1. Fonte de Letras, Évora
Desde 2000: Nasceu em Montemor-o-Novo (2000) e mudou-se depois para Évora. A missão de levar livros onde não os há concretrizou-se também no projeto On The Road Bookshop, a motoreta amarela que circulou nas praias da costa alentejana e noutros pontos do País.

Em 21 anos de história, a Fonte de Letras foi sempre uma livraria alentejana, mas em moradas diferentes. Começou em Montemor-o-Novo, onde, no ano 2000, não havia nenhuma. “As pessoas tinham cultura de biblioteca, mas perguntavam-nos ‘Estes livros são para quê?’”, conta Helena Girão Santos que, em 2013, levou o projeto para Évora. “Cadeiras, sofás, estantes são os mesmos desde o início, fazem-me sentir como se estivesse na primeira casa”, diz. Quanto aos livros, há sempre as novidades, mas a missão, enquanto livraria independente, é “dar a conhecer a diversidade da escrita, de autores e de pequenas editoras, e ter à disposição do leitor livros muito bons, que até podem ser mais difíceis de ler mas que não se encontram nas redes de livrarias e nas grandes superfícies”, explica.
Entre os milhares de títulos disponíveis, há edições de autores alentejanos ou sobre o Alentejo, uma grande variedade de obras infantojuvenis (existem inclusive duas salas que lhes são dedicadas), o catálogo completo da Sistema Solar, poesia e clássicos como O Amante, de Marguerite Duras, um livro de que Helena gosta e nunca deixou de ter desde a abertura. Se houver alguma coisa que o cliente não encontre, encomenda-se, e na loja online, que ganhou com o confinamento, também é possível comprar. Mas o ideal é mesmo visitar a Fonte de Letras. R. Vasco da Gama, 8, Évora > T. 266 899 855 > seg-sex 10h-14h, 15h-19h, sáb 11h-18h
2. Culsete, Setúbal
Desde 1973: Os novos proprietários, Rita e Raul, fizeram questão de manter, em exposição, alguns objetos que pertencem à história da Culsete, do giz aos apagadores, dos guaches às réguas.

Até 2018, ano em que ficaram com a Culsete, a única coisa que ligava Rita Siborro, psicóloga, e o marido Raul Reis, designer gráfico, a esta livraria setubalense era, justamente, serem da cidade e clientes desde jovens. “Era aqui que comprávamos os livros e o material escolar”, conta Rita. O gosto pela leitura viria a pô-la à frente do destino da Culsete, fundada, em 1973, pelo livreiro Manuel Medeiros, junto ao Parque do Bonfim. “Reabrimos em abril de 2019, depois de uma grande remodelação, mantendo algum do mobiliário.” A atmosfera é acolhedora e luminosa, e o atendimento de proximidade.
Sendo uma livraria generalista, tem um pouco de tudo, mas a literatura, a poesia e as edições infantojuvenis têm lugar privilegiado, assim como autores independentes e pequenas editoras (Antígona, Língua Morta, Bazarov, Húmus, entre outras). Rita mantém o catálogo “bom e de qualidade, que deu reconhecimento à Culsete”, trabalhando-o como uma curadoria. “Isto é um negócio de amor e de muito trabalho que precisa de sinergias para se manter; não se resiste só com os clientes que passam na rua”, diz. O Clube de Leitura continua em atividade e, em breve, quer retomar os lançamentos, os workshops de escrita criativa, as parcerias com festivais e iniciativas culturais, e marcar presença em feiras. O gosto dos proprietários pela cultura e arte reflete-se numa das paredes, reservada a exposições com curadoria de Raul, nas ilustrações à solta, à procura de dono, e nas várias marcas portuguesas de estacionário que complementam a oferta. Av. 22 de Dezembro, 23 A-B, Setúbal > T. 265 522 196 > ter-sáb 10h-13h, 15h-19h
3. Arquivo, Leiria
Desde 1978: Em 2000, a Arquivo mudou-se para outra loja, na mesma rua, passando a contar com cafetaria, galeria, uma zona para crianças e um pequeno auditório.

Há mais de 40 anos que a Arquivo é uma referência na vida cultural de Leiria. Desde o ano 2000 que Alexandra Vieira, filha de Ribeiro Vieira, o fundador, é a cara da livraria que, até então, só vendia livros e artigos de papelaria. O espírito manteve-se, com uma oferta cuidada e diversificada de livros, com especial foco na ficção, poesia, arte e arquitetura, ensaio e infantojuvenil. A mudança para uma loja maior, na mesma rua, permitiu acrescentar-lhe uma cafetaria, um espaço infantil, galeria e um pequeno auditório, e ter uma agenda mensal regular. As conversas, lançamentos, concertos, exposições, debates e workshops têm estado suspensos (pandemia oblige), mas regressarão assim que seja possível, com a certeza de que José Luís Peixoto e Sobrinho Simões vão marcar presença em mais um ciclo de tertúlias “O que pode a arte?”. Por agora, o programa segue online, com apresentações de livros. O convite para visitar a Arquivo e beber um copo, ao fim da tarde, esse está sempre feito. Av. Combatentes da Grande Guerra, 53, Leiria > T. 244 100 361 > seg-sex 12h-20h, sáb 10h-20h
4. A das Artes, Sines
Desde 2003: A inauguração oficial da A das Artes fez-se com a apresentação do disco O Irmão do Meio, de Sérgio Godinho. Na altura, a livraria ainda vendia discos e artesanato

No romance Os Loucos da Rua Mazur, a personagem Yankel, um livreiro judeu e cego, é uma homenagem a Joaquim Gonçalves e à luta pela sua livraria A das Artes, em Sines, revelou o autor, João Pinto Coelho, numa entrevista à VISÃO, em 2017. E percebe-se porquê assim que trocamos umas palavras com Joaquim, 65 anos e muitas histórias para contar. Atrás do balcão ou a repor edições nas enormes estantes, está sempre com um sorriso – a excelência do atendimento valeu à A das Artes vários prémios no concurso da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros).

A livraria independente do Litoral alentejano tem clientes espalhados pelo País e pelo mundo. “O livreiro é o intermediário entre o autor e o público. É preciso ler muito e com paixão, só assim ficamos a saber quando um livro é bom e onde ele pode chegar”, diz Joaquim que, muitas vezes, ouve dos seus clientes pedidos de sugestão de leitura. Nas prateleiras, procura “ter um bocadinho de tudo”, literatura romanesca e infantojuvenil, filosofia, poesia (incluindo as obras do poeta da terra, Al Berto), editoras pequenas e independentes, embora não possa fugir das novidades, “porque é preciso vender”.
Há 18 anos que a A das Artes funciona como agente cultural da cidade, promovendo conversas, tertúlias, lançamentos e sessões de conto para crianças – uma iniciativa da mulher, Dina Silva, uma entusiasta professora. A lista de autores, músicos e personalidades que por aqui têm passado está à vista em antigos flyers de promoção, pendurados numa parede. “Cria-se uma relação de amizade e proximidade; ainda hoje, o Valter Hugo Mãe e o José Luís Peixoto fazem questão de passar na A das Artes para apresentar os seus livros, embora estas apresentações não façam parte da lista das editoras. Há uma força estranhíssima de alguns agentes do mercado, parece que somos inimigos de algumas editoras”, afirma Joaquim que, embora se diga “cansado de resistir”, faz tudo (incluindo vender jornais e raspadinhas) para continuar a passar a palavra: “Livros é nas livrarias”. Av. 25 de Abril, 8, Lj. C, Sines > T. 269 630 954 > seg-sex 10h-13h, 15h-19h, sáb 10h-13h
5. Centésima Página, Braga
Desde 1999: Com cafetaria e jardim, a Centésima Página ocupa, desde 2005, a Casa Rolão, edifíco de interesse público do século XVIII, em estilo barroco, que terá sido construído para um industrial de Braga.

Foi ao som do cacarejar das galinhas, vizinhas do jardim da livraria, que conversámos com Sofia Afonso e Helena Veloso, as duas mentoras da Centésima Página (a terceira sócia saiu, entretanto, do projeto). A filosofia independente mantém-se desde que a livraria nasceu, em novembro de 1999, na Praça da Faculdade de Filosofia, em Braga, e se mudou, em 2005, para a Casa Rolão, edifício barroco do século XVIII. “É um espaço de diálogo, fundamentalmente. Há uma identidade, uma relação com o território e com a comunidade que foram sendo construídas”, salienta Sofia, 54 anos, formada em Relações Internacionais. “A Centésima tanto podia estar aqui como em São Petersburgo ou em Nova Iorque”, acrescenta Helena, formada em Gestão.
Desde o início especializada em poesia, banda desenhada, artes e literatura infantojuvenil (“há um público que ajudámos a criar, são universitários ou já têm filhos”), cresceu para os 20 a 30 mil títulos atuais, entre os quais foi entrando a literatura traduzida, a pensar no público português e estrangeiro (galego, sobretudo). A sua história faz-se de avanços e de recuos, ao sabor das crises e da vulnerabilidade deste setor, mas com a resiliência de sempre, num “espaço aberto, transgeracional.” Disso são prova as muitas conversas e exposições, que aqui têm decorrido ao longo dos anos, ou, durante o confinamento, a entrega de livros em casa, resistindo à venda “algorítmica” online. Para as duas livreiras, o futuro continuará a ser “com os pés assentes na terra”, mas acalentando “o desejo antigo” de editarem um livro “com identidade própria”. Porque a Centésima Página não se quer de consumo rápido, é para se ir descobrindo. F.A. Casa Rolão > Av. Central 118, Braga > T. 253 267 647 > seg-sáb 10h-18h
6. Gigões e Anantes, Aveiro
Desde 2012: A livraria de livros ilustrados tem o nome de Gigões e Anantes em homenagem a uma das histórias do escritor Manuel António Pina. O logótipo, esse, é do ilustrador João Vaz de Carvalho.

Francisco Pais da Silva é um entusiasta, mas está apreensivo. Foram muitos meses “sem contacto e cumplicidade com os leitores”, que impediram esse “dar a descobrir”, desabafa o fundador e livreiro da Gigões e Anantes, em Aveiro. Com uma dinâmica dentro e fora de portas, a livraria, aberta em 2012, alimenta-se de uma relação próxima com o público, de atividades que organiza e de uma ótima seleção de títulos. São mais de sete mil livros com ilustrações lindíssimas. Todos têm uma história, para lá da letra escrita ou do desenho, e Francisco conhece-as todas. “Não tenho títulos de que não gosto”, sublinha. Além “da diversidade de livros”, as livrarias independentes, alerta, garantem “a existência de pequenas editoras.” O percurso da Gigões e Anantes nunca foi fácil, mas agora depende do apoio de amigos e do senhorio que, diz Francisco, a sorrir, “é o nosso Ministério da Cultura”. Sem data para o regresso de conversas, apresentações e oficinas com o público, prepara-se a abertura da loja online com “livros ilustrados para todas as idades”. De visita obrigatória para pequenos grandes leitores, difícil é sair da loja de mãos vazias. S.S.O. R. Dr. Nascimento Leitão, 30, Aveiro > T. 234 040 643 > ter-sex 15h-19h, sáb 10h-13h
7. Traga-Mundos, Vila Real
Desde 2011: Fernando Alves, jornalista e figura de referência da rádio, é um dos amigos mais fiéis da Traga-Mundos, a partir da qual fez vários programas e até já dedicou um dos seus famosos Sinais, como se ali mitigasse uma fome “nunca saciada”.

Uma pandemia nada pode contra uma rede social de carne e osso. No auge do destravado vírus que nos consome, António Alberto Alves, rosto e alma da Traga-Mundos, nome “roubado” a Torga, teve sempre boa vizinhança e fiéis leitores: passou dias a enviar volumes pelo correio ou a deixá-los, à confiança, na mercearia perto, para serem levantados. “Num momento difícil, as pessoas acarinharam-nos e disseram que o livro era, para elas, um bem essencial. Até pensei que, depois da reabertura, ia ser uma festa”, diz o sociólogo nascido em Moçambique. Não foi.

Mas esta livraria temática – onde também cabem vinhos, coisas e loisas do Douro e Trás-os-Montes – já conhece a palavra resistência, vivida até ao osso. O espaço é pertença de autores e de literaturas marginais, mas também território de tradições, sabores, objetos e memórias da região, de Vítor Nogueira à aguardente velha, do espantalho ao Seringador. Qual andarilho, e sem esmorecer, António leva a Traga-Mundos, e o seu espírito, a feiras, festas e encontros literários mais a sul ou até mesmo além-fronteiras. E se três mesas do antigo e emblemático Café Excelsior, de Vila Real, ganharam ali uma segunda vida, é apenas porque o livreiro de Cabêda se tornou um desses raros respigadores que ainda ousam resgatar prosa, poesia e humanidade, e atirá-las às fuças de um tempo descartável. M.C. R. Miguel Bombarda, 24, Vila Real > T. 93 515 7323 > seg-sáb 10h-19h
ONDE PARAM AS LETRAS: Dois projetos para descobrir, dentro e fora de casa
A vila dos livros
A transformação de Óbidos em vila literária começou em 2013, com a abertura de uma livraria na Igreja de Santiago, edifício do século XVIII que se tornou um lugar de culto de livros. O projeto, dinamizado por José Pinho, um dos sócios da livraria Ler Devagar, em Lisboa, e pela câmara municipal, foi-se multiplicando (dois anos depois, Óbidos recebeu a distinção de Cidade Criativa da Literatura, pela UNESCO). Hoje, é uma rede que abrange mais cinco livrarias e lugares dedicados às letras, como o Literary Man Hotel ou a Casa José Saramago (futura Biblioteca Municipal – Casa dos Livros), e iniciativas como o Josefa de Óbidos Bookcrossing ou o Silver Coast Volunteers Book Exchange. Este ano, a agenda cultural inclui o Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, a decorrer no início de outubro, e a inauguração da Casa Ruy Belo, ainda sem data.
Ligadas em rede
Criada em abril de 2020, a Reli – Rede de Livrarias Independentes já tem mais de meia centena de associados, de norte a sul do País. Trata-se de uma rede de cooperação que pretende defender e promover estes lugares de divulgação do livro, promoção da leitura e da cultura. No site da plataforma (www.reli.pt), os leitores encontram informações sobre cada uma das livrarias associadas, as várias atividades programadas, campanhas e promoções que estejam a decorrer. Quem procura um livro e não sabe onde encontrá-lo pode enviar um pedido através do site da Reli. A(s) livraria(s) que o tenham em stock respondem.