
João Tuna
Fala-se das peças de família que nos caíram na sopa e das quais não nos conseguimos desfazer porque nos recordam quem amamos. Do piano que ficará para sempre naquele lugar, mesmo que não se saiba tocar, porque é imoral vender um piano. Da tralha pronta para ser deitada fora, mas que se acumula à porta de casa, porque ficamos presos a ela. Da coleção Vampiro, guardada desde tenra idade, à qual só faltam 23 exemplares. Das pedras recolhidas em vários cantos do mundo, a encerrar tantas memórias. Dos bilhetinhos trocados com a amiga da infância. São muitas as histórias contadas pelos habitantes das seis casas visitadas em Espólios, a nova criação do Teatro do Vestido feita a partir do Porto. “É um espetáculo muito sensível, o público reconhece-se nesta humanidade partilhada”, defende a diretora artística Joana Craveiro.
No Porto, já acompanhámos a companhia numa errância pelas ruas do centro histórico, durante o espetáculo Esta é a minha cidade e eu quero viver nela, ou na ocupação de um dos seus edifícios emblemáticos, o Palacete Pinto Leite, em Até comprava o teu amor (mas não sei em que moeda se faz esta transação). A trilogia de afetos encerra agora com Espólios, peça inspirada no estudo Stuff do antropólogo Daniel Miller, cujo “ponto de partida foi aquilo que as pessoas guardam nas suas casas e o que prezam nos objetos”, explica Joana Craveiro. “As pessoas têm sempre qualquer coisa de marcante, mesmo quando dizem que não ligam nada aos objetos, porque o materialismo é visto como algo negativo”, diz a responsável pelo texto e encenação.

João Tuna
O espetáculo começa no Teatro Carlos Alberto, às 20h30, onde o público é dividido em seis grupos (com um máximo de 10 pessoas), cada um com um guia, e recebe os mp3 com o percurso sonoro que os acompanhará até ao final. “Uma viagem solitária ao interior da noite e das pessoas, como se elas pudessem albergar essa coisa sombria, cheia de possibilidades”, diz-nos uma voz ao ouvido. Enquanto caminhamos pelas ruas, pede-nos “um olhar virgem sobre a cidade” e aqueles sussurros colocam-nos em alerta. O percurso não é desvendado de antemão, sabe-se apenas que terá cerca de três horas e que é aconselhado calçado confortável (e, acrescentamos nós, uma garrafa de água). Em cada uma das seis casas estará um ator, que fará um solo de 15 minutos, repetido seis vezes por sessão para os diferentes grupos. Os intérpretes (Ainhoa Vidal, Estêvão Antunes, Miguel Bonneville, Rosa Quiroga, Rosinda Costa e Sara Barros Leitão) são também cocriadores deste Espólios e fizeram uma seleção do material recolhido nas entrevistas com os moradores, acrescentando depois outros pontos. A representação, olhos nos olhos, torna mais autêntica a partilha, embora a exatidão das memórias relatadas nunca seja muito clara. “Ficciono sempre, não faço um retrato da realidade”, sublinha Joana Craveiro. “Agarro em pormenores do que me contam e crio um enredo à volta deles.”
As histórias de cada casa são muito distintas, ainda que se reconheça nos seus habitantes uma classe social letrada, com livros espalhados pelos cantos. “Lançamos o repto e estas pessoas foram de uma generosidade enorme e aceitaram abrir as portas a estranhos”, conta a diretora artística do Teatro do Vestido. Durante o espetáculo, é muito provável que o público se cruze com eles e troque olhares cúmplices. Afinal, não os conhecemos já um bocadinho?
Teatro Carlos Alberto > R. das Oliveiras, 43, Porto > T. 22 340 1910 > 5-15 mai, qua-dom 20h30 > €10