O último Congresso do PSD tinha sido em outubro de 2024, nesse tempo longínquo em que o partido, após mais de 8 anos a penar na oposição, estava fresquinho com o regresso ao Governo, ainda que com o apoio mais minoritário de sempre e com a surpreendente liderança de Luís Montenegro, a quem muitos não prenunciavam grande futuro até à estrondosa operação de Lucília Gago e Marcelo Rebelo de Sousa a 7 de novembro de 2023.
Após um primeiro ano em permanente registo de campanha eleitoral, mas com a vitimização travada pela inesperada disponibilidade de Pedro Nuno Santos para negociar o primeiro Orçamento, o primeiro Governo Montenegro procurou sempre a desejada oportunidade para tentar repetir a senda de Cavaco de regressar ao poder com uma maioria absoluta para governar sem entraves parlamentares. A desilusão foi profunda em 2025, perante a manutenção das condições de governabilidade e uma maior dependência da extrema-direita populista apostada em liderar ideologicamente a maior maioria conservadora de sempre.
Ao fim de dois anos, a paradoxal indefinição estratégica sobre a aliança preferencial, se com os moderados que lideram agora o PS ou com a direita populista, conduziu o PSD a um bloqueio político que afunda a governação num arrastamento em que a única vocação é a de sobreviver tanto quanto possível, invocando um direito natural a governar sem prestar contas a ninguém que só apressa a degenerescência.
Neste momento, Luís Montenegro só tem consigo o entusiasmo dos apaniguados nomeados para alguma coisa ou os beneficiários de alguma tença pública. O antigo PSD que garantia os Congressos mais animados e inesperados encostou a bicicleta na entrada do velódromo de Sangalhos.
Aturdido com as más notícias da economia, o absurdo na forma de tentar permanentemente humilhar o PS, que seria o único interlocutor fiável de uma governação responsável, e ainda surpreso com a “traição” dos populistas com o chumbo do Código do Trabalho, o Congresso do PSD foi um enorme bocejo de elogio mútuo entre ministros, em que até o independente Luís Neves desbaratou prestígio ao discursar num congresso partidário.
O PSD suspirou para que entre as idas à praia e os comentários aos jogos do Mundial de futebol ninguém reparasse na penosa missa ritual do fim de semana, em que se tentou até criar emoção com mais um regresso de Santana Lopes.
O PSD está tolhido pela paralisia do Governo, a contar os dias para o fecho do incómodo ano parlamentar que permitirá reduzir a intensidade do escrutínio e evitar enxovalhos como o da reforma da legislação laboral.
Fora do palco do Congresso estiveram os discursos contraditórios dos militantes que, como Passos Coelho, defendem uma aliança assumida com o Chega, que a maioria dos eleitores do PSD rejeitaram nas eleições presidenciais, mas também a linha que diz que entendimentos preferenciais com a extrema-direita são suicidas porque André Ventura só sonha superar e destruir o PSD e porque assim todo o espaço moderado seria oferecido ao PS.
O Congresso foi um monólogo penoso que ignorou, para além das questões de estratégia governativa, os fracassos nas áreas da saúde, da habitação ou do crescimento económico. As medidas ditas “galvanizadoras” apresentadas no encerramento são uma estafada fuga em frente com o único intuito de se perpetuar nesta esgotada forma de governação sem brilho nem viabilidade parlamentar.
Após dois anos de atraso para iniciar as obras da linha vermelha do Metro de Lisboa, que assim perdeu o financiamento do PRR, anuncia-se com estardalhaço a privatização da linha de Cascais.
Após o fracasso dos objetivos estratégicos do PRR transformado num mealheiro do Banco de Fomento , e com um dos mais baixos níveis de investimento público da Europa, Montenegro anuncia a criação de um Fundo Soberano para investimentos estratégicos em empresas ,mas sem dizer a origem dos recursos, num modelo muito comum em autocracias árabes ou em países com muitos recursos naturais como a Noruega.
Renovaram-se os amanhãs que cantam das reformas legislativas, com anúncios já velhos sobre a simplificação da contratação pública ou a reforma dos tribunais administrativos e fiscais.
As alterações orgânicas dos ministérios não têm tido coerência no modelo nem vantagens visíveis para a qualidade do serviço público, pelo que o anúncio da reestruturação do ministério da Saúde é uma ameaça escusada numa área com um plano de emergência já com dois anos ainda por cumprir.
Quando não é possível renovar o cartão de cidadão nem constituir uma “Empresa na Hora”, soa a ridículo mais uma promessa de avançar com a Amália, a nova IA lusitana.
Finalmente, perante o resultado notável de ter transformado Lisboa na cidade da Europa em que é mais difícil arranjar casa com os rendimentos médios e da gloriosa subida dos preços da habitação até 18 % anuais para gáudio das empresas imobiliárias, parece muito suspeita a ameaça sem qualquer clarificação de voltar a mexer na lei do arrendamento.
Talvez ainda surpreendido com o choque parlamentar de sexta-feira, o PSD não teve tempo para mudar o guião do espetáculo de autoglorificação montado para a Anadia. Os portugueses não ligaram ao Governo, entre dois banhos de mar e a decisão difícil do local para colocar o guarda-sol na praia. As televisões mudaram rapidamente a emissão para as vicissitudes do estreito de Ormuz e a preparação do jogo com o Uzbequistão.
Por ser o rosto da paralisia estratégica e o isolamento do Governo e pela incapacidade de superar uma visão feita de pregões inconsequentes, o prémio Laranja sem Sumo do fim de semana vai para Luís Montenegro.
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