Antes de mais começo por esclarecer que sou partidariamente independente. Não sou e nunca fui filiado em qualquer partido político. Mas essa circunstância não faz de mim melhor nem pior do que aqueles que estão nos partidos. Portanto, a minha dificuldade com o candidato não é por ser independente. E já agora, também não sou apoiante de nenhuma outra candidatura presidencial.
Incomoda-me desde logo que o slogan escolhido para a sua campanha (“Unir Portugal”) seja demasiado colado à designação do partido único do salazarismo: “União Nacional”. Demasiado mesmo…
Incomoda-me que depois daquele almirante do Estado Novo de má memória – Américo Tomaz – tenhamos outro almirante, em especial num país que tem mais almirantes do que navios. E também me incomoda que jornalistas e comentadores refiram quase sempre Gouveia e Melo como “o senhor almirante”, enquanto os outros são apenas “Marques Mendes”, “Seguro”, “Vitorino” ou “Sampaio da Nóvoa”. Este servilismo linguístico e cultural é inacreditável.
Incomoda-me que num sistema político civil, onde os militares estão nos quartéis a cumprir a sua missão, venhamos a ter um militar sentado em Belém. E não me falem do caso Eanes. São contextos históricos, políticos, pessoais e constitucionais completamente diferentes. E por alguma razão Manuela Eanes apoia publicamente outro candidato.
Incomoda-me que na sessão de lançamento da candidatura tenha vindo vestido de camisa branca, gravata escura e jaquetão azul-escuro, no qual só faltavam botões e faixas douradas para ser um uniforme de oficial da marinha. Ou seja, vestiu-se civilmente mas como se fosse fardado.
Incomoda-me o histórico sebastianismo português que volta ao de cima com este indivíduo olhado como providencial, que juntamente com isso ensaia uma aura de autoridade, bem ao gosto das viúvas de Salazar.
Incomoda-me o aparente unanimismo nas declarações dos comentadores sobre uma vitória antecipada deste candidato e logo à primeira volta.
Incomoda-me que Gouveia e Melo tenha dito que se um primeiro-ministro não cumprisse as promessas eleitorais deitaria abaixo o governo, em evidente atropelo da nossa ordem constitucional.
Incomoda-me uma provável mania das grandezas que o terá levado a afirmar que se candidatava por causa de Donald Trump…
Incomoda-me que um homem que diz querer unir o País tenha deixado atrás de si tanto ressentimento na Marinha quando lá mandava.
Incomoda-me que, ainda enquanto comandante naval tenha ordenado a pintura do casco dos navios atracados só do lado do cais, para fazer boa figura perante os superiores que visitavam a base, já que do lado oposto não dava para ver nada…
Incomoda-me o autoritarismo bem patente no caso do “NRP Mondego”, quando fez questão de dar uma dura reprimenda pública aos marinheiros, preparada para as televisões, instaurou um processo ferido de ilegalidades grosseiras e inconstitucionalidades e depois o tribunal tenha vindo a dar razão aos homens. Curiosamente, a embarcação degradada pode estar a caminho do abate. E resta saber se não seremos nós todos que ainda vamos pagar as respetivas indemnizações.
Incomoda-me que Gouveia e Melo, ou alguém por ele, tenha alimentado uma fantasia sobre o processo de vacinação, numa fase da vida do País em que era urgente encontrar heróis a qualquer custo. Afinal, ele foi apenas o coordenador duma equipa, que nem sequer foi criada por ele, mas o camuflado e a postura de super-herói pelos vistos resultaram bem na presente sociedade da imagem.
Incomoda-me que Gouveia e Melo tenha dito que não se candidatava porque os militares tinham outra função, e se algum dia pensasse candidatar-se era por que tinha enlouquecido e então seria melhor darem-lhe uma corda para se enforcar. Para um não-político já demonstra os piores vícios políticos.
Espero que os candidatos assumidos ou outros que ainda venham a surgir se concentrem em dizer ao que vêm, em vez de se centrarem exclusivamente em Gouveia e Melo. A tirada do diretor de campanha de Marques Mendes sobre o apoio de Rui Rio a este candidato é demasiado patética e revela bem por que razão os portugueses estão a descrer dos partidos do sistema.
E é bem possível que Gouveia e Melo venha mesmo a ser eleito, mas não será com o meu voto. Normalmente não voto naquilo que mais me incomoda. Feitios…
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