São seis da manhã e há um homem a apanhar, da berma de um passeio, o saco que alguém atirou de uma varanda às duas da madrugada. Não o vimos atirar e não o vemos apanhar. É essa a regra silenciosa das nossas cidades: o lixo aparece e desaparece como por milagre, e entre uma coisa e outra há sempre alguém, de colete refletor, a fazer o trabalho que fingimos não existir.
Quero começar por esse homem, e pela mulher ao lado dele, porque é deles que menos se fala e são eles que mais aguentam. Chamam-se cantoneiros, varredores, condutores. Levantam-se quando ainda é noite, trabalham com frio e com chuva, lidam com o cheiro e com os perigos que mais ninguém quer, e garantem, sem que ninguém lhes agradeça, a saúde pública de um país inteiro. No fundo da carreira, um assistente operacional de câmara ganha 934,99 euros por mês, 15 euros acima do salário mínimo nacional, e quem trabalha para as empresas contratadas pelas autarquias ganha, não raro, ainda menos. É quanto vale, na folha de pagamentos, manter uma cidade habitável.
E reparem numa coisa: só damos por eles quando param. Na última greve em Lisboa, os serviços mínimos fixados foram de 71 circuitos e 167 trabalhadores, cerca de um terço de um dia normal. Mesmo um terço foi o que separou a cidade de se afogar no próprio lixo. Diz tudo sobre o tamanho destas mãos, e sobre a injustiça de as mantermos invisíveis.
No virar de 2024 para 2025, e outra vez em 2026, pararam em greve em Lisboa, em Oeiras, na Resinorte, na FCC. Não pediam luxos. Pediam que se contratasse mais gente, porque são poucos para o que a cidade despeja; que a profissão fosse reconhecida como de desgaste rápido, porque é o corpo que paga a conta; que o salário acompanhasse a subida dos preços e que se atualizasse o velho suplemento de insalubridade e penosidade. E houve quem fosse contratado a recibo verde para funções permanentes, que é a forma educada de dizer precariedade. Exigimos ruas limpas das mãos de quem mal pagamos e em número a menos.
E aqui entra a outra metade da história, a que custa dizer. Porque sobre essas mãos despejamos, todos os dias, as consequências do que somos. O saco que salta da janela. Os sacos amontoados à volta de um ecoponto cheio, quando bastava abrir o contentor do lado. Os móveis velhos largados na rua, com a recolha gratuita a um telefonema de distância. O lixo posto ao domingo, contra as regras, a apodrecer ao sol até segunda. A beata atirada para a areia, como se o mar fosse cinzeiro. O papel que o vento leva e que ninguém vai atrás, porque ir atrás dele é, mais uma vez, trabalho daquele homem das seis da manhã.
Não é impressão minha. Em Vila Franca de Xira, um morador da Póvoa de Santa Iria descreveu o que via à porta de casa como um retrocesso civilizacional: ecopontos cheios, papel e plástico a voar, ratos. As queixas sobre higiene urbana subiram em todo o País, com casos de ratos e baratas, e não vêm só da capital, vêm de Almada, de Loures, de Vila Nova de Gaia, de Cascais. Em Lisboa, a deposição de entulho e de monos foi a principal queixa de 2025, mais de 14 mil reclamações. Em Sintra, a junta de Algueirão-Mem Martins diz que as descargas ilegais junto aos contentores duplicaram num único ano. E no Algarve, onde o problema ganha outra escala, Albufeira passa de 45 mil habitantes para 400, 500 mil pessoas no Verão, e o lixo quadruplica, quintuplica, e fica dias a transbordar dos ecopontos debaixo de 40 graus. Só num concelho, e num único verão, um programa de jovens chegou a retirar das praias mais de 50 mil beatas. Cinquenta mil, num concelho, numa época.
Cada português produziu, em 2024, cerca de 1,4 quilos de lixo por dia, 519 quilos ao longo do ano, e mais 4% do que no ano anterior. A conta, em vez de baixar, sobe. Multiplique-se por 10 milhões de pessoas e percebe-se a dimensão do que pedimos àquelas mãos, e a dimensão daquilo de que, colectivamente, nos demitimos.
Até aqui, podia estar a escrever a crónica fácil, a do dedo apontado ao cidadão porco. Não é essa que quero escrever, porque seria injusta e seria preguiçosa. O incivismo existe, mas não nasce do nada. Nasce em cima de um sistema que quase parece desenhado para o desculpar. Em Sintra, deixar lixo fora do contentor dá uma coima que pode ir de 250 a 22.000 euros. Na prática, não acontece nada, e a própria junta admite que nem a fiscalização responde. A regra existe no papel, e no papel morre.
E há um nó mais fundo, que para mim, como advogada, é o verdadeiro centro da questão. Em cerca de 80% dos municípios portugueses, o lixo é cobrado em função da água que se gasta, e não do lixo que se produz. Quem separa tudo, recicla tudo, reduz tudo, paga exatamente o mesmo que o vizinho que deita tudo ao chão. E pagamos por este serviço apenas uma fração do que ele custa de verdade, com o resto a sair dos cofres da câmara, de tal modo que nem sequer sentimos o preço daquilo que produzimos. A DECO chama-lhe, com graça e com razão, Lixo não é Água. A lei mandava acabar com este disparate até 2026. Uma alteração de 2024 empurrou o prazo para 2030. Adiámos por mais 4 anos a única medida que ligaria o que pagamos ao que sujamos.
E o desacerto começa logo na raiz das contas. Albufeira, que serve quase meio milhão de pessoas em agosto, é financiada pelo Estado com base no número de eleitores, e não nas pessoas que de facto ali vivem e sujam. Como se o lixo de um turista pesasse menos do que o de um residente. Pede-se aos municípios que limpem uma cidade inteira com o orçamento de uma aldeia.
O retrato nacional confirma o resto. Portugal prepara para reciclagem cerca de 32% dos seus resíduos urbanos, contra os 55% que a Europa nos exigia já em 2025, e mais de metade do nosso lixo ainda acaba em aterro, com o próprio Orçamento do Estado para 2026 a admitir que alguns desses aterros estão à beira de esgotar-se. Falhámos a meta europeia de 2020, e a de 2025 estava perdida antes de começar. A resposta do Estado, no Natal passado, foi uma campanha de 5,3 milhões de euros, com o engenho de lhe chamar Vamos lixar o lixo. Cartazes, mais uma vez, porque o cartaz é mais barato do que a reforma e tem a vantagem de não obrigar ninguém a decidir nada. E quando se tentou mesmo mudar, ouviu-se a desculpa do costume: o presidente da câmara de Aveiro chegou a dizer que pagar pelo lixo que se produz é um projeto que “não pega em Portugal”.
Pega, e há quem o prove. Na Maia, paga-se o lixo que não se recicla, e quem recicla mais paga menos, sem rodeios: recicle mais, pague menos. Guimarães faz algo parecido desde 2016, com saco pré-comprado. Moura, no Alentejo, separou a conta do lixo da conta da água em 2020. Mértola fá-lo no centro histórico. Não são cidades ricas a comprar civismo, são autarquias que decidiram premiar quem se porta bem e cobrar a quem se porta mal. O resultado não é magia, é incentivo. As pessoas reciclam mais quando reciclar lhes poupa dinheiro, e não quando um cartaz lhes pede por favor.
Fica então o paralelo, e fica inteiro. De um lado, quem suja, e quem suja somos quase todos, em maior ou menor grau, acompanhados por um Estado que não cobra a quem devia, não premeia quem merece, e nem sequer se dá ao trabalho de contar bem o problema. Do outro, quem limpa, mal pago e em número a menos, a apanhar às seis da manhã o que atirámos à meia-noite. Entre os dois, a distância não é de educação. É de dignidade.
Uma cidade não se mede pelo lixo que produz. Mede-se pela forma como trata quem o levanta.
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