a RTP suprimira da sua plataforma de streaming um episódio de Les Culottés, no original, por alegadamente infringir a liberdade religiosa das crianças e encorajar o aborto e a homossexualidade. “Aterroriza-me que um canal de televisão público ceda a este género de argumentos.”
Às primeiras horas desta sexta-feira, 26, Penélope Bagieu não sabia que, minutos antes, a diretora da RTP2, Teresa Paixão, explicara ter-se tratado de uma suspensão temporária. “O episódio sobre Thérèse Clerc foi temporariamente suspenso do espaço Zig Zag porque reconhecemos que a linguagem utilizada no que diz respeito ao aborto não era a mais adequada para o público-alvo (10-13 anos) e voltará assim que estiver refeita a dobragem”, lê-se na página oficial do canal no Facebook.
No mesmo post, Teresa Paixão informa que a série não foi suspensa nem da RTP 2 (o episódio dedicado à atriz e inventora Hedy Lamarr foi para o ar esta sexta-feira, 26) nem da RTP Play. “Os 30 episódios podem ser vistos integralmente, com a tradução aproximada ao texto original na RTP Play, incluindo o episódio que deu lugar a esta questão no espaço das séries da RTP2.”
Retirada da programação infantil
Ao todo, haviam sido suprimidos da RTP Play três dos 30 episódios da série que começara a ser exibida a 8 de março, Dia Internacional da Mulher, no espaço infantil Zig Zag. Dois deles, o 4 e o 14, apenas por não terem ido para o ar nas datas previstas, devido a ajustes de grelha. O episódio 19, dedicado à ativista pelos direitos das mulheres Thérèse Clerc (1927-2016), regressou entretanto à plataforma de streaming, mas a série foi toda retirada da área dedicada à programação infantil.
Destemidas conta “histórias de mulheres excecionais, ousadas e decididas que fizeram o que quiseram e lutaram pelos seus sonhos”, lê-se na sua sinopse. “Mulheres de ideais, épocas, idades e mundos muito distintos, que foram capazes de ir para além das convenções e preconceitos sociais e triunfaram perante as adversidades. Cientistas, atrizes ou ativistas que desejaram ser independentes, viajar, ser úteis, estudar, trabalhar, chegar ao poder de um país, ou simplesmente… salvar um farol!”
A série de animação é uma adaptação do álbum de BD Les Culottés, que Pénélope Bagieu começou por publicar no site do jornal Le Monde, em 2016. Os episódios têm 3 a 5 minutos e são dobrados pela atriz Joana Ribeiro.
Temo que não se tenha munido do melhor percurso para lá chegar
Jorge Wemans, provedor do telespetador rtp
Logo no início da sua exibição, em março, o provedor do telespetador recebeu queixas relativamente ao “conteúdo ideológico”. Numa resposta enviada a Maria Helena Costa, presidente da Associação Família Conservadora, Jorge Wemans escreveu que a intenção do programa “era a de tornar tranquila essa relação com o facto de muitos adolescentes se interrogarem sobre a sua identidade de género”, acrescentando: “Temo que, como diz, não se tenha munido do melhor percurso para lá chegar”.

Quando na sexta-feira, 19, foi para o ar o episódio sobre a ativista francesa Thérèse Clerc, as críticas não se fizeram esperar. Nele conta-se como esta mulher, apresentada como uma “realista utópica”, descobriu o marxismo com os padres operários e lutou pela despenalização do aborto. Vê-mo-la a ir a manifestações, a separar-se do marido, levando consigo os quatro filhos do casal, a dar um beijo na boca a uma mulher. E ficamos a saber que praticou abortos clandestinos, no seu apartamento em Montreuil.
Em pouco tempo, a polémica espalhou-se e cresceu nas redes sociais, sobretudo entre os mais conservadores. Na segunda-feira, 22, José Pinto-Coelho anunciou no Twitter, no Facebook e no YouTube que o Partido Nacional Renovador iria entregar uma queixa-crime “contra a RTPlixo” na Procuradoria-Geral da República. E justificava: “Não podemos tolerar que a RTP. televisão pública, paga com os nossos impostos, impinja a ‘foice e martelo’ às nossas crianças, apresentando-lhes as agendas tóxicas do marxismo-cultural como meta a perseguir.”
“Pronto, resolvido”
A expressão “marxismo cultural” foi alvo de grande chacota no Twitter, com o autor das Insónias em Carvão a resolver o assunto com um bigode.
Mas ele seria levado a sério na RTP. Tanto que o provedor do telespectador enviou uma carta à direção de programas, recomendando que o episódio fosse retirado da RTP Play e que futuras exibições da série escolhessem um horário mais adequado ao público infanto-juvenil:
“Recomendei às responsáveis pela programação infanto-juvenil da RTP2 que: a) retirassem da RTP/Play o referido episódio; b) em futura repetição da série escolhessem outro horário mais apropriado para adolescentes e não incluíssem o episódio. Elaborei esta recomendação por que [sic] a linguagem e a narrativa não são adequadas à comunicação para um público adolescente dos temas a que Thérèse Clerc dedicou a sua vida.”
Canal marxista, abortista e anticatólico?
“Não acompanho, no entanto, a maior parte das críticas feitas à RTP2. Difundir a história de uma mulher que alterou radicalmente a sua vida por ter tido contacto com os escritos de Karl Marx não torna um canal marxista. Nem em abortista por divulgar a história de quem lutou pela legalização do aborto. Muito menos pode o canal ser classificado de anticatólico por ter contado a história de uma mulher que sempre referiu o ambiente vivido na sua família católica como opressivo.”
“Creio que a RTP não pode, nem deve esconder ao seu público adolescente estas realidades (…) Não pode, no entanto, fazê-lo do modo como surgem tratadas no referido episódio.”
A suspensão do episódio 19 no canal de streaming da RTP deu azo entretanto a uma petição pública pela reposição do programa na RTP e levou Rui Tavares a dedicar-lhe o seu artigo de opinião desta semana. “Quem tem medo de Destemidas?”, pergunta o historiador e fundador do Livre. “Será possível que as crianças e adolescentes portuguesas não possam ver referências a direitos LGBT ou de saúde reprodutiva que foram considerados apropriados para as crianças e adolescentes francesas da mesma geração? “Se fôssemos a ceder a essas pressões tradicionalistas, 2020 acabaria por ser como 1950.”
Bruno Nogueira e João Quadros também dedicaram o Tubo de Ensaio desta sexta-feira às “destemidas mas caladinhas” e muito boa gente descobriu uma série de que nunca ouvira falar, não resistindo, agora, a vê-la de seguida.
Às 7 e 55 da manhã de hoje, Pénélope Bagieu respondia com um animado “Ok, merci!” à informação de que o episódio sobre Thérèse Clerc voltara à RTP Play.