Parece que Santo António voltou para fazer milagres. Desta vez não encontrou marido a ninguém, não recuperou nenhum objeto perdido nem salvou Lisboa de um terramoto. Fez uma coisa que há muito parecia difícil: levou muitos espectadores portugueses a ver um filme português ao cinema. Santo António, O Casamenteiro de Lisboa, de Ruben Alves, levou 40.890 espectadores às salas no primeiro fim de semana, ultrapassou os 290 mil euros de receita de bilheteira, esgotou sessões um pouco por todo o País e foi o filme português mais visto em Portugal nesses primeiros dias de estreia. Convém repetir devagar, para ninguém pensar que se enganou no arraial: o filme mais visto em Portugal no primeiro fim de semana. Um filme português. Falado em português. Com atores portugueses. Sobre Lisboa. Afinal, ainda é possível levar muitos espectadores às salas.
O resultado merece ser levado a sério precisamente porque o filme não precisa de ser tratado como património nacional para justificar o êxito. Já escrevi que Santo António tem problemas: clichés suficientes para montar três marchas de Alfama, diálogos que algumas vezes chegam ao altar sem grande vontade de dizer o “sim”, sentimentalismo servido em doses generosas e drones que sobrevoam Lisboa com tal frequência que, a certa altura, esperamos que a EMEL lhes cobre estacionamento. Nada disso desapareceu durante o fim de semana. O público não foi à bilheteira corrigir a crítica. Foi ver o filme. E fez muito bem. Uma coisa chama-se crítica de cinema, outra chama-se público. Quando ambas coincidem, excelente. Quando não coincidem, também não se decreta estado de emergência cultural.
Almodóvar apanhou o 28
Existe, aliás, uma explicação mais divertida para o fenómeno: parece que o estilo Pedro Almodóvar — que estreia o seu novo filme Natal Amargo a 24 de setembro — chegou finalmente ao cinema popular português, só que apanhou o eléctrico 28, passou pela Graça, comprou um manjerico e acabou nos Paços do Concelho. Santo António tem uma espécie de ADN almodovariano domesticado pela comédia francesa e temperado com sardinha assada. Cores fortes, interiores carregados, mulheres capazes de resolver em cinco minutos aquilo que os homens complicaram durante vinte anos, personagens maiores do que a vida, amores escondidos, sexualidades que ainda perturbam certas famílias, mães que sabem tudo, mães que fingem não saber nada, padres com passado sentimental e uma Lisboa transformada numa gigantesca decoração camp. Falta Penélope Cruz aparecer à janela de Alfama a despejar sobre Paco León um balde da água de lavar o chão e podemos organizar imediatamente uma retrospetiva.
Rita Blanco ajuda bastante. A sua Carmo fuma, manda, protesta, organiza e atravessa o filme com aquela extraordinária capacidade que a atriz tem de fazer parecer natural uma frase que, entregue a outro intérprete, precisaria de assistência médica. Joaquim Monchique oferece a Valentim outra fragilidade, mais secreta e melancólica, enquanto Ana Bola consegue transformar uma personagem potencialmente caricatural numa máquina cómica com coração. E Joaquim de Almeida, como Padre Miguel, proporciona com Rita Blanco alguns dos momentos mais adultos desta boda cinematográfica: o amor que não aconteceu, a vida que poderia ter sido, aquelas histórias que ficam numa gaveta durante décadas porque alguém resolveu escolher Deus, a família ou simplesmente o caminho errado na rotunda.
Ruben Alves parece ter percebido uma coisa elementar que, por vezes, o cinema português parece considerar intelectualmente suspeita: o público gosta de reconhecer-se no ecrã. Não significa oferecer-lhe apenas aquilo que já conhece, nem transformar o cinema numa coleção de “cromos” lisboetas ou figuras nacionais. Significa perceber que uma cidade, uma maneira de falar, uma família, uma rua, uma festa popular ou uma discussão à mesa também podem gerar identificação. A Gaiola Dourada já tinha demonstrado que Alves possui esse instinto. Pode abusar dos estereótipos, pode carregar nas tintas, pode aproximar-se perigosamente da caricatura, mas sabe onde fica o botão afetivo do espectador. E não hesita em carregar nele sem pudor.
A vingança do manjerico
O mais curioso é que o próprio filme fala daquilo que agora lhe está a acontecer. Na história, uma multinacional francesa pretende modernizar, formatar e praticamente transformar os Casamentos de Santo António num produto global. Carmo e Valentim resistem porque Lisboa não pode virar um franchise com logótipo, aplicação para telemóvel e experiência VIP patrocinada por uma marca de gin tónico. Fora do ecrã, foram precisamente elementos profundamente locais — Santo António, Lisboa, os bairros, os casamentos, o português, os atores que toda a gente conhece — que meteram pessoas nas salas. A globalização levou uma pequena bofetada de manjerico.
Seria absurdo concluir, depois de quatro dias, que o cinema português encontrou finalmente a fórmula secreta da Coca-Cola. A bilheteira de um fim de semana não resolve problemas estruturais, não recupera salas desaparecidas, não garante que o filme mantenha o ritmo e muito menos significa que, a partir de amanhã, qualquer produção nacional com um elétrico amarelo no cartaz consiga quarenta mil espectadores. O segundo fim de semana dirá muito sobre o boca-a-boca. O terceiro ainda mais. Cinema popular também se faz de resistência, não apenas de arranque.
Mas 40 mil pessoas numa estreia constituem um sinal demasiado forte para ser tratado com condescendência. Durante anos ouvimos dizer, até à exaustão, que os portugueses não queriam ver cinema português. A frase sempre foi demasiado fácil e desajustada. Os portugueses não querem ver cinema português por obrigação patriótica. Querem filmes que lhes despertem curiosidade, desejo, identificação ou simplesmente vontade de passar duas horas numa sala. Depois gostam ou não gostam. É esse o contrato normal do cinema.
Santo António, O Casamenteiro de Lisboa conseguiu-o. Pode não ser a grande comédia sobre Lisboa que a sua excelente ideia permitia imaginar — e, na verdade, para mim não é —, mas tornou-se uma comédia portuguesa que as pessoas querem ver. E isto, numa atividade — ainda estamos longe de lhe chamar indústria — onde durante demasiado tempo sucesso popular e cinema nacional pareciam viver em casas separadas, já constitui um casamento digno de festa. E uma merecida oferenda a Santo António.
Ruben Alves vestiu Lisboa de vermelho, carregou no kitsch, chamou Rita Blanco, Joaquim Monchique, Ana Bola, Joaquim de Almeida, Paco León e companhia, acrescentou marchas, padres, mães, segredos, noivos, estrangeiros, lojas antigas, drones e uma boa quantidade de loucura sentimental. Depois abriu as portas da igreja, perdão, das salas de cinema. Quase 41 mil pessoas disseram “sim”.
Pedro Almodóvar que se cuide: nós temos Santo António. E este já anda a casar espectadores com o cinema português.