Está por conhecer o efeito pedagógico das exposições realizadas no ambiente massificado dos centros comerciais: será que depois de aí contemplar um desenho de Dalí, uma litografia de Léger, um óleo de Paula Rego, esse público tornou-se visitante dos museus e das galerias de arte? Seja como for, a estratégia democratizante está instalada: desta vez, o espaço comercial serve de palco às famosas bailarinas de Degas (1834-1917), pintor francês que preferia o rótulo de mestre realista ao de impressionista. Era o movimento dos corpos que lhe interessava, não tanto os efeitos da luz. Grande parte da carreira, ele dedicou-a a pintar o corpo de baile do Palais Garnier (onde funcionava então a Ópera de Paris), armado de um caderninho nas mãos. Explicações para a obsessão pelo ballet? Há soundbites: à colecionadora Louisine Havemeyer, Degas respondeu que era “tudo o que restara dos gregos”; ao marchand Ambroise Vollard, atirou: “Chamam-me o pintor das bailarinas. Nunca lhes ocorreu que o meu interesse está no movimento e em pintar trajes bonitos.”
A sua produção dedicada aos pliés e tutus soma cerca de 1500 representações (desenhos, gravuras, pinturas, e até esculturas), quase sempre dos bastidores: bailarinas a calçarem as sapatilhas, a fazerem exercícios de aquecimento, a treinarem a pose, a encontrarem o seu lugar no coletivo. Por vezes, há homens, de cartola e intenções enigmáticas, a espreitá-las… Edgar Degas. No Mundo do Ballet apresenta 26 gravuras originais, que integraram o ensaio Degas Danse Dessin, de Paul Valéry (1937). São pequenos formatos que funcionam como estudos: o artista testa o gesto pictórico nos joelhos dobrados, na curva elegante dos braços erguidos, na nudez fatigada.
Obras alheias complementam este acervo: quatro trabalhos de Paula Rego, inspirada pelo bailado e pelo filme Fantasia, de Walt Disney, que ecoam a ambiguidade de Degas face à ideia romantizada das petits rats; fotografias de Carlota Rodrigues que recriam cinco obras do artista, incluindo a famosa escultura da adolescente Marie van Goethem, de nariz empinado e rosto fechado (que os críticos da época arrasaram, vendo-a como exemplo da misoginia de Degas); e seis figurinos de Helena de Medeiros.
Edgar Degas. No Mundo do Ballet contempla ainda bailado ao vivo: no dia 11, às 19h, há duas performances da Escola Domus Dança, com a participação de Diogo de Oliveira, o único português na Ópera de Paris; no dia 26, às 17h, haverá várias coreografias, com Frederico Loureiro, da Companhia Nacional de Bailado.
Edgar Degas. No Mundo do Ballet. Com a Participação Especial de Paula Rego e Helena de Medeiros > NorteShopping > Pç. Sara Afonso, Matosinhos > T. 22 9571 000 > 11 abr-30 mai, 10h-24h > grátis