1. Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, de Radu Jude
Uma professora de um colégio faz um vídeo caseiro com o seu marido, na sua própria casa, que inusitadamente acaba por ser partilhado em sites de pornografia na internet. Este é o insólito ponto de partida de Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental, o mais recente filme do romeno Radu Jude, vencedor de um Urso de Ouro em Berlim. O realizador parte daqui para fazer um retrato de uma sociedade abalada pela pandemia, refletindo, com a capacidade irónica (e autoirónica) a que o recente cinema romeno nos habituou, sobre a sociedade em tempos de confinamento. Sem pudor nem receio de ferir suscetibilidades, oferece-nos logo o explícito vídeo porno caseiro inadvertidamente publicado online como preâmbulo. Mostra-nos as imagens para nos libertar delas: deixam de nos suscitar curiosidade e passamos a estar concentrados nas suas consequências. O filme não trata do pudor, trata antes das falsas questões morais, no desmonte da sociedade. E, ao mesmo tempo, aborda um dos mais prementes temas da pandemia: a separação entre a esfera pública e a privada, entre o íntimo e o partilhável. Radu Jude, de maneira brilhante, arrisca uma forma diferente de fazer cinema e realiza um dos melhores filmes de 2021. Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental > De Radu Jude, com Katia Pascariu, Claudia Ieremia, Olimpia Malai, Nicodim Ungureanu > 104 minutos
2. Três Andares, de Nanni Moretti
É a primeira vez que Nanni Moretti adapta um romance ao cinema, no caso da autoria do israelita Eshkol Nevo. A adaptação resulta num argumento perfeito, em que as histórias, sempre trágicas ou melodramáticas, dos moradores de um prédio de Roma se cosem com naturalidade e realismo, sem deixar pontas soltas ou arestas por limar. Apesar da dimensão local e bairrista, em Três Andares, Moretti coloca-se nos antípodas da crónica de costumes, recorrente nas comédias clássicas italianas e que o próprio usou nos seus filmes. Estamos perante italianos tristes, nada espalhafatosos, com problemas sérios e difíceis de resolver. Os pontos de partida são situações extremas que nos convidam a fazer uma reflexão sobre a família e a vida em estados de pressão máxima. O filme não força conclusões nem nos impõe conceitos morais. Contudo, como é próprio de Moretti, não se acanha no desenvolvimento dramático, indo até às últimas consequências, provocando momentos de arrepio mas também de grande comoção. Três Andares > De Nanni Moretti, com Riccardo Scamarcio, Margherita Buy, Alba Rohrwacher > 119 minutos
3. Fevereiro, de Kamen Kalev
Neste belíssimo filme búlgaro, de Kamen Kalev, as personagens falam pouco porque têm pouco para dizer. Por um lado, Fevereiro pode ser visto como um olhar poético sobre a solidão em várias fases da existência, mas mais do que isso é um retrato de um estilo de vida em vias de extinção, de um homem que aceita e deseja um destino simples de pastor. Desenhado como um tríptico, em que acompanhamos a mesma personagem aos 8, 18 e 82 anos, o filme, além de fazer um retrato de uma Bulgária profunda, é um hino poético às opções simples da vida, para o qual o realizador se inspirou no avô que ia visitar nas férias do verão. Fevereiro é um hino à simplicidade perdida.
4. Titane, de Julia Ducournau
Há muitos filmes sobre extraterrestres, mas Titane parece ter sido feito por um. Ou por uma, para ser mais rigoroso. O segundo filme de francesa Julia Ducournau foi a grande surpresa do Festival de Cannes, ao arrebatar a cobiçada Palma de Ouro. E surpreende porque, logo à partida, não é comum o júri do mais prestigiado festival europeu deixar-se impressionar por filmes de género. Mas a imaginativa e imagética exploração de universos raros proposta pela jovem realizadora francesa atravessa e suplanta as questões de género e abala os quadros referenciais. Talvez se possa olhar para Titane como o filme que Leos Carax estava a dever-nos, só que, em vez disso, resolveu fazer aquele insípido musical chamado Annette. Ducournau é, até ver, uma promissora herdeira de Carax de Holy Motors – e, nesse aspeto, até mais caraxiana do que o próprio realizador francês. Um breve resumo do enredo é o suficiente para auferir o grau de imaginação fantástica. O filme conta a história de uma serial killer que tem relações sexuais com automóveis e acaba por engravidar. No processo de fuga à justiça, faz-se passar por uma criança desaparecida e acaba enturmada num peculiar quartel de bombeiros que funciona como uma seita.
Acresce a isto um ritmo visual intenso, de filme de ação, em que se descobre espaço, em contraste, para cenas de comovente e insólita ternura. Um papel extraordinário, visceral, de Agathe Rousselle, uma personagem intuitiva, animalesca, em constante processo metamorfósico. E o sempre brilhante Vincent Lindon, aqui, arrisca fugir do seu habitual contexto realista, mas ainda assim enche de humanidade um filme metálico. Titane > De Julia Ducournau, com Agathe Rousselle, Vincent Lindon > 108 minutos
5. A Primeira Vaca da América, de Kelly Reichardt
Em A Primeira Vaca da América, a prodigiosa realizadora independente norte-americana Kelly Reichardt regressa à luxuriante paisagem do estado de Oregon, onde filmou Old Joy (2006), e, ao mesmo tempo, volta a reinventar o género western, como havia feito em O Atalho (2010). A Primeira Vaca da América é, assim, um western de coordenadas trocadas, em que a paisagem desértica do Texas é substituída pela vegetação frondosa do Oregon, bem mais a norte, mas com propósitos semelhantes. Ou seja: estamos perante pioneiros que se deixam levar pela cobiça, ouro e pedras preciosas, procurando, pelo caminho, no original modelo do sonho americano, fazer fortuna e mudar de vida. É neste contexto que encontramos Cookie, um cozinheiro e pasteleiro, inserido numa pequena companhia de expedição, que faz negócio com peles de castor. É um homem desenquadrado no espaço e no tempo, de temperamento tímido e pacifista, e uma mentalidade sensível e humana que o distingue dos companheiros. Cookie cruza-se com King-Lu, o mais elegante cavaleiro chinês, com o qual acaba por desenvolver uma relação de amizade profunda, uma espécie Brokeback Mountain sem se chegar a vias de facto. E depois há uma vaca, claro, a única no território, cujo leite roubado à socapa permite à dupla fazer e vender os mais deliciosos biscoitos, que valem ouro em terras alimentadas a pão e água. A Primeira Vaca da América > De Kelly Reichardt, com John Magaro, Orion Lee, Toby Jones, Ewen Bremner > 122 minutos
6. Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg
Numa altura em que Hollywood se deixa dominar por um novo politicamente correto, ligado a causas que deseja ver refletidas no cinema, é refrescante ver chegar um filme como Mais uma Rodada, que aborda o tema do álcool de forma moralmente desprendida e, por isso, verdadeiramente subversiva. Não é feito um louvor ao velho deus Baco, mas tão-pouco acontece o oposto. A exploração do tema é feita com grande originalidade, tendo como base uma ideia de experimentação social, ou de tese, comum a vários filmes da escola Dogma. O ponto de partida é fabuloso. Um grupo de amigos e professores cria a teoria de que o homem nasceu com 0,5 g/l de álcool no sangue, uma quantidade aquém da ideal para o gozo pleno dos seus recursos sociais e humanos. Assim, os amigos passam, discretamente, a consumir álcool na justa medida, durante o dia, para assegurar que estão nas suas máximas capacidades. E vão anotando os resultados da experiência, com o fim de comprovar ou rebater a tese. Como qualquer bom filme do Dogma (e bom estudo sociológico), a experiência é levada ao exagero, para além dos limites, na busca da rotura social, do desequilíbrio, por vezes irreversível. Não há um desfecho moralista nem libertino. Tudo funciona, antes, como uma brincadeira de adultos que deve ser levada muito a sério. Mais uma Rodada > De Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang > 117 min
7. A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos
Cada frame do filme de Catarina Vasconcelos poderia ser emoldurado num quadro de uma exposição; cada excerto que o acompanha poderia ser isolado e inscrito num livro de poesia. Assim se pode definir o elevado patamar de beleza em que se situa A Metamorfose dos Pássaros, longa de estreia da realizadora lisboeta que teve um bem-sucedido percurso por festivais de cinema (incluindo um prémio em Berlim). O filme partiu de uma ideia de documentário. Uma busca solitária e pessoal de raízes familiares, centrado na memória da avó (Beatriz), que nunca chegou a conhecer, mas também na sequência do isolamento do avô e da morte da mãe (a quem dedicara a sua primeira curta). Em confronto com a realidade, ou com a ausência de elementos palpáveis que permitissem construir um documentário propriamente dito, a realizadora derivou para um objeto híbrido, difícil de catalogar. A Metamorfose dos Pássaros pertence, inevitavelmente, à subcategoria dos retratos de família. É um filme íntimo, pessoal e partilhável, em que se serve de voz-off (várias, em registo coral ou polifónico), numa escrita literária, para nos conduzir por um conjunto de imagens em movimento com um tratamento estético apurado e criativo, próximo das artes visuais. A Metamorfose dos Pássaros > De Catarina Vasconcelos, com Manuel Rosa, João Móra, Ana Vasconcelos > 101 minutos