São cada vez mais as pessoas que recorrem a serviços de reabilitação em saúde. A incapacidade associada à dor musculoesquelética, como a dor nas costas ou na cervical, é cada vez maior e parece surgir mais cedo, afetando não só adultos em idade mais avançada como também crianças e adolescentes.
Estes dados epidemiológicos expressam uma realidade difícil de aceitar, sobretudo por profissionais que exercem prática neste setor. Contudo, a verdade inegável é que estes serviços não têm respondido de forma adequada às necessidades da população.
Quantas pessoas não chegam a uma clínica de Medicina Física e Reabilitação (MFR) para passar cerca de uma hora deitadas numa marquesa a serem expostas a variados tipos de intervenção (sejam “choques”, massagens, “calores” ou o dobra-estica do fisioterapeuta), sem serem parte ativa do seu processo de recuperação e sem qualquer resultado satisfatório? Quantas destas não procuram alternativas nos serviços privados de saúde e, muitas vezes, nos profissionais de áreas alternativas (como a osteopatia ou a quiropraxia) para estarem, na mesma, deitadas, mas sujeitas a outro conjunto de terapias manuais e manipulações vertebrais, em que se tenta realinhar as estruturas do corpo como se de um puzzle se tratasse?
A verdade é que a reabilitação tarda em se modernizar e em atuar de acordo com a informação científica disponível. Uma revisão sistemática realizada em 2017, que pretendia verificar quais as intervenções mais eficazes para reduzir as queixas por dor musculoesquelética, concluiu que os tratamentos passivos, sejam eles eletroterapia, terapia manual, técnicas manipulativas ou acupuntura, não apresentam resultados superiores a placebo, sendo que apenas o exercício físico (com efeitos a longo prazo) e o tratamento farmacológico (efeitos a curto prazo) apresentam resultados positivos.
Esta mesma informação é corroborada por terapias não convencionais (TNC), como é o caso da osteopatia, que já reconheceu os limites do seu modelo de intervenção, assumindo a ineficácia das suas estratégias na resolução destes problemas.
Nesse sentido, urge abandonar estes modelos obsoletos de intervenção que não respondem às necessidades dos utentes, seja porque, no caso da maioria das clínicas de MFR, o objetivo se centra unicamente na gestão do sintoma sem melhorar o estado geral de saúde da pessoa, seja no caso das TNC, em que se comprometem a encontrar a origem do problema, substituindo muitas vezes a função do médico, a quem cabe diagnosticar essa mesma origem, caso possa ser detetável.
Esta mudança de paradigma passa por adotar estratégias de intervenção baseadas no exercício, sendo que estas não se esgotam na capacidade de reduzir as queixas associadas a estas condições, mas sobretudo na sua capacidade de reduzir o risco de se desenvolver incapacidade permanente e de promover a saúde do cidadão na adoção estilos de vida mais ativos e mais saudáveis.
Artigo publicado originalmente na VISÃO Saúde nº 22