Xanthi – Kavala – Paralia Ofryniou – Salónica – Véria! Esta foi a rota desta semana! 345km de bicicleta. Demos por nós a ficar preguiçosos, cada vez mais. Ou preguiçosos ou com receio de pedalar montanhas acima, essas, que aí vêm. A princípio planeámos chegar a Igoumenitsa – a cidade onde apanhámos o ferry para Itália. A conclusão a que chegámos agora, é que ainda estamos a muitas paragens de distância desta cidade e, depois de uma previsão feita, calculamos dia 11 ou 12…talvez! Não temos pressa, estamos a aproveitar ao máximo os locais por onde passámos e se de uns não gostámos tanto da cidade, adorámos as pessoas com quem ficámos e, só isso, já é razão mais do que suficiente para adiar tudo!
Depois da experiência em Xanthi, pedalámos para longe e, a cada quilómetro passado, só nos dá vontade de regressar. E tudo se torna mais complicado quando recebemos mensagens a dizer: “até já!” Talvez tenha sido por esta razão que não ficámos mais que uma noite em Kavala, porque queríamos afastar-nos o mais rapidamente possível, para não cair na tentação de dar meia volta. Esta localidade plantada à beira-mar, é só mais um daqueles sítios idealizados para a época balnear. Apesar de possuir alguma história e um ou outro local que mereça uma visita, depois de já termos passado por tantos sítios que achámos merecedores de visitas e depois de lá entrarmos, ficámos desiludidos – pois estes só são belos quando vistos de cima ou de longe, pela composição arquitectónica que têm – achámos por bem fotografá-los do lado de cá e pelo lado de cá nos ficarmos, para não perdermos o sorriso de admiração.
O Inverno vem a caminho e nós vamos ao seu encontro, o que nem sempre nos agrada. Se por um lado a ideia de subirmos as montanhas que vêm a caminho nos agrada, com este tempo, por outro lado, saber que vamos ter que acampar nestas mesmas montanhas, algures, um destes dias, não nos agrada nada. “Nevará amanhã” – disseram-nos hoje.
Sempre com o Mediterrâneo do lado esquerdo e as montanhas do lado direito, o trajecto até nos cansarmos e acamparmos num bar perto da praia foi sempre feito debaixo de um frio enorme, que nos fazia tremelicar e parar, de quando em quando, para uma bebida quente. Nessa noite, mesmo em frente ao mar, e depois de cozinharmos uma nutritiva refeição, entramos na tenda, pois cá fora a temperatura não era nada convidativa a um longo serão de conversa. Atrás de nós, e apesar de estarmos acampados perto de casas, o barulho era quase inexistente mostrando que, também ali, o tempo quente já tinha feito as malas! Ao acordar, e depois de espreitarmos a manhã, reparámos que aquele dia seria ainda mais gelado do que o anterior. Mais longo e mais chato de se fazer, visto que a longa planície continuava até Véria, a cidade onde nos encontramos neste momento.
Chegámos a Salónica, a 2ª maior cidade da Grécia, e tivemos de esperar duas longas horas ao relento, pelas nossas anfitriãs. A cidade, conhecida pelas suas igrejas bizantinas, todas elas construídas entre 320 e 1100, é uma normal cidade europeia, com todas as lojas, cafés, restaurantes e locais da moda, igual a qualquer outra cidade em qualquer outro país europeu e talvez seja esta a razão que nos faz perder a vontade de ficar muito tempo ou visitar mais. Desde que saímos de Istambul e salvo uma ou outra excepção, que nos confrontámos com uma Europa cada vez mais…europeia. Percorremos sítios que poderiam ser neste país, mas que poderiam ser em qualquer outro, pois a única coisa que muda é a língua. Salónica é um destes locais. Apesar das igrejas bizantinas – que sobreviveram aos terramotos, invasões e incêndios, todas elas situadas no centro da cidade, num nível bem abaixo daquele em que a cidade se encontra hoje – serem de um interesse inquestionável. Apesar de vermos escavações diárias que descobrem antigos mercados, casas, fontes, ruas até, por debaixo do solo. Apesar de sabermos que este, como a maioria dos locais na Grécia, é um autêntico tesouro que, a cada momento se pode descobrir, ver, sentir, um pouco mais de história. Apesar de estarmos numa cidade que a nível cultural – dizem -, se pode comparar a Atenas não nos passeámos mais que um dia – dos 2 que ficámos – sem encontrarmos motivos que justificassem uma estadia mais longa. “Não é isto que procuramos” – pensámos para nós próprios. Por isso, a chuva no dia seguinte veio ajudar-nos ainda mais na decisão de ficarmos em casa, a comer o dia todo, até que nos deitássemos! Há dias em que sabe mesmo bem… até quando estamos em Portugal!
De Salónica saímos a meio da manhã e a meta seria Véria. Os 80km que nos separavam, sempre em terreno plano, não ofereciam qualquer dificuldade. Porém, ao chegarmos, estávamos completamente esgotados, sem forças para nada e com uma vontade imensa de descansar. O Patrick veio ao nosso encontro de bicicleta e levou-nos para o seu apartamento – não sem antes nos proporcionar mais uns minutos de exercício, levando as bicicletas até ao sítio onde ficariam guardadas. E é aqui, no mesmo apartamento, que nos encontramos agora a escrever esta crónica. Viemos para uma noite mas, como sempre, desconfiando de nós próprios. Três noites é o que nos espera! O Patrick tem sido um anfitrião à altura e a cidade, situada a pouco mais de 100 metros de altura, deixa-nos ver, mesmo atrás de si, o resto da montanha, com mais de 1200 metros que teremos de atravessar quando partirmos. Será uma ajuda, uma preparação mental ou apenas nos atrasará mais ainda a partida? Não sabemos. Em Véria, sentimo-nos bem, conseguimos caminhar por todo o lado sem que carros nos perturbem, ver as pessoas, entrar em lojas tradicionais, percorrer o pequeno rio que atravessa a cidade e apreciar o antigo bairro judeu, com as suas casas recuperadas, muito coloridas. Entrar numa ou outra igreja ortodoxa que, na nossa opinião, são das mais belas em que entrámos até hoje, com os seus dourados, prateados e cores vivas! À noite, ficamos por casa a conversar ou encontramo-nos com alguns “amigos” e contamos, mais uma vez, toda a nossa aventura. Bebemos café turco, que por aqui é grego (apesar de ser exactamente o mesmo!), enquanto o sol desaparece, lá ao longe. O frio aumenta. Vestimos roupa cada vez mais quente, a pouca que temos e vemos que há necessidade de comprar mais, se é que queremos chegar vivos a Portugal!
Amanhã, é outro dia e não sabemos se a chuva, o vento ou apenas um sol gelado nos receberá. Amanhã!