Se há histórias maiores que a vida, a dos Tinariwen é uma delas, que de uma vida condenada à miséria, à morte ou ao simples esquecimento, tornaram-se não só um fenómeno de popularidade global (três nomeações para os Grammy, conquistado em 2012, com o álbum Tassili, na categoria de melhor disco de World Music) mas também a prova de como a arte – e a resiliência – consegue ser maior do que a violência.
A história dos Tinariwen começa com Ibrahim Ag Alhabib, fundador da banda e filho de um rebelde tuaregue, morto à sua frente quando tinha apenas quatro anos, às mãos do governo do Mali, na sequência da revolta tuaregue de 1963.
Depois disso, Ibrahim cresceu entre os desertos e os campos de refugiados da Argélia, onde ganhou a alcunha de abaraybone – algo como “a criança vagabunda”. Seria salvo pela música quando, certo dia, assistiu a um western, num cinema improvisado no deserto, e ouviu um cowboy a tocar guitarra. Inspirado pela cena, construiu a sua guitarra utilizando uma lata de óleo, um pau e um fio de travão de bicicleta, na qual aprendeu a tocar, a partir de antigas melodias tuaregues, canções pop árabes e o blues maliano clássico de Ali Farka Touré.
Em 1979, depois de trabalhar como carpinteiro e de cumprir uma pena de prisão, conheceu, na Argélia, Alhassane Ag Touhami e os irmãos Inteyeden Ag Ableline e Liya Ag Ablil, também tuaregues malianos, com quem formou um grupo, para tocar em casamentos e festas, que se tornou conhecido pelas canções de exílio, sobre a saudade da sua terra natal.
A banda não tinha nome, mas depressa ficaram conhecidos como os Kel Tinariwen, que significa “O Povo dos Desertos” ou “Os Rapazes do Deserto”. Os mesmos rapazes que trocaram as metralhadoras por guitarras e se tornaram uma referência da música mundial, tão bem documentada no último disco Idrache, no qual passam em revista alguns dos seus maiores êxitos, agora apresentados nestes dois concertos em Portugal.
Tinariwen > Casa da Música, Porto > 25 mai, dom 21h > €25 > LAV – Lisboa ao Vivo > 26 mai, seg 21h > €28